segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Abominável Homem Que Cumprimentava

    --- Bom dia!
         Sandro pára, aterrorizado. Sua memória fraca lhe atormenta. Odeia quando alguem lhe cumprimenta, e ele não se lembra quem é a tal pessoa. Aquele sorriso aberto, luminoso, aquele olhar franco. A mão estendida, tão jovialmente. Tudo na atitude simpática daquele homem, mexe com os nervos do irritado Sandro, que não consegue esboçar nenhuma reação, só um movimento moribundo de cabeça.
        Ele passa pelo homem, e ouve novamente, o 'Bom dia!' Olha para trás, e vê que o simpático e enigmático ser cumprimenta mais outra pessoa, que se mostra tão confusa como ele. Quem seria aquele abominável homem que cumprimentava?
       A nova vítima do cumprimento, se aproxima dele.
   ---- Deve ser um louco! Não o conheço!
   ---- Cumprimentou-me, tambem! Alguem que sai cumprimentando as pessoas que não conhece, definitivamente deve ser um lunático!
   --- Sim! E perigoso! Deveríamos fazer algo!
   --- Vamos ligar para a polícia! Isso não pode ficar assim!
        Saíram correndo, de encontro a um telefone publico. 'Talvez, mais uma vítima do cumprimento do louco!' Pensa alto, Sandro, e o outro homem, que não sabemos o nome, balança a cabeça, concordando com tão luminoso pensamento!
  ---- Alô! Policia? Eu, mais uma pessoa, fomos vitimas do cumprimento de um homem estranho! Obviamente, deve ser um louco! Ele deve ter cumprimentado, tambem, o telefone do qual me sirvo para lhes pedir socorro!
  ---- Oquê?! Ele cumprimentou o telefone publico?
  ---  Ah...Bem...Sem duvida! É um louco varrido!
  ---- Como se vestia?
        Logo, a policia tem a descrição do louco que cumprimentava telefones publicos, e as viaturas estavam a sua procura, com pistolas sedentas de sangue!
       Enfim, o terrivel 'cumprimentador' é avistado, e pego em flagrante, cumprimentando uma senhora idosa, que inocentemente, correspondia ao cumprimento!
 ---- Parado, aí, meliante!
 ---- Bom dia, seu guarda!
 ---- Paradoooooo!!!!!
        O sorriso brilhante do 'criminoso' cega temporariamente, um dos policiais.
 ---- Meu Deus! Esse sorrisooooooo!!!!!
       O outro, tremendo todo, mal consegue empunhar o revólver, ao ver se aproximar "o monstro" com a mão estendida para um ameaçador aperto de mão.
---- Atira, Junqueira!!! Ele vai nos cumprimentaaaarrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!
       Bang! Bang! Bang!
      O corpo de um dos ultimos homens gentis, tomba na calçada cinzenta, debaixo de um céu cinzento, na cidade das pessoas cinzentas. Que volta a normalidade, com todos carrancudos, trombando uns nos outros, numa correria sem sentido, cujo destino é lugar nenhum.

A Canção Interrompida

--- Libra tem uma característica de equilibrar as pessoas a sua volta... Mas não se equilibrar! Vive o tempo todo desequilibrado!
     Passo por esse grupo de pessoas, saco meu caderno de anotações e escrevo a fala desse sujeito, que diz uma verdade sobre mim. De repente, sinto um punho fechado me empurrar, não se parecendo nada com o que um assaltante faria, me viro preparado para ver algum conhecido rir de minha cara. Apenas vejo uma mulher maltrapilha passando, naturalmente uma louca. Sim, sei que é ridículo, um pensamento muito idiota, de minha parte, mas deu-me vontade de ir lá, e chutar-lhe a bunda! Graças a Deus, só fiquei na vontade, resmungando, preocupado se minha camiseta limpa, já não estaria mais limpa!
    Espero fechar o farol, a Rua 7 de Abril vomita veículos e motocicletas assasinas, loucas para chegarem ao seu destino na hora certa, nem que isto custe a vida daquele que está em cima dela, ou de qualquer outro infeliz que passe na sua frente.
   Uma mulher com cara de india, está sentada no chão, com suas duas crianças, em meio a imundície e artesanato feito de palha e penas. Um cego vem cantando e atirando sua bengala para lá e para cá. Eu vi o que iria acontecer. Assim, como alguem viu quando a louca me empurrou, eu vi a bengala do cego bater na perna da pedinte, e uma das crianças gritar assustada. O cego tambem se assusta, e todo sem jeito, continua o seu caminho de trevas, mas a canção foi interrompida. Assim, como interrompo esse relato.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Artista

O artista
é complexo,
O artista
não tem nexo,
O artista
não tem cor,
Aroma, nem sabor,
O artista
é o vento que
carrega a poeira do mundo,
E dela
faz a tinta que colore
a face envelhecida
do tempo,
O artista
é o fluido vital
que corre
nas veias
de um moribundo rabugento
chamado cotidiano.

Meus Pés

No chão
que se move,
meus pés
reclamam quietos
um pouco de carinho,
Afinal, coitados,
carregam um peso enorme,
de alguem perdido
na multidão.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aquele Paulo Virgilio*

Hoje reli
um velho livro,
Antigas pegadas
nas areias
de um tempo distante,
Aquele Paulo Virgilio
Conservará os sonhos
de outrora?
Como ser poeta
num mundo onde
homem não chora?
Não tema
que te achem fofo,
Algodão doce
nunca será concreto,
Não faça como eu,
Se esconder no cinza,
Se houverem flores
ao redor,
Flores tambem
nascem
de versos simples,
Mesmo condenados
à fina camada de pó
de um falso esquecimento.


*Dedicado ao amigo e poeta Paulo Dauria.