sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

É um pássaro? É um avião? Não! É o Caráter de Aço, Que voa Muito Além do Chão!




Na juventude, nunca fui grande fã do Superman. Eu o achava poderoso demais. E "bom" demais. Não, "bom" não é o termo adequado. Ele era a personificação da justiça. Superman era careta ao quadrado. Minha infância se passou durante a ditadura militar. E, sei lá, Superman tinha um ar de "cantar hino logo de manhã" junto com o diário hasteamento da bandeira. Tinha algo de ufanista naquele herói. Como foi satirizado por Frank Miller nos anos 80, na série "O Cavaleiro das Trevas", em que o Azulão entrava na porrada com o morcegão como mero boneco nas mãos do governo americano. Eu preferia muito mais o Batman do seriado caricato dos nos 60, com sua barriguinha proeminente e acompanhado de seu ridículo garoto prodígio. Sim, hoje vemos que um garoto vestido com cores berrantes acompanhando um adulto em aventuras "perigosas" era de fato uma grande piada. Mas ele era uma ponte de identificação com a molecada. Mas ninguém admitia. Todo mundo queria ser o Batman na hora de brincar. O Robin era para os fracos. Claro que não é coisa que ninguém tenha orgulho de admitir. Mas, em algum lugar no fim dos anos 70, eu quis sim, ser o Robin! Sim, posso admitir hoje que que sou "artista", que já me apresentei de palhaço e de fralda e que não estou nem aí em mostrar que gosto de ser pisado e de lamber o pé da mulherada. Então, que tem demais em dizer que eu já quis ser o Robin? Por causa dos "boatos" envolvendo sua parceria com o morcegão? Olha, ainda posso dizer algo em defesa do menino prodígio: O ator Burt Ward tinha que passar gelo nas partes intimas, que por serem "avantajadas" podiam ser ofensivas aos pudores televisivos da época.
Enfim, nos últimos tempos aconteceu uma coincidência, envolvendo não o Robin, mas sim, aquele herói de quem não era tão fã. O Superman. Meu amigo Paulo D'Auria me emprestou o seriado "Smallville", e ao mesmo tempo estava começando a ler a obra de Friedrich Nietzsche. O que tem a ver uma coisa com a outra? O conceito do Super-Homem (Ubermensch) é exposto no livro de Nietzsche, "Assim Falou Zaratustra". Claro que um conceito filosófico:

"Super-Homem é o tipo superior de homem que conseguiu superar todos os valores. "O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha? E o mesmo deve ser o homem para o Super-Homem: uma risada ou uma dolorosa vergonha." "O homem é como uma corda esticada entre o animal e o Super-Homem- uma corda sobre o abismo."*

*Assim Falou Zaratustra.

E depois veio a surgir o Super-Homem (ou Superman, como quiserem) que todos conhecem, fruto do assassinato do pai de Jerry Siegel, que para lidar com sua dor, criou "o homem de aço", à prova de balas.
E porque, agora na casa dos 40 anos, vim a me interessar por um personagem que à primeira vista requer toda imaginação e bons sentimentos típicos da fase infantil? Exatamente por passar pela crise dos 40, a decadência física e a percepção nítida da má influência que um mundo sórdido produz sobre as melhores das intenções. Existe o desejo de se superar, manter-se intacto por cima de todo o lixo cotidiano, incólume a toda ideologia e pensamento estreito do cotidiano, como o Super-Homem de Nietzsche. O mundo é estranho para mim, mais do que nunca, e realmente a sensação de ser um alienígena aumenta a cada dia. E cada acontecimento, cada pessoa que não compactua dessa sensação de estranheza tem o poder da Kriptonita, tentando tirar as forças do Super-Homem. E é tão difícil não se envenenar, não acabar por fortalecer o lado negativo, que faz parte de todos, mesmo daqueles que tentam se superar. Como o personagem "Bizarro" que apesar dos poderes é o contrário do Super-Homem. Hoje, não tenho vergonha de dizer que sou fã do Super-Homem, assim como não tenho de um dia querer ser o Robin...Se bem que com o menino prodígio as coisas não eram tão complicadas. Era só estar sempre do lado do morcegão e usar o cinto de utilidades. Mas hoje, as coisas são bem mais "bizarras", e o que impede de um homem com super poderes ser um flagelo para o mundo, na verdade é que mantenha "um super caráter", algo que vai manter o homem acima de todos outros, mesmo sem o poder de voar. É muito dificil. Mas, algo que não podemos abandonar de nossa antiga criança, mesmo deixando os super heróis para trás, é a capacidade de sonhar, motivadora dos "vôos" mais impossíveis.

