quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Brisa Maldita

   
--- Boa noite. Meu nome é Josenildo e eu sou viciado em pornografia.
    As pessoas sentadas em volta o cumprimentam apaticamente.Muitos tem a cabeça baixa olhando para os próprios sapatos. Josenildo é muito magro. Tem queimaduras e bolhas no rosto, lábios e nos dedos das mãos inquietas. Seus olhos são vermelhos. O músculo do braço esquerdo se contrai e ele o agarra, sorrindo um sorriso de dentes podres.
-- O que você gosta de ver, Josenildo?
    Pergunta o homem de terno, que o encara rapidamente e volta a atenção as manchas de barro que parecem se mover, formando um desses testes de Rorschach nos velhos sapatos. Um dos sintomas que a pessoa sente, quando eu me aproximo.
-- Gosto de ver viciadas em crack chupando caras por grana...Adoro... Passo o dia todo vendo...Até no serviço...
-- Tá na fissura, Josenildo?
-- Que porra...
    O homem de terno abre a braguilha e de seu caralho sai uma fumaça intensa que domina todo o ambiente.
-- Fuma aqui, filho da puta!!! Ahahahahaah!!!
    O pau havia se transformado em um enorme cachimbo de crack. Faço com que o homem de terno avance. Ele é minha marionete agora. Faço saírem de chifres de sua testa e uma língua reptiliana se agitar para fora da boca que baba e sorri sarcasticamente. Adoro brincar com essa imagem que inventaram de mim,só para ver o pânico nas caras de paspalhos deles.
-- Ao se viciar nesses vídeos escrotos, dominei sua mente e comecei a fazer com que fumasse crack por osmose, seu imbecil! Agora você é meu!! Segurem-no!
   As outras pessoas da roda saem de seu torpor e o agarram. Josenildo tenta se desvencilhar, mas não tem forças. Debaixo de sua cadeira surge uma mulher esquelética, cheia de feridas purulentas e poucos dentes na boca escancarada. Ela rasga suas calças e tenta fazer o mesmo com a cueca, numa ansiedade animalesca.
-- Deixa chupar, caralho! Você vai gostar!
  Enquanto é sugado pela boca banguela, verdadeiro aspirador humano, ela acende um isqueiro embaixo de suas bolas.
-- Aiiiiiiii!!!! Nãooooo!!! Socorroooo!!
  Não tinha mais testículos, eram duas pedras a fervilharem no meio de suas coxas, da cabeça inchada do pau sai fumaça, que é tragada pela criatura bestial.
-- Hmmmmm....Vou te fumar todiiiinhooo...Chuup...Chuuup...
 Ele então consegue se desvencilhar dos braços que o agarram, e acertar um potente soco com as forças que lhe restam no crânio da mulher, que se espatifa contra o chão. Corre trôpego, em direção ao machado ao lado da mangueira e o extintor de incêndio.
 No dia seguinte, grande alvoroço e uma equipe de TV em frente ao antigo cinema pornô da Av. São João.
-- Bom dia! A noite passada foi marcada por um verdadeiro massacre nesta igreja evangélica, que realizava um trabalho de ajuda a viciados em pornografia. Josenildo Santana, porteiro, 37 anos, matou a machadadas o pastor Evaldir Arantes, 45 anos, e os demais participantes da reunião. Josenildo, aparentemente era usuário de drogas e segundo sobreviventes, começou a ter alucinações e a agir de modo violento. Estamos aqui com D. Raimunda Pereira e Damião Esperança, que darão maiores detalhes!
-- Óia...O homi começou a gritar coisa sem sentido, depois pegou um isqueiro e começou a se queimar lá embaixo...Sabe? Nas partes?
-- I-Isso...E-Ele bo-botou fo-fogo nos o-ovo...De-Depois pe-pegou o ma-macha-cha-cha-do e ma-ma-chadou o po-povo to-todo!
-- Isso! Mas uma hora ele pisou e escorregou num "Piiii"! cortado que tava no chão....Acho que era do pastor...Daí caiu de cara na lâmina do machado!
    Desligo a TV, divertido, o alarme toca atrás de mim. Alguém está acessando o "X-Videos" e jogando a palavra "Crackhead" na busca. Hora de sentir a "brisa maldita"...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Bukkake de Milk Shake

Meu coração é analógico,
bate aos estímulos mais sutis
como um pássaro livre de gaiolas tecnológicas,
Meu coração é uma foto preto e branca do Pereio pelado,
Ambíguo, antiquado, aparentemente repulsivo
mas capaz de dizer eu te amo gozando na sua cara (bukkake de milk shake)
e derrubando a porra do Cristo Redentor
com uma cara mais lavada ainda,
Meu coração é analógico,
bate aos estímulos mais sutis,
Uma loira gostosa acaba de passar por mim,
trazendo seu bichinho pela coleira,
Na maioria das vezes, a beleza está nas coisas mais bestas,
O nome da cachorra era Stéphanie
e meu coração analógico
bateu mais divertido.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Minha Vida Sempre Foi Um Grande Abraço Covarde


