segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Alguem Para Nos lamber

   A solidão já não dói tanto. Já não é aquela faca serrilhada do Rambo, a se revirar nas entranhas. É apenas uma picada de injeção. Antes, não havia me encontrado, ainda. Vivia num labirinto, com cartazes indicando com flechinhas: "André-Metaleiro"- "André-Desenhista"- "André-Comunista"- "André-Revoltado-Com-Tudo-Não-Se-Encaixando-Em-Nada". Hoje, sei  que sou simplesmente o "André-André". Um ser com sua individualidade, especial por isso mesmo. E, se gostando pela primeira vez na vida. Contente por sua condição de artista.
   Mas, um ser bem imperfeito, ainda. Que no escuro do quarto, se encolhe como uma planta fincada num buraco escuro do metrô.
   Coloco o "Violator" do Depeche Mode pra tocar,  viajo naquele moderno som, de vinte anos atrás. E o que é moderno, hoje, o será daqui a vinte anos? O tempo não pára, como diria o Cazuza. Mas, coisas boas param de ser feitas. Eu acho. Esse disco foi bom, e continua sendo, assim com o os churros da minha infância, que eram maiores e com muito mais doce de leite. É a nossa percepção. Apenas isso. Hoje, para um moleque de roupas hiper-coloridas, o cd do Restart, é a melhor coisa já feita. Ele está errado? Talvez, daqui a vinte anos, ou muito menos, provavelmente, com a velocidade da informação de hoje, ele veja a sua escolha com imensa vergonha. Mas, hoje, isso é a  melhor coisa que existe.
    Meu primeiro beijo foi a melhor coisa do mundo. Foi. Hoje, me lembro com vergonha dele. Sinto apenas, falta, da alegria experimentada. Hoje, estou tranquilo após ter vivido razoavelmente bem, durante anos de solidão. Desde que me juntei a outros poetas, e formamos o grupo "Poetas do Tietê", nunca mais peguei ninguem. Cheguei até a pensar que fosse uma espécie de maldição. Que talvez, tivesse vendido a alma ao Capeta da Arte. Trocado o prazer carnal, pelo prazer poético.
    Mas, e se for verdade? Nunca tive tesão na cama, que se comparasse ao tesão de estar com esse bando de malucos. Malucos como eu. O tesão da identificação. Cada um. Cada um. Mas, com uma loucura em comum!
    Pessoas que me entenderiam, se eu dissesse que tinha mais prazer, quando criança, em procurar formas nas nuvens, do que interagir com um mundo cheio de injustiças. Eu era a cigarra a cantarolar, fazendo pouco das formiguinhas. E, esses meus colegas poetas, tambem são cigarras, como eu.
    Agora, escuto boa musica, no escuro. Agradecendo a Deus e ao Capeta da Arte, por estar amarrado a mesma camisa de força coletiva, que me une aos Poetas do Tietê. Ouço algo fungando debaixo da porta. Abro, e minha cachorrinha corre e pula na cama. Me deito, e sinto a dor no pé, ainda não curado de uma inflamação. Gemo de dor, e minha amiguinha reconhece meu sentimento, e vem solícita, lamber meu rosto. Nesse momento, esqueço minha dor, e sorrio para meu animalzinho, que me encara com seus olhos, como gotas de mel, fazendo os meus se encherem de lágrimas.
   E, penso que é isso, mesmo. Por mais bem situados que estivermos, sempre haverá aquele momento no escuro, em que aquela dorzinha vai pegar, e ter alguem que nos lamba, vai aliviar esse calcanhar dolorido, que às vezes, nos faz hesitar na caminhada cotidiana, fazendo-nos tropeçar, invariavelmente. Mas, saberemos que, logo aquela linguinha quente, vai nos fazer sorrir de novo.
   Meu olhar se congela no olhar de meu bichinho de estimação, enquanto acaricio seu pêlo negro. Bem, na faixa "Enjoy The Silence", que diz: "Words are very unnecessary", ou seja: "Palavras são desnecessárias". E, esse momento, singelo, talvez, relembrado daqui a vinte anos, terá um significado importante, apesar de certamente ridículo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Braços



Cabisbaixo

andava

debaixo do céu cinza,

chutou algo que rolou

até a sarjeta.