domingo, 17 de novembro de 2013

Os Dias



Os dias são gigantes com pés de concreto
Nós sabemos a velocidade que tem
e o estrondo que vem a seguir
É preciso estar preparado
para se jogar numa vala
para não ser esmagado,
Os dias não pensam
em quebrar o ritmo
eles vem tocando
uma flauta feita de nosso fêmur fraturado
Não há como quebrar o ritmo da musica
A musica dos dias
é que foi feita para quebrar
e triturar os fêmures
e tentar nos imobilizar,
Com os antigos golpes
os dias quebraram também
nossa pequena gaita da esperança,
O que sobrou em nossos lábios agora
é o pequeno apito da auto-preservação,
que com seu ruido estridente
mesmo sem um pingo de melodia
alerta aos nossos dias
que ainda não fomos derrubados.

O Amanhã



O amanhã
é o minotauro
no labirinto do hoje,
Já ouvimos dizer que ele é feio
que ele é forte,
Que podemos perder a vida
ao encará-lo,
Mas, desde o primeiro dia
desde quando o cordão foi cortado
começamos a percorrer o labirinto,
Se tentarmos voltar atrás
nos perderemos,
Não dá mais,
É preciso segurar com firmeza
a espada do caráter
e afiá-la na pedra da fé em si,
Pois a besta do desconhecido espreita,
Logo na primeira curva
ou logo mais adiante.

Chute



Numa tentativa vã
tentei enxergar o que havia
entre o vão dos dedos dos pés do tempo,
Pequenos medos
Inibidores de grandes conquistas?
Quando percebi,
O tempo já havia ido
a passos largos,
depois de dar forte chute
nos bagos de minhas ilusões.

Surdez



O som da razão
é aquele do alfinete
ao cair no chão,
Tão difícil de se ouvir
entre a fanfarra
das distrações mundanas,
E quem por acaso
sofrer desta surdez especial para com ela
De modo algum
pode ser chamado deficiente,
Tal indivíduo
é um abençoado!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Coceira



Meus dedos
são feitos de lâminas afiadas
Destruo o que tento tocar,
E lá, em meu âmago
existe uma coceira insuportável
mas que não me é permitido roçar,
E vivo a vida,
esperando que por fim
a coceira me consuma,
E a lembrança de minha poesia
lance alguma luz
sob a chaga purulenta à se deteriorar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Desejo



Circunstâncias
como correntes
aprisionam meu desejo
que debate-se
dentro das entranhas
que ardem como grades de uma cela em brasa,
Debate-se, indignado,
Inocente
condenado por crime hediondo,
E a poesia é o que resta
o canto triste de um pássaro exótico
trancafiado por ser diferente.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Poema Homicida



Sonhei
que o mundo moderno
tinha a forma de um bebum de bar,
que se entorpecia consumindo em sua garrafa
o conformismo, os programas de televisão,
as redes sociais e os discursos políticos,
Decidi então, ameaçá-lo
com uma faca enfiada num livro de Rimbaud,
Saí com lâmina e páginas banhadas de sangue nada inocente,
a pasmaceira foi executada
pelo abominável crime de não pensar...
Ops...De não gostar de poesia!


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Caminhada



O amor
é o cadarço de um sapato,
que conforme a pressão
da caminhada
vai se afrouxando
e alguém então
tem que se agaixar
e apertá-lo novamente,
Mas, quando é a sola que gasta,
um sapateiro pode
até dar um jeitinho
Mas nunca mais
vai ser a mesma coisa!

Poeta Bom



Estou leiloando
um velho coração,
que há nem tanto tempo assim
estava disposto
à dá-lo de graça,
Mas, nessa altura da vida
percebi que avaliava
o seu preço
conforme a equivocada
tabela do mundo,
E o mundo é hipócrita,
É um mentiroso ganancioso
e pernicioso,
Um fraco
que não se reconhece no espelho
Mas eu,
Nem tão velho assim
hoje, já me reconheço,
E sei que este velho coração
que antes, ao meu ver, não valia nada,
Pois só sabia
era fazer poesia,
e se enternecer com as dores
desse malvado mundo,
Ah! Esse coração vale muito!
E, se ninguém estiver disposto
a pagar o preço justo,
enterro este tesouro comigo,
E, quem sabe um arqueólogo do futuro
o ache,
em forma de papiro,
cheio de versos, uns raivosos
outros, cheios de doçura,
E este arqueólogo,
então, sinta alguma emoção,
Por que, além do real valor de meu coração,
outra coisa que aprendi nessa vida, é que
Poeta bom
É poeta morto!


