segunda-feira, 24 de abril de 2017

Cauby ao Sumir de Vez do Bar Brahma, Levou Consigo Todas as Estrelas



Ressaca de pinga é outro nível. Acho que ainda tô zoado. E a cafeteira aqui do escritório não tá funcionando...Sonhei que roubei um vídeo artístico de uma exposição financiada pela Odebrecht, de um travesti transando com bichos numa fazenda. Era uma versão lúdica de "A Revolução dos Bichos" do Orwell. Acordei gozando. Faz um caralho de tempo que não escrevo. O sonho deu a dica, assim como o cara magrelo no escuro daquele cinema ordinário: "Lá atrás tem chupeta"! Sim...Escrita...Traveco e gozo. Ele olhava para o céu, atrás de estrelas..Mas elas já não apareciam faz tempo. Parece que Cauby, ao sumir de vez do Bar Brahma, levou junto consigo todas as estrelas. "Blim! Blom"!! O marasmo do dia sempre era quebrado pela campainha, ele balança o rabo e corre ansioso para a porta. "Paulo! Sai! Paulo Castro! Tô falando com você, caralho"!! Ele solta um guincho insatisfeito e vai para trás da perna musculosa e depilada. A porta é aberta e entra todo sem jeito, um tipo gordo, com goma no cabelo, óculos e uniforme de cobrador de ônibus. A figura loura de ombros largos o acompanha a um cubículo escuro com apenas uma cama. "Então...Você precisa me pagar já, ok? Vai comer ou vai dar"? O gordo começa a suar e solta um "dar" quase inaudível, sem encarar a figura loura, que sai com um sorrisinho irônico na cara, pensando porque ainda pergunta. Eles sempre querem dar. Paulo fica parado em frente a porta entreaberta, observando o homem se despir. Este, então, se aproxima fazendo festa, desajeitado, no crânio do poodle. "Paulo Castro,hein? Cachorro de viado tem sempre nome composto, né?" Sussurra o libidinoso balofo, lambendo o lábio, e de repente: "Grrrrrrrr"!!!! "Aiii!! Caraalhoo"!! A figura loura surge, só de calcinha rosa, esbravejando com o cão: "Paulo Castro! O que você fez"? O gordo senta-se na cama, chupando o dedo e xingando: "Cachorro filho da puta"!! A figura loura se aconchega: "Deixa eu ver...Vai...Deixa eu ver! Isso não é nada...Toma! Aperta esse papel higiênico....Isso...Viu? Toma...Tenho uma coisa pra te deixar feliz...Isso...Chupa..." Paulo volta a observar da porta, o gordo agora está de quatro. O pinto do cachorro desponta com sua cabeça pontuda como uma flecha, na mata de pelos, como se um aborígene estivesse pronto a disparar contra um animal branco, exótico e apetitoso. "Ai...Ai...Que porra é essa"? "Meu pinto no teu cu...Porque"? "Não! Na minha perna"!! O poodle havia se colado à perna do gordo, ansioso por penetrar o orifício que fosse. "Paulo Castrooo"!! A figura loura, que até agora apresentara voz aveludada, emite um urro que poderia ter vindo do mais profundo da garganta de um peão de obras. Na noite seguinte, o cão observava da janela, a lua cheia, com o uivo engasgado na garganta e os olhos a arderem. "Puta merda, Paulo Castro! Deu agora pra espalhar toda a ração, é?" A figura loura recolhe a comida, sem imaginar que na verdade, as fileiras de grãos compunham uma ode poética a grande bunda branca de um cobrador de ônibus, enxergada na lua cheia, por um cão apaixonado, que sonhava em ser escritor.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A Bala que não é Disparada



Vinho e queijo,
Tarde de domingo,
pousou sobre mim, um olhar de desprezo,
a dor que me acometia o estômago
virou um vazio imenso,
criando este vácuo,
deixando tão pesada esta cabeça
que pende, com tantas idéias desesperadas,
Na escrita, encontro o equilíbrio,
A poesia é a bala que não é disparada
na roleta russa da vida.

domingo, 2 de abril de 2017

Até o Esgoto das Possibilidades



Seu rosto como chama
queima meu pensamento,
este jornal velho e sensacionalista
que teima em guardar antigas notícias de crimes de paixão,
Te imagino nos braços do outro,
raiva e desejo impedem-me de seguir em frente,
como serpentes em meus calcanhares,
desço até o esgoto das possibilidades
sujando-me na lama da humilhação,
Não faça pouco da minha poesia,
é minh'alma exposta
como um ferimento que não quer fechar,
Só peço a agulha e a linha
que são seu olhar que se desvia
e os lábios a lançarem beijos
às bocas que te sorriem tão falsamente.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Minha Jaula Invisível



Me movo pra lá e pra cá
como animal acuado,
atrás de barras de incompreensão
que me mantém longe de teu coração
que bate assustado,
receoso de velhas palpitações,
de erros do passado,
O dardo tranquilizante da distância
me deixa grogue,
Uma borboleta com uma coroa de fogo
voa longe,
mas me mantenho aqui,
quieto,
Percebo então,
que esta saudade que me consome
é a jaula invisível
que aprisiona a besta-fera,
enquanto a bela foge.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Bexiga de Preservativo



Sou o verme
que invadiu teu jardim intocável e florido
numa exposição desnecessária e inconveniente,
Tua vida é uma página publica
onde só cabem os belos e os felizes,
Os desmazelados
tu chamas apenas 'in box',
Mas tudo bem,
Ser um revirador de lixo
não me torna menos digno,
Assim como a criança que vi hoje cedo,
na praça, a brincar com uma bexiga de preservativo.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Querofobia



Paro em frente ao que me parece ser um precipício
É difícil pular
mesmo que tenha um tapete de rosas no fim
para amortecer minha queda,
Repito que quero
que quero,
Mas a querofobia me domina
Sim. É tão difícil se jogar
quando pensamentos preenchem o cérebro
como um bloco de cimento
sobre as raízes das flores
deste jardim desconhecido,
Querofobia,
Sim. É tão difícil se jogar
quando caminhamos num mundo duro
em que o que tanto procuramos
se apresenta como um adesivo pisoteado no chão
escrito 'felicidade'.

O Riso da Hiena



A amargura é abafada
pela máscara do palhaço,
E o som estridente
que engana teus ouvidos
é o riso da hiena
cujo hálito cheira a carniça
contendo os pedaços da carcaça de saudosas ilusões,
o resto da refeição do leão do tempo,
Tenho um cemitério em ruínas no peito
e as batidas de meu coração
são como o grasnar do soturno corvo de Allan Poe:
Nunca mais!
Nunca mais!
Nunca mais!