A catarata me impede de fazer o que sempre amei: Ler. Então, já a algum tempo, entreguei-me ao repulsivo hábito de assistir televisão, tendo de enfrentar bravamente a ofensiva programação aberta. Ás vezes a pressão é tão grande, que penso em me atirar sobre o aparelho, abraçando-o e assim tentando impedir um verdadeiro nocaute anti-cultural.
Algum tempo atrás, parei pra ver essa porra de MMA. Nunca fui de briga. Minha vida sempre foi um “grande abraço covarde”. Explico: É aquele momento em que um dos dois lutadores abraça o outro, quando a porrada começar a ficar séria. Mas no caso dessa modernice de artes marciais mistas, a coisa já é demais. Nego agarra o outro num frango assado dos mais pornográficos. “Não pode ficar de pau duro! Se o cara ficar de pau duro, tá fodido”! Me disse um amigo praticante de Jiu-Jitsu, sobre o agarramento tatâmico. Boas mesmo eram as lutas do Maguila. Nosso herói do bom e velho boxe. O cara nunca abraçava, mas era abraçado pra caralho. Assistia suas lutas com mais gosto que os filmes de Stallone ou Scwarzenegger. A porrada era real e o cara era bem próximo da gente. Próximo e com o mesmo linguajar  do peão de obras que víamos na esquina ou aquele cara que sempre estava bebendo pinga no boteco, dia ou noite. Pois até pra ser pinguço, tinha que ser macho.
Meu abraço covarde sempre estava à disposição no meu bolso, junto a uma folha de papel. Era a caneta Bic, sempre levantada como se fosse um golpe de direita, mas sempre acabava como um abracinho  dos mais vergonhosos, em volta do pescoço de touro bravo da vida. Já estou no fim da picada e com plena consciência que meu abraço covarde não terá mais tempo de se disfarçar como algo mais feroz, como a mordida dada por Tyson, na orelha de Holyfield. Será sempre poesia e lamentação, até o ponto final, que se aproxima, inexorável. Ou enfim, o soar do gongo, que afinal, é o sinal da libertação de todo lutador covarde.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Meu Nascimento

O gato lambe a pasta cinza avermelhada colada ao asfalto quente. Observo o pombo imundo servindo de alimento..A morte dando mais um dia de vida ao felino caolho coberto de sarnas. Penso no homem com a cabeça estatelada no chão, nos confins da Espanha. Meu avô, bêbado e com a barra de ferro ainda vibrando na mão. Os olhos febris se alimentando do chafariz rubro a colorir as negras botas militares. Penso na fuga com a família para este terceiro mundinho e arroto a cerveja com a coxinha fria. Mais um dia alimentado pelo homicídio. O moleque pede um trocado. Mando embora. Apenas mais um nascido dessa estupidez que me enoja. Me respeitem, porra! Um homem deu sua vida miserável pelo meu nascimento!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Corra como louca! Corra!

Desejo obsessivo
de romper este vínculo,
se curar dele, como se fosse uma doença,
dessas que deixam feridas purulentas,
e que causam ânsia de vômito só a simples visão,
Desejo obsessivo de reparar este erro
como furar um cano, na tentativa de pendurar um belo quadro na parede,
Alguém que não te satisfaz
a porra de um canário mudo em gaiola dourada,
Desejo obsessivo
de correr a outros braços
onde encontrar, enfim,
a segurança e rigidez tão sonhada
como escada de madeira nobre e corrimão firme,
É preciso correr
pois o tempo, este é um queniano alucinado e de pernas longas
em prova de São Silvestre,
Corra como louca! Corra!
(tive que lembrar da porra daquele filme da ruiva que corre)...


terça-feira, 6 de novembro de 2018

A Desolação

Meu peito é uma trincheira bombardeada,
Sonhos jazem sobre meu corpo inerte
como companheiros de luta
calados a força,
O morteiro da estupidez explodiu aqui do meu lado,
Luminoso como um sorriso de escárnio
Me finjo de morto
Venha
Chegue mais perto
Tenho os bolsos cheios de versos
E o espirito livre de correntes.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Dorival teve Dor de Dente


Acorda cedo, Dorival,
vai pegar logo no batente,
mais um dedo vermelho quebrado, nada mal,
o que lhe incomoda, é esta dor de dente

Trabalha em infligir a dor,
Normal, tudo bem,
mas dor no próprio dente, que horror!
Melhor causá-la a alguém

Alfinete debaixo da unha
e o safado ainda diz que é inocente,
seu filho pequeno, como testemunha,
É. Maldito subversivo. Nada inteligente.

Martelada nos dedinhos
a criança abre o berro,
ainda faltam 8 soldadinhos
Ignorar a dor do filho...Que erro!

Desconta teu mau humor,
Racha ele ao meio, Dorival!
A cada estocada, a carinha dele, de terror
pra um menino, nada mal...

Deixa pra trás o lixo e o resto
da maldita subversão,
Limpa as mãos de trabalhador honesto
Sangue, fezes e vômito pelo chão

A excitação na hora,
até o dente, anestesiou,
não vê a hora de ver sua senhora,
um prazer decente, diferente deste, que gozou

Pede ao doutor que vá com calma,
que dor assim, gente de bem não merece
Mas enfim, tirou como se fosse um peso da alma,
E afinal, a pátria amada sempre lhe agradece

Nada como a harmonia do lar,
Uma oração e o cafuné na cabeça do filho,
Mais dois vermes conheceram seu lugar
Lá fora, a bandeira tremula e o sol reafirma seu brilho.