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sentir



Sentir
é o oposto
que sem ti
sinto por aí,
Sentir
é algo que
contigo
em minhas veias
percorria,
E, nem nas nuvens do céu
onde o poeta encontra formas
nem lá, encontro mais,
Por que sentir
é algo que sem ti
faz com que se perca
todo sentido de se existir,
Mas, então percebo
que este antigo amor
transmutou-se em saudade
E o veneno do rancor
é agora arte,
E este sentir poético
mesmo amargo
Pode ser...
Por que não?
Felicidade!

Coração




O coração
jorrou como fonte
e os peixinhos dourados da expectativa
morreram no solo seco da realidade,
abrindo e fechando suas bocas sequiosas
se afogando no invisível oxigênio
que mantém em pé
aqueles de natureza diferente,
que com seus pés seguros, robotizados,
vem e pisam nos peixinhos,
O coração bate mais devagar,
Não acelera mais como antes,
O coração também robotiza-se
Apesar dos olhos
que ainda se recusam
a acompanhar o ritmo mecânico
do agora, relógio despertador,
que na hora certa tocará,
acordando enfim, o velho homem
para um nova realidade.

Olhar Além



Pessoas de pedra
me cercam por todos os lados,
Pessoas-edifício
que me olham de cima,
seguras em suas convicções-estruturas
já enferrujadas a tempos,
Sei que um dia, haverão de ruir,
Mas, até quando seus ideais-quitinetes
estarão entulhados de mobílias rústicas e pesadas?
Até quando abrigarão inquilinos vis
que se recusam a abrir suas janelas
e fazer com que seu interior seja arejado
por um novo ar de entendimento?
Procuro manter meus pés-pensamentos
aqui embaixo
e tentar ignorar sua presença,
E, se chegar o dia em que terei
que olhar para cima
Que seja um olhar além,
E não, de quem se humilha.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sincero




Leminski,
Lê Bukowski,
Lê até pequeno príncipe,
Lê de tudo,

Porque mesmo como já foi dito
que o poeta é um fingidor,
se ele realmente finge

O que ele finge é o que
há de mais sincero,
que é a verdadeira dor
que capta ao seu redor.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Escuro



Ainda que só houvessem flores
ainda haveriam os espinhos,
Ainda que só nascessem alegrias
ainda haveria a depressão pós-parto,
Por que mesmo
que sempre fosse dia
a luz atingiria só um lado da Terra,
Não há escapatória,
É preciso, como cego
aprender a tatear no escuro.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Amargo




O tempo de outrora
é um grão de poeira
dentro do bolso do amanhã,

As circunstâncias
se mexem como monstruosos dedos
mas o grão se afunda mais e mais
Entranha-se na costura do conformismo,

O tempo de outrora
está perdido,
Uma musica,uma fotografia
te faz lembrar dele,

Te faz lembrar
de quem você realmente é,
Pois o estranho no espelho
com certeza não é,

E o fim dos que estão à sua volta
como folhas secas caindo,
Isso é inaceitável,
como a ultima colherada de sorvete,

E você percebe
que a época doce do sorvete da ilusão
já passou,
derreteu-se na boca avida da expectativa,

Não há mais como saciar a sede de alegrias,
Você aceita beber os seus dias
como um remédio amargo,
E ele tem gosto de lágrimas,
"-- Você precisa tomar!"

Com uma careta, você aceita
Não há nada a fazer,
O tempo de outrora
era a mamãe sorrindo
e te dando força,
mesmo sabendo de toda verdade,

O tempo atual
é um doutor carrancudo e mal pago,
que só tem a lhe oferecer o remédio amargo:
"-- Você precisa tomar!"



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Humano



Eu sou dois
Eu sou o musgo
E sou a arvore
Sou o parasita
e o hospedeiro
Eu sou a luz
e a escuridão,
Eu sou deus
e o diabo,
O siga em frente
e a contramão,
Sou a broxada
e a ereção,
Sou a carícia
e a agressão,
Seu inimigo
e seu irmão,
Eu sou dois,
Eu sou humano...
A luz do sol
e a merda do chão.

Cacos




Carrego cacos de mim
pelas andanças sem esperança
por dentro do centro do universo sem fim.

Meus olhos cansados de tanto ver
ídolos com pés de barro
e corações de paralelepípedo
descansam na palma de minhas mãos.

Me recusando olhar
fecho os punhos
e o que vejo é escuridão

E na escuridão
moldo formas luminosas,
estrelas no meu céu interior.