Limpou as camadas de lama

das pontas,

enfiou no bolso,

foi pra casa.

Lavou,

começou a brilhar.

Sorrindo

correu até o quarto

pendurou em cima da cama

e ficou olhando

o brilho das pontas


enquanto lá fora, estouravam rojões anunciando mais um ano novo,

E o brilho foi aumentando, até se tornarem braços 

que embalaram seus sonhos,

Eram os braços da pessoa amada

perdida num tempo longínquo,

personificada agora,

numa simples estrela
de papelão dourado.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Mortos Não Tem Cãibras

   Uma e trinta da madrugada. Como a pessoa impossivel de ser amada. Seu corpo macio é feito de cobertura de bolo. Meus dedos afundam em sua cintura. Seus braços me enlaçam, balançam e caem. Percebo então, os sonhos são feitos de cobertura de bolo. E a realidade é aquela parte mais seca, que a gente é obrigado a engolir, pra não fazer desfeita. Começa a chover Coca-Cola. Ela derrete toda. Meu sonho se desfaz entre meus dedos trêmulos. Acordo com vontade de urinar.
   Escuro. Cãibra. Queda. Babo no assoalho, enquanto rezo para Nossa Senhora das Dores Lancinantes.    Levanto e agradeço a graça alcançada, de não ter me partido ao meio, na quina da mesinha de cabeceira.
   Amanhece.  E com o sol, vem a dor nas costelas. Agradeço. Estou ferrado, mas estou vivo. Vivo no dia de finados. O dia em que rezamos por aqueles que já não tem cãibras, nem dores do lado.

Essência Envenenada

Achei meu coração
enterrado no cemitério dos velhos sonhos,
Já não batia como antes
Mal podia reconhecê-lo
Cada fraca palpitação
era um código morse
que já não me dizia nada
os anos 2000 não são coloridos
como o desenho dos Jetsons,
A revolução industrial
mastigou com seus dentes metálicos
cada vestígio da frágil semente,
Bolhas esverdeadas de sabão
estouram todos os dias,
O indio mata para comprar droga,
Enterro de volta, o meu coração
Quem sabe,
Quem sabe um dia
o desenterre para um transplante,
Esta troca tão sonhada
da inocente essência envenenada.

Dia de Finados

Chegará o dia de finados,
quando o olhar desviado
da miséria alheia, estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o anseio em ser o primeiro
estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o preconceito
com o diferente, estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o riso diante da queda do outro
estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o receio de se estender a mão
temendo ingratidão, estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando essas palavras não forem apenas
escritas por mim,
e lidas por você,
mas colocadas em prática

Será o dia em que
não haverá mais morte,
e cada gesto, conterá a ressurreição.

sábado, 29 de outubro de 2011

Como Dentes

Eu vi pedras,
pedras como dentes
a se destacarem
de um jardim sem flor,
Aquelas pedras eram a dentadura carcomida
de um velho jardim triste,
regado pelo xixi dos gatos
e esquecido dos passantes apressados,
até agora,
Pois sentei do seu lado,
E ganhei um sorriso.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Onde Ele Esteve

Me lembro
de quando pequeno
procurar onde ele esteve,
mas não encontrei nenhuma pegada,
nenhum indício,
Ele era o homem morto na igreja?
A quem as velhinhas
botavam moedas na caixinha do altar?
Ele era a ameaça proferida àqueles que viviam livres dos grilhões da sociedade?
Livres para agir e pensar, sem temerem um castigo criado por uma instituição 
interessada unica e exclusivamente, no controle das mentes e sua eterna subjugação?
Vi que não era,
E se era, ele não me interessaria de modo algum,
Inventei então, para mim
que ele era o colorido das flores,
A fofura das nuvens de algodão,
A graciosidade
da menina mais bonita da escola,
e a amizade do meu amigo que me entendia,
Para mim
ele era a poesia
com que impregnei
meus primeiros e toscos versos,
e que ainda faz
com que movimente esta caneta,
Ele não é uma recompensa material,
Ele é o contrário
de tudo que se dá valor aqui,
Ele é o tolo sorriso
que me brota nos lábios
Ao assumir minha condição de poeta
Num mundo
Que escarnece
de minha escolha.

