segunda-feira, 23 de julho de 2012

Divina Graça

Não posso respirar,
a fraqueza me envolve
como um lençol escuro,
A realidade é composta
de paredes de tijolos,
lá fora, as crianças
bincam ao sol,
lá fora, o corpo
da mulata torra
bezuntado de bronzeador,
A inércia flui
para dentro de meu ser,
Ser que não se move,
como a pedra no fundo d'água,
Sou um velho agora,
o espelho me nega sua simpatia,
pintando os cabelos de minha barba de branco,
marcando com os cacos cortantes
da alegria estilhaçada
as rugas, como erros estupidos
em minha face atônita,
A cabeleira da juventude
arrancada por este caçador implacável
chamado tempo.
do crânio do que antes fôra
feroz e forte leão,
Sou aquele senhor
jogando milho aos pombos,
como restos de esperança,
A esperança que se alimentem
de seus velhos sonhos
e voem o que ele não voou,
e agora, só espera o fim,
Mas queria mesmo
era ser um daqueles urubus
a sobrevoarem sua carcaça,
que se alimentam da carniça
de seus dias jogados fora,
Mas que rodopiam,
nesse oceânico e infinito azul
com a mais divina graça!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Maldita Condição


Tentei te amar
num colchão de algodão
e lençóis de paixão
suaves como cetim,
Cama de pregos é o que me resta
refestelado sob pele rasgada
a dor do desprezo me mutila,
Testículos perfurados,
e eu não me movo
consciente que sou merecedor.
Reto e uretra são uma só chaga,
Sangue e dejetos são chorados
pelo olho que é o buraco
que é o meu corpo agora,
Sou um vazio exposto,
exposto aos olhos do mundo,
olhos estes que se fecham
à passagem do homem-retalho
que um dia ousou
assumir sua maldita condição
de poeta.