E por elas, me guio
em meio ao cataclisma de meu coração,
que inunda com sangue imundo
a imundície toda que o cerca.

Pois pensamos sempre
que nosso sangue é melhor,

E sorrimos, iludidos,
lavando a diarréia derramada
com a mais fétida ainda, mijada atrás do muro.

Por que o peido alheio
é e sempre será mais fedido que o nosso.

O meu, por exemplo,
cheira à buquê de rosas.

E o seu?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Carta Aos Homens Sem Coração




Quando pequeno
a cartilha me prometia
um caminho suave,
o máximo de complicação
era aprender o "A,B,C",
Hoje aprendi,
"A" de amor não correspondido,
"B" de brutalidade,
"C" de cratera,
"C" de cratera?
É. Tem uma cratera
no meio do caminho.
Todos tem a sua.
Eu fico olhando a minha
Poderia pular.
Mas tenho medo de cair
e cair sem parar.
A cratera é feita
de pessoas sem coração,
e o vazio que elas tem
no peito se junta um ao outro,
Formando a cratera.
A cartilha não me
ensinou que eu deveria
ter arrancado meu coração
bem cedo,
Essas pessoas se oferecem em sacrifício
todos os dias
a "grande besta das coisas como devem ser"
num ritual pagão de "ser melhor que o outro
com mais dinheiro na conta que todo mundo"...
Seus corações foram arrancados
como se não fossem nada,
Apenas pequenos piolhos
em pequenas cabeças de crianças
que sonharam demais...
Pequenos piolhos
na minha cabeça,
E esses piolhos se alimentaram
da minha alma até agora,
Hoje, são grandes e monstruosos
como tumores que não podem
ser removidos,
Se tentar agora
meu coração vai junto,
e é tarde demais
para o sacrifício,
Os tumores e meu coração
são um unico tentáculo
que tenta desajeitadamente
alcançar o outro lado da cratera,
Eu o chamo de poesia
e é tudo que eu tenho,
Podem rir agora,
com suas enormes bocas
cheias de palavras vazias
como vermes a se debaterem
na mandíbula do cadáver do mundo que um dia sonhei existir,
Meus olhos e ouvidos a muito
se fecharam às suas expressões de repulsa
e ao som de seus risos de desdém,
homens sem coração.

sábado, 15 de junho de 2013

Não Vou Falar Nada

Não vou falar nada
não vou falar nada disso,
vou me calar, Oh! Pátria amada!
se tiver vontade, juro que aviso.

Quero apenas pensar
enquanto meus olhos ardem,
aquela vontade de chorar
vocês que falam, bem sabem.

Não sou nenhum omisso
muito menos, um fascista
a marcha para algo, assisto,
vou seguindo suas pistas.

Pega na minha mão
e pede para dizer o que sinto,
embaraçado, olho para o chão
Não sei o que dizer. É sério. Não minto.

As poucas palavras que te ofereço
espero que as colha, como flores,
Flores de uma revolução sem preço
boa semente, num funebre jardim de falsos amores.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Mais Linda Poesia

Ás vezes,
leio um poema
E digo: Não entendi!
Mas vejo aquelas palavras
diferentes todas juntas
em perfeita harmonia
E digo: Mas é bonito!
Penso então
em todas as criações,
riachos, matas,
animais diferentes,
todos juntos,
E digo: É bonito igual ao poema!
É isso,
Poesia é que nem Deus.
Eu não entendo, mas vejo as criações dele
e acho bonito!
Mas o mais bonito
é o homem que tem que criar!
Todas as pessoas diferentes,
todas juntas em harmonia,
Essa é a mais linda poesia
que desde muito, me ponho a sonhar!

O Poeta

O poeta tenta se encaixar
no mundo
como aquele mendigo sem dentes,
que mesmo assim, todo sorridente
se faz de conhecido do falecido
pra poder cerrar o cafezinho do velório.