O Lixo do Gringo*

O lixo do gringo
é bom para mim,
O lençol infectado
cobre a falta de vergonha,
E serve de forro
para os bolsos vazios
de um eterno terceiro mundo,
endividado
com a velha mania masoquista
de lamber as botas do Tio Sam.

* Inspirado na noticia em que contêiners vindos dos EUA, contendo lençóis classificados como lixo hospitalar, vieram para Santa Cruz Do Capibaribe (PE), para serem aproveitados em uma loja de tecidos e retalhos "Império do Forro de Bolso".

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Amo Sua Dor

Todo santo sábado
Lá vem ela me visitar,
Depositando rosas aos meus pés
Meus olhos duros comtemplam os seus,
Tão tristes e marejados
meu dedo apontado para o céu
tenta lhe falar de esperança
Que um dia irá reencontrá-lo
Mas ela parece não entender
e soluça debaixo de minhas asas rachadas
Mas ao mesmo tempo, amo sua dor
que rompe assim, esta solidão
Esta existência imóvel
de anjo de cemitério.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pedal

Não sou Carlos Alberto,
Mas sou o cara sentado no banco da praça
Vendo a vida vibrante que vem
que passa,
Admiro essas pessoas tão fisicas
a chegarem esgotadas
e contentes em casa,
com o seu cooper feito
e a sua pedalada,
Ah! A pedalada!
Ela já deu a volta no parque
e volta de novo
e de novo,
E eu aqui
só observando
Como o grande astro
e os planetas dando voltas
em meu corpo grande e sedentário,
Seus pés não se escondem nos tênis,
Mas se insinuam em indecentes sandálias fio-dental,
Transmutando este meu grande corpo astral,
em simples, reles
porem, satisfeito pedal!

