
Na juventude, nunca fui grande fã do Superman. Eu o achava poderoso demais. E "bom" demais. Não, "bom" não é o termo adequado. Ele era a personificação da justiça. Superman era careta ao quadrado. Minha infância se passou durante a ditadura militar. E, sei lá, Superman tinha um ar de "cantar hino logo de manhã" junto com o diário hasteamento da bandeira. Tinha algo de ufanista naquele herói. Como foi satirizado por Frank Miller nos anos 80, na série "O Cavaleiro das Trevas", em que o Azulão entrava na porrada com o morcegão como mero boneco nas mãos do governo americano. Eu preferia muito mais o Batman do seriado caricato dos nos 60, com sua barriguinha proeminente e acompanhado de seu ridículo garoto prodígio. Sim, hoje vemos que um garoto vestido com cores berrantes acompanhando um adulto em aventuras "perigosas" era de fato uma grande piada. Mas ele era uma ponte de identificação com a molecada. Mas ninguém admitia. Todo mundo queria ser o Batman na hora de brincar. O Robin era para os fracos. Claro que não é coisa que ninguém tenha orgulho de admitir. Mas, em algum lugar no fim dos anos 70, eu quis sim, ser o Robin! Sim, posso admitir hoje que que sou "artista", que já me apresentei de palhaço e de fralda e que não estou nem aí em mostrar que gosto de ser pisado e de lamber o pé da mulherada. Então, que tem demais em dizer que eu já quis ser o Robin? Por causa dos "boatos" envolvendo sua parceria com o morcegão? Olha, ainda posso dizer algo em defesa do menino prodígio: O ator Burt Ward tinha que passar gelo nas partes intimas, que por serem "avantajadas" podiam ser ofensivas aos pudores televisivos da época.
Enfim, nos últimos tempos aconteceu uma coincidência, envolvendo não o Robin, mas sim, aquele herói de quem não era tão fã. O Superman. Meu amigo Paulo D'Auria me emprestou o seriado "Smallville", e ao mesmo tempo estava começando a ler a obra de Friedrich Nietzsche. O que tem a ver uma coisa com a outra? O conceito do Super-Homem (Ubermensch) é exposto no livro de Nietzsche, "Assim Falou Zaratustra". Claro que um conceito filosófico:
"Super-Homem é o tipo superior de homem que conseguiu superar todos os valores. "O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha? E o mesmo deve ser o homem para o Super-Homem: uma risada ou uma dolorosa vergonha." "O homem é como uma corda esticada entre o animal e o Super-Homem- uma corda sobre o abismo."*
*Assim Falou Zaratustra.
E depois veio a surgir o Super-Homem (ou Superman, como quiserem) que todos conhecem, fruto do assassinato do pai de Jerry Siegel, que para lidar com sua dor, criou "o homem de aço", à prova de balas.
E porque, agora na casa dos 40 anos, vim a me interessar por um personagem que à primeira vista requer toda imaginação e bons sentimentos típicos da fase infantil? Exatamente por passar pela crise dos 40, a decadência física e a percepção nítida da má influência que um mundo sórdido produz sobre as melhores das intenções. Existe o desejo de se superar, manter-se intacto por cima de todo o lixo cotidiano, incólume a toda ideologia e pensamento estreito do cotidiano, como o Super-Homem de Nietzsche. O mundo é estranho para mim, mais do que nunca, e realmente a sensação de ser um alienígena aumenta a cada dia. E cada acontecimento, cada pessoa que não compactua dessa sensação de estranheza tem o poder da Kriptonita, tentando tirar as forças do Super-Homem. E é tão difícil não se envenenar, não acabar por fortalecer o lado negativo, que faz parte de todos, mesmo daqueles que tentam se superar. Como o personagem "Bizarro" que apesar dos poderes é o contrário do Super-Homem. Hoje, não tenho vergonha de dizer que sou fã do Super-Homem, assim como não tenho de um dia querer ser o Robin...Se bem que com o menino prodígio as coisas não eram tão complicadas. Era só estar sempre do lado do morcegão e usar o cinto de utilidades. Mas hoje, as coisas são bem mais "bizarras", e o que impede de um homem com super poderes ser um flagelo para o mundo, na verdade é que mantenha "um super caráter", algo que vai manter o homem acima de todos outros, mesmo sem o poder de voar. É muito dificil. Mas, algo que não podemos abandonar de nossa antiga criança, mesmo deixando os super heróis para trás, é a capacidade de sonhar, motivadora dos "vôos" mais impossíveis.



