Tradicional

O amigo recomendou
ao solitário relojoeiro gago
as salas de bate papo da internet,
--- Não! Eu sou tradi....
                          tradi...
                          tradicional!
     Não gosto de sexo digi...
                                    digi...
                                    digital!
     Só gosto de sexo anal...
                                 anal...
                                 analógico!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cocô




  Na muvuca
da grande cidade
sou tragado pelo intestino cinza
feito de prédios e ruas,
  mas não sou fácil de se engolir
A cidade não consegue me entender
não sou bem digerido,
Fico entalado no meio da vida
como um cocô
cravejado de grãos de milho,
E cada grão
é uma aflição
um medo
uma indecisão
Só sei que a realidade
é um banheiro químico
instalado no lugar errado,
onde não entra a merda da minha poesia,
pois já está entupido até a tampa,
E eu oro
pras moscas que zumbem em volta
que como anjos da podridão
depositem larvas de esperança
sob minha coragem em decomposição.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Exposição

Quando eu era pequeno
mostrava a bunda na janela
todo dia,
Agora que cresci
minha exposição indecente
foi domesticada,
Eu faço poesia!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lingua na Lingua

Lingua na lingua
trocamos palavras
revestidas de saliva,

Lingua na lingua
eu te conto o que não se escreve
pois é dito em linguagem primitiva,

Lingua na lingua
fica tudo tão mais simples,
Quem me dera, passar a vida só na base da lambida!

 

André Diaz

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tênia

Matou seu amor


matou por prazer,

matou, sim senhor

Mas foi sem querer.

...

Foi-se embora

entre trêmulos dedos,

como o genital de fora

Não. Não há mais segredos.



Caminhou entre olhares

cheios de acusação,

Sentiu-a em todos lugares

o que dizer, das palmas das mãos?



Ela tambem quis

Ela pediu por aquilo,

E ele fez, tão feliz

E ela chorou ao senti-lo.



Sentiu o fim que se aproximava

como um cavaleiro sem cabeça,

que em cavalo de fogo galopava

e que a penetrou tão depressa.



Deixando lá dentro o fim

crescendo como câncer no ventre,

E estou aqui, para contar tim-tim por tim-tim

um fim que durará para sempre.



Efêmera fêmea

à se contorcer em êxtase,

como nas tripas, a tênia

que de restos de farto banquete, refestela-se.



E na evacuação

de um tal arrependimento,

Lágrimas serão sempre em vão

como segurar corações de papel no vento.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A Máscara do Palhaço


"Palhaço Pirulito é preso ao tentar abusar de menino de 11 anos". Parei pra ler essa curiosa manchete no jornal pendurado na banca, ilustrada com a foto de um simpático palhaço fazendo "jóinha" com a mão.
 Minha mente retorna à muito tempo atrás. Um barulho ensurdecedor. O chão treme a cada passo do gigante. Ele tem cabelos coloridos e um nariz vermelho. Sacode ameaçadoramente uma enorme jarra de leite. Eu me encolho de encontro à parede. Sou aquele menino timido, que fica sempre escondido. Eu tenho medo do palhaço Tic-Tac. É a excursão da escola ao programa "Ra-Tim-Bum". Tic-Tac não é engraçado. Aliás, palhaço algum jamais me pareceu engraçado. Sempre houve algo de bizarro...Algo de terrivel sempre se escondeu por detrás das roupas espalhafatosas e a cara branca. Bozo bebia e cheirava cocaína.
 Coulrofobia é o medo de palhaço. Stephen King criou "It"(A Coisa) em que um palhaço mudava de forma, de acordo com o medo da pessoa. E agora, depois de velho, o poeta mudou de forma, e se transfomou em um palhaço para a performance do poema "O Artista". Pois o poeta sabe o que se esconde atrás da máscara, ele encara o rosto cansado e sombrio no espelho, todas as manhãs, ele sabe que a máscara não soará falsa, exatamente porque não é verdadeira. A máscara do palhaço é a obra no viaduto que possibilitará o tráfego dos automóveis com seus seguros caros, levando o homem de bem da classe média-alta ao seu lar, em segurança, enquanto lá embaixo, em meio aos detritos a face real e encardida da sociedade se alimenta do delírio causado pelo crack, definhando...Definhando... E o homem de bem ri, entretido com as séries e comédias e novelas...Ri ...Pois seu rosto é a máscara colorida e falsa que cobre o rosto cadavérico e canceroso nesse reality-show em que todos sabem o sentido da piada. Aquela velha piada de mau gosto. Apenas maquiada.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Todo Mundo Fala Palavrão