Ação e Verrugação

   Passo pensando pela rua. O que pensava já não lembro. Só o que vejo, importa. E acho que não irei esquecer tão cedo. O mendigo esparramado em suas cobertas de pele de miséria, lendo com atenção uma revista Caras. Que se passará naquele espirito, vendo a vida e as futilidades desses sortudos materiais? E serão sortudos realmente?  Perseguidos pelos paparazzi, como se fossem a oitava maravilha? Consumidos pela aparência. Pelo dinheiro. O mendigo coça o saco diante da foto da socialite. E ela sorri, satisfeita com seu poodle no colo, com coleira de diamantes e tudo.
   Paro no ponto de ônibus, o sol é um grande ovo frito pingando seu óleo quente no asfalto. Tem uma mulher lá sentada, mexendo no celular. Com as pernas cruzadas, parece se entreter com sua atividade, balançando a sandália na ponta do pé. Ela se endireita, olha para o nada, se curva e observa os próprios pés. Olha novamente para o nada, volta a posição anterior, fuçando no celular.
   ---  Boa tarde!
   --- Boa tarde!
   Fico lá olhando, aquela movimentação tão sexy, de seu pé. E o engraçado é saber que ela não sabe que aquilo é sexy. O meu desejo é só meu, e ela desconhece o fascínio que me causa com aquele balançar da sandália na ponta dos dedos. Aquilo é como a musica de uma flauta que hipnotiza a serpente, no caso, eu. Eu preciso falar. E porque não falar?  Anos e anos insistindo em ser mais um. Em me encaixar no comum. Não. Eu sou um artista. Eu não sou mais um. Eu sou eu. Simplesmente falar pra moça de minha admiração. Sem conversinhas fiadas, que não levariam a nada. E acabar naquela depressão "pós-papo", tentando ser mais um, a procura de mais uma.Será que estou sendo claro?  Ficar dando murro em ponta de faca. Esperando engatar um relacionamento. Que por grande experiência, sei que nunca dá certo. De repente, me lembro da fala de uma personagem de Jean Paul Sartre, no romance "A Náusea": "--- Sei que nunca mais encontrarei nada nem ninguem que me inspire uma paixão. Você sabe, não é tarefa fácil amar alguém. É preciso ter uma energia, uma curiosidade, uma cegueira... Há até um momento, bem no início, em que é preciso saltar por cima de um precipício: se refletimos, não o fazemos. Sei que nunca mais saltarei."  É isso.  Apenas ficar lá, observando aquele pé, a se "requebrar", apenas para mim. Um momento mágico!
   --- Seus pés são muito bonitos!
   --- Oque?!  Ela ri, incrédula, e olha pros pés.
   --- Não! São tão feios!
  --- Acho engraçado... Vocês mulheres param pra ficar olhando os próprios pés. Depois dizem que não gostam deles!
  --- Eu estava olhando e pensando: " Nossa! Como são feios!"
        Ah! Então descobri o segredo! Quando elas olham os próprios pés, pensam isso!
  --- O esmalte é roxo. É novidade pra mim.
  --- Ah...Tá...
  --- Qual seu nome?
   ---- Márcia.
        Fico esperando que ela pergunte o meu. Não pergunta. Você sabe que despertou o interesse em alguem, quando lhe pergunta o nome, daí a pessoa pergunta o seu. Não. Márcia não queria saber o meu nome. Então, fico simplesmente olhando aqueles pés. Òtimo. Sem complicações. Ela estava no intervalo de almoço e se despede educadamente.
   ---- Passe bem, moço!
    --- Você está sempre aqui, a essa hora?
   --- Sim.
   ---- Posso voltar a vê-la?
  ---  Pra quê?
  --- Nada não.
       Entro no ônibus. É uma sauna. Levanto a camisa e enxugo o suor debaixo da barriga. É um daqueles bancos que deixam você de cara com outra pessoa. E lá estava ele. Um homem com um nariz enorme, com uma verruga bem na ponta, ouvindo musica nos fones de ouvido, e aparentemente acompanhando o ritmo com a saliva na ponta da lingua, de encontro aos lábios pendentes e babosos. Penso nas bruxas das estórias infantis.
 ---- Spliiittt...Liiipssstsss....
    Um arrepio horrivel percorre minha espinha. A visão da verruga apontando para mim, e a linguinha a expelir cuspe, entre uma "doce melodia".
    Resolvo fechar os olhos, como certa vez fiz quando criança, quando "vi" uma caveira em cima do armário, e comecei a rezar.
  --- Senhor! Senhor! Livrai-me dessa verruga e desse barulhinho!! Me arrependo de minhas mancadas!! Ação...Reação...Ação...Reação...Ação...VERRUGAÇÃO!!! AAAAAAAAHHH!!
       Abro os olhos. Alem do sujeito continuar na minha frente, ele agora, sorri para mim! Levanto e dou o sinal. Estou de volta a rua. E não sei como terminar de modo interessante, esta crônica. Mas o que é que realmente importa, no fim das contas? Um par de pés na minha frente, é algo importante para mim, mas para outro pode não dizer nada. Certa vez, um colega disse para uma pessoa, que eu gostava de pés, daí o cara perguntou: "---Pé de galinha?"  Poisé...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ontem

Hoje vejo
que o ontem
foi um vulto que passou
Foi a sombra assustadora
cujos braços largos
me ameaçavam,
Hoje vejo
com mais clareza
que era a sombra da grande árvore
que já foi assim, como eu, semente,
e a qual devo escalar,
o que antes parecia
sombrio obstáculo
já consigo perceber
entre a folhagem espessa
do véu do cotidiano,
sim, consigo perceber
que precioso fruto me aguarda
Começo a escalada
Cada galho é uma vida,
Cada galho é uma conquista,
Não anseio pelo milagre
de ver-me facilmente transportado,
Só oro pelo equilibrio necessário,
De seguir firme, sempre acima,
Pois já é passado, como o sombrio vulto
O meu tempo de semente.