    Em comemoração à minha fase nostálgica da juventude, depois de voltar à curtir o Kiss, resolvi voltar os meus ouvidos velhinhos para uma tendência no rock nacional dos anos 90, letras escatológicas, com muitos palavrões. Pensou em Raimundos? Charlie Brown Jr? Suínos Tesudos? Nada disso. O cd que adquiri é "Tudo ao Mesmo Tempo Agora" dos oitentistas Titãs. Foi um disco esculhambado pela crítica na época. Crítica essa que ovacionou anos antes, "Cabeça Dinossauro", que trouxe o punk para o mundo pop, com suas críticas, cuspindo nas sagradas instituições, etc. E, porque esculacharam com "Tudo"? Porque sua virulência não tem um alvo específico. Não é engajada. É pura arte! Não o fruto do inconformismo que permeou "Cabeça", que hoje é revisitado pela banda. Toda injúria justificada é perdoada. Quando o escatológico aparece em publico, simplesmente porque é a secreção que tem que sair, após o estouro da bolha... Simplesmente porque é o acumulo de gases em nosso ventre...Ah! Meu querido! É um escândalo! Versos cantados por Nando Reis em "Isso Para Mim é Perfume" como: "Chupar o seu dedão/Cheirar sua calcinha suja de menstruação/A cabeça do pau faz esporra de leite/" e que acaba com o singelo: "Amor, eu quero te ver cagar" (dizem que o "amor" em questão era a Marisa Monte) causam horror porque é algo interior que, na nossa sociedade hipócrita deve se manter trancado, como a porta do banheiro quando estamos fazendo cocô. É a intimidade partilhada. É isso que choca. Pessoas de bem, não falam palavrão. A "merda" falada, deve ser mantida em segredo, assim como a merda cagada. Muitos que lerem essa crônica, acharão que sou um louco sem vergonha nenhuma na cara, por decidir jogar essa "merda" no ventilador. Mas é com grande prazer que a jogo. Para que serve ser artista? Acho que está nessa liberdade de jogar a merda, mesmo. E digo, o artista que não tem rabo preso. "Tudo Ao mesmo Tempo" foi produzido pelos próprios Titãs, sem produtor Liminha nenhum, para "limar" as arestas que pudessem ferir a dignidade alheia.   O disco incomoda, não por mostrar algo diferente do que somos, mas exatamente por jogar na cara, nosso interior nauseabundo, que tentamos esconder de toda forma. Isso já é mostrado logo na capa, montada a partir da enciclopédia Barsa. É nossa anatomia asquerosa estampada lá. E não adianta dizer, que não temos nada a ver com aquilo. Que libertador dizer que se quer ver o seu amor, cagar! Eu mesmo, assim como o personagem poeta do filme "Febre do Rato", sempre pedi pros meus amores mijarem na minha frente. E daí? Porque você está torcendo a boca, ao ler isso? Vai parar por aqui, porque futuquei aquela ferida purulenta que você guarda bem escondidinha? Porque ao ler isso, sente que puxo suas calças, revelando aquele velho furunculo? Não estou aqui, pra ofender ninguem. Só pra dizer a verdade. Pena que a verdade ofende.
 --- Menina! Viu esse doido do André, agora? Além de não esconder de ninguem que gosta de lamber pé, agora vem falar que gosta de ver seu amor fazendo xixi? Falando que palavrão é normal? Tá precisando é se benzer! Esses artistas são um bando de loucos!
---- Nunca me enganou aquela cara de santinho! Todo quietinho, hein? Esses são os piores!
     Poisé. Quem fala o que quer...Mas que importância tem isso? Se é a arte que me impulsiona, posso montar castelos, não de areia, mas de estrume de cavalo... Considerar o prato mais fino e delicioso, o queijo gorgonzola, pois "Isso Para Mim, É Perfume".  E, para fechar, ins"pirado" pela poesia do genial disco rejeitado dos Titãs (porque versos como os que citei, são poesia, do tipo de Glauco Mattoso, ou  meu amigo Paulo D'Auria, mas são, ou seja, poesia que diz a verdade, que não "floreia", e por isso, dita "maldita"), resolvi deixar aqui, minha poesia em homenagem ao escândaloso palavrão, que nada mais é, que nós mesmos, sem as velhas máscaras:

 Todo Mundo Fala Palavrão

Todo mundo fala,
às vezes, se sente "cu"lpado,
Todo mundo cala,
Mas, na injúria
muito já havia mamado,

"Pô! Ra" "imundo!"
 Deixa de ter a boca tão suja,
 Que tá mais prum buraco sem fundo
 Deus vai te deixar com a lingua murcha!

 Ah! Minha senhora!
 Ainda há de topar numa pedra
 Ainda há de chegar sua hora,
A "grande palavra" virá estrondosa e certa!

E outra coisa tambem é certa!
Todo mundo fala palavrão,
Cacete! Porra! Merda!
Até a digníssima senhora sua mãe, meu irmão!


                                         
                                         
                                     
                                      
                                       

                                     
                                        
                                       
                                          

                                       
                                             
                                           
                                          

                                            
                                            
                                          
               

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Lido

Eu queria tanto ser um poeta lido


Por que lindo, eu já sou!



Livro Aberto

Livrai-nos das tentações,


Oro, com pouca convicção

Reparo em minhas ações

como formigas perdidas no chão



Leio todo meu passado

como se minha vida fosse um livro aberto,

Não percebo o amor do meu lado

Confundido com o que é errado e o que é certo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Contrastes

Caminho
com o sol queimando-me a careca,
busco refugio nas sombras,
debaixo do toldo
a moça do anuncio sorri um sorriso branco
que parece até de mentira,
o menino esparramado na calçada
ronca entorpecido com os dentes podres
pior é que é verdade,
Penso que tudo deve ter começado
quando Eva tatuou a serpente nas costas
E Adão, sem a costela
se pôs  praticar auto-felação.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Nós

Libertei-me de você,
Libertei-me dos nós
Libertei-me de nós
Nós juntos
como corrente e cadeado,
Nós juntos
Como coleira e quadrupede
E sorrio agora,
Sorrio agora, junto
Junto de uma solidão
feita de cinco dedos
tocando-me como você nunca soube me tocar.

O Colecionador de Desilusões*

Sou um colecionador de desilusões


Sei que meus novos amigos não irão me trair,

Sim. Eu comprei dois cães

 o resto, não sei o que está por vir.



Sou um colecionador de desilusões

Sei que este tipo de amor não se compra,

Mas comprei logo, duas mães

Pois viver assim, já é uma afronta.



Sou um colecionador de desilusões

Minh'alma é um asilo,

Meus dias, anciões

a tossirem o ultimo sangue, posso senti-lo.



Sou um colecionador de desilusões

a juntar nuvens de algodão,

sem maiores pretensões

a não ser, inflar de amor, um velho coração.



*Parceria com Paulo D'Auria

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Perdi o Cabaço com Clarice

 Até pouquíssimo tempo, Clarice Lispector era para mim como o caviar da canção do Pagodinho: "Nunca comi...Só ouvi falar..."
 Meu interesse na escritora já vem de algum tempo, lembro de ficar encantado com o belíssimo poema "O Cigarro de Clarice", do meu amigo Junior Braz, que apesar dele não achar essas coisas, considero uma das mais lindas odes escritas em homenagem a um artista. Alguem que o ouvir declamando certamente irá correr atrás de conhecer Clarice. Semana passada fui à uma peça teatral intitulada "Prazer", baseada em textos de Clarice. E é claro, o prazer foi todo meu e de todos os presentes na platéia.
 Saí de lá pensando: "Ainda levo Clarice pra casa!" Confesso que tenho certa dificuldade de ler textos muito longos na internet. Sempre preferi ler os poemas. E o prazer de ter um livro nas mãos, não se compara! Tenho com ele, se não for igual, algo bem próximo do fetiche por pés. Posso dizer que são gostos que "caminham" juntos.
 Como tenho uma fila de livros de quase uns 20 volumes (peguei vários de uma imobiliária, que após um malogrado projeto social-literário os deixou a disposição, mais vários outros dessas máquinas que existem agora no metrô, em que você pode pagar até com uma nota de 2 reais por um livro). Nem pensei em ir atrás de algum livro de Clarice, tão cedo.
 Mas Clarice veio até mim! Andando pelas ruas do centro, deparei-me com um vendedor de livros, com uma banquinha improvisada, com livros no pior estado de conservação possivel. E lá estava Clarice: "Laços de Familia", uma coletânea de contos, toda estropiada, com suas páginas coladas porcamente com um durex amarelado.
 --- Quanto é?
 --- Faço por 5! Se tiver faltando página, o senhor pode trocar por outro depois!
 Dei uma folheada, as páginas estavam em bom estado, só estavam descoladas mesmo. Paguei os 5 reais.
 Como num ritual romântico, chegando em casa, tomei aquele banho, botei perfume e levei Clarice para cama. Antes de começar a ler, acariciei sua capa, em que aparece a figura de um homem bigodudo e galanteador dando flores à uma formosa moçoila.
 Comecei a ler avidamente. Deti-me! Percebi que não deveria tratar Clarice com tamanha afobação. E sim, ir saboreando-a aos poucos, palavra por palavra. Pois Clarice é papa fina. Dessas guloseimas que você deve deixar derreter na lingua e só depois se servir de nova porção.
 Percebi que Clarice é leitura não para simples entretenimento, mas para uma degustação lenta e exigente.
 Já conhecia este tipo de leitura, mas com um escritor. Confesso que antes de Clarice, perdi meu cabaço "fino-literário" com Marcel Proust em "No Caminho de Swan", um dos livros que mais demorei para terminar de ler. Pois sempre era preciso retornar ao parágrafo anterior, ou para captar melhor sua essência, ou pela simples "gulodice" de experimentar aquela "frase doce" mais uma vez! E é o que me ocorre agora, com Clarice. Demorei um bom tempo para terminar a leitura do primeiro conto. Parava extasiado com seu senso de humor requintado, sorvendo aquelas palavras como as velhas "jujubas" de uma infância longínqua, mas ainda doce na mente.
 Não sei se partirei tão cedo para o conto seguinte. Medo de que minha relação com Clarice termine rápido...Me deixando só, com a mão pendente entre as cobertas que agora testemunham a lascívia glutona com que devoro essa escritora, que vale bem mais que a fila de 20 livros que me espera na estante, toda enciumada!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