A Escada

Descobri
uma escada para o céu,
mas é tão dificil de subir
Desanimo ante a visão
de seus degraus estreitos,
E há muitos obstáculos
entre eles,
Subo um,
Impaciento-me, retrocedo,
Subo outro, escorrego,
Fico choramingando
como vitima injustiçada,
Ah! Mas que cada verso
que escrever, seja a metade,
da metade da metade
de um degrau,
E que a ação
adicionada a doses generosas de amor
Completem a matéria prima
para esta construção lenta
mas inevitável,
Rumo a este céu
Localizado dentro de mim mesmo!

sábado, 10 de setembro de 2011

Bolada



Descobri outro dia,
Minha mãe me contou
Que tive trauma de bola
Quando tinha cinco anos,
Não lembrava disso,
Para mim
Simplesmente não gostava de bola,
Mas não,
Tomei uma bolada
Dos garotos mais velhos
Lá no colégio das freiras,
Depois a madre
Contou uma história
Na reunião de pais
Sobre um menino que
Não gostava de bola:
- Menino que não gosta de bola...
Vocês sabem o que é, né?
Eu nunca joguei bola
Mas já não me sinto infeliz
Pois descobri o que é um menino
Que não gosta de bola!
É artista!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Não Pisei

Não pisei
na lagarta que caminhava
com seus vários pézinhos na calçada,
Antes, vítima da ignorância,
a mataria,
Menos uma borboleta
a colorir a paisagem de concreto,
de poluição
de criança abandonada
de violência
e tantas imagens feito agulha
a furar-me o olhar sonhador,
Não pisei,
E oro
pela sobrevivência
desse pincel da natureza
a pintar o cinza que pesa-me na vista
e me obriga, como agora
imaginar algo melhor.

sábado, 3 de setembro de 2011

O Canto

Abri os olhos
O canto me chamou à vida,
Vislumbrei uma promessa de amor,
Campos verdejantes
Um caminho feito de flores,
O sorriso de um bebê,
Relaxei tanto,
que soltei um pum,
A imagem mudou
O banco da praça,
Emporcalhado pelo cocô
desses passarinhos,
que cantam tão bonitinho.

Doce Faca

As máscaras
me sufocam,
não consigo respirar,
Quero a faca
para arrancá-las,
Revelando a real face,
Doce Faca que estais nos céus,
Faça-se arte entre os homens,
Arrancando tecos de hipocrisia
desta carne escrava que lhe suplica!
Amem!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Asas

Sou um pássaro,
Só posso imaginar
o que está alem do horizonte,
Tenho asas atrofiadas,
Pelo medo,
Pela preguiça,
Pelo comodismo,
Pelo orgulho,
Senhor, tira esses pesos
que fazem de minhas penas, chumbo,
E ajuda-me
a desenvolver essas asas,
Fazendo-me voar
por sob os obstáculos,
E transpor um horizonte
após o outro,
Atravessando noites
e louvando cada dia
a banhar-me essa nova plumagem,
Chamada consciência!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Minha Caixa

Na minha caixa

tem um par de sapatos

que eu guardo

para a última caminhada,

São sapatos alados

para caminhar por cima das nuvens,

Por cima de toda coisa feia que me cerca,

Pularei o muro mais alto,

O muro com o arame farpado da maldade,

E sapatearei feliz

ao som das trombetas dos anjos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Jardim Infinito

Pai,
Entre todos os sóis
que já me esquentaram a face,
È o teu sol,
não material,
que minha seiva necessita,
Lágrimas
são as folhas
levadas pelo vento,
E o tempo
é a àgua que mata a sede,
Teu sol é a energia
em que minhas raízes vacilantes
buscam o calor que as torne fortes,
Fazendo florescer
as cores vibrantes
deste jardim infinito
Chamado evolução.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Caminhada Incessante

A longa estrada


não termina nunca,

O ponto de partida

já não me recordo.