"A Cabeça do Poeta" *

Ela estava lavando a louça,
limpando a cozinha
Ele se aproximou da moça
e lhe ofereceu uma flor e um singelo poeminha

-- Não tá vendo que tô ocupada?
Parece que tem problema na cabeça!
Passa o dia sem fazer nada!
Só na poesia! Tem conta pra pagar! Não se esqueça!

O poeta então, pegou a faca da cozinha
A moça já ficou toda alarmada:
-- Pára! Se não grito! Eu chamo a vizinha!
Saiu correndo, a pobre coitada.

O poeta decidiu fazer sua ultima obra de arte,
cortando a própria cabeça fora
Carregando-a debaixo do braço, para outra parte
E com ela, se pôs a brincar de bola.



*Poema de André Diaz com co-autoria de Carolina Peixoto (Blog: "Disperso em Versos")

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Poeta e o Mendigo

‎O poeta distribuia poesia na Avenida Paulista. O mendigo chegou e lhe pediu uma moeda. O poeta disse que não tinha. Então o mendigo pediu uma poesia. O poeta disse que acabou. O mendigo foi embora indignado, por não ganhar nem uma poesia. E o poeta ficou envergonhado, de não saber nenhuma poesia de cor.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A Piada

Uma vez, quando criança
O mundo me encantara
Hoje, sou obrigado a pagar a fiança
para sair do horror, em que a realidade me encerrara,

A fiança são meus versos
diante de uma piada sem graça
a tinta da caneta é o sangue dos pulsos abertos
e a poesia destoa, como o bolor no meio da massa,

E a piada? Ah, Sim! A piada!
Me deparei com o miserável mendigo...
Mas é o fim da picada!
O mendigo, todo entretido, lendo a revista Caras!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Poesia nos Sapatos

Qual o remédio
para meus sapatos furados?
Com o dedo médio
vou e venho em seus buracos

Só pisei em pedras
onde estão as flores campestres?
entre ganhos e perdas
prevejo a morte na faixa de pedestres

Quem me dera
ter tatuado em minha virilha
a marca de batom de Vera
Mas foi mais uma, a juntar-se a velha pilha

A velha pilha de carícias
à saliva que a muito secou,
Confundindo-se a rotina de sevícias
que é a realidade que me encontrou

E que me tirou dos braços de Orfeu,
dos sonhos feito frutinhas silvestres
cujo veneno tão perfeitamente se escondeu
como lobo em cordeirinhas vestes

A sede me faz parar,
Não me preocupo com o horário
Pois o tempo pára na mesa do bar
onde escrevo este poema, como obituário

Causa da morte de uma esperança:
Repulsa e decepção para com o mundo,
que parece só piorar, no lombo do tempo que avança
Dobro a folha em quatro, enfio bem no fundo.

Recheio então, os sapatos de poesia
e nela, agora, sustento meus passos
que me irão levar até o fim de meus dias,
Onde me aguarda, o ultimo e gélido abraço!

domingo, 13 de janeiro de 2013

Meu Mundo Acabou

Meu mundo acabou,
O rosto de boneca
se desfez entre meus dedos sujos
de tanto escavar
nos detritos da decepção,
escorreu como àgua cristalina
muito rara e muito cara
para a sede de um maratonista debilitado,
correndo e correndo
numa estrada sem fim,
feito esteira gigantesca
que não leva a lugar algum,
Meu mundo acabou,
Os ultimos muros da ilusão desabaram,
Minh'alma não passa de ruínas,
E a face envelhecida que vejo no espelho
é a fachada de museu
dessas excentricidades ridículas
que um dia ousei chamar de meus sonhos.