Apesar de ainda colher espinhos

Penso apenas

Em plantar as rosas,

Flores estas

Feitas de esperança,

Cujo perfume faz-me

Pensar em dias melhores

Já sem os espinhos

Lá do ponto de partida,

Nestas eras, tantas vidas,

Caminhada incessante.



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vagalume

Obscurece
minha vista,
Nuvem densa
feita de urubus,
Cada dia
é uma bicada
em minha carne,
Não toquem meu espirito,
Eu quero a luz,
Mas a tentação
é uma serpente
que envenena
minhas vísceras,
Sonâmbulo, caminho
no labirinto,
E sei onde está a saída,
Peço forças para transpô-la,
Eu quero a luz, repito,
Me enganando,
Sei que está dentro de mim mesmo,
Sou um vagalume
Que pensa ser uma mariposa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vampiro Sem Dentes

O ônibus se arrasta lento
como velho com reumatismo,
Neste trânsito-formigueiro sem ordem
cada auto-formiguinha prum lado,
E eu, cercado destes jovens
Cheios de sonhos
pipocando feito bolas de chiclete,
Sonhos cor-de-rosa-ilusão,
Tão bonito e tão triste de se ver!
Meu crânio calvo que já sonhou de tudo
se inclina com olhos marejados,
Que se ressentem pelo tempo perdido,
Tempo feito de fumaça como
o peido que sai da bunda do coletivo,
Volto a olhar estes jovens
com seus rostos de pele brilhante
feito bundinha de bebê,
e olho meu reflexo no vidro,
Este rosto marcado e cansado
sob o reflexo do rosto do jovem,
Queria a juventude eterna,
Mas, sou um vampiro sem dentes,
Apenas com uma caneta na mão.

 

André Diaz

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Teu Abraço

Água parada,
há pedras no fundo,
O som lá fora
sugere vida,
Mas são
cubos de gelo
no copo ardente
de meu coração,
Fecho os olhos,
Sinto teu abraço,
Dele, faço vinho quente,
Sorrio,
Pela primeira vez,
Bebo da solidão,
E saio aquecido
no frio da avenida.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Eu Amo Este Cara!

    Parei, vendo aquele video e pensei, como admirava aquele homem! Pela primeira vez, parei pra pensar sem nenhum preconceito. E porque os preconceitos? Se nem eram meus? Eram do mundo? É. Realmente, nunca havia me gostado tanto, antes. Por estar viciado nos preconceitos do mundo. Nunca me aceitei, porque não era o representante ideal, do "macho ideal".
    Sempre me "auto-flagelei" pela minha sensibilidade exacerbada. Por não valorizar aquilo, que a sociedade impõe como certo, ao "macho ideal" valorizar.
    Estive perdido, enquanto artista, em minha juventude. Desenhando histórias em quadrinhos, em que me colocava como o "super-homem", o retrato idealizado do macho aceito pela sociedade infantil.
    Infantil? Sim. Pois ela sonha com utopias. Não se aceita. Como eu não me aceitava.
    Ah! E como é bom exteriorizar este nosso melhor! Então, eu paro e admiro este homem, não aceito pela sociedade estupida. E o que faço, então? Eu amo este cara! O "S" pára, extasiado, diante do "Z", e se emociona!
    Este cara sou eu mesmo, e só parando para ler o que ele escreve, para vê-lo atuar nesses maravilhosos videos, é que pude perceber como sou belo! E não é aquela coisa negativa, de se achar melhor que os outros, mas o que eu sou, é muito bom! E quanto tempo pra perceber isto!
    Claro, uma beleza desdenhada pelo olhar turvo e poluído, de uma sociedade que não se respeita. Não respeita seu verdadeiro "eu", em detrimento de uma postura, construída sobre valores vãos.
     Quem é este ateu? Este ser horroroso que faz um tal de "São Rivotril", e ainda chama isso de poesia? Alguem que faz graça em cima do sagrado???
     Sabem, que eu mesmo, quase caí nessa? Comecei a acreditar nessa balela? Um dia, falei:
     "Não! Não vou fazer mais! É blasfêmia!"
      Mas este pensamento não era meu! Eu queria apenas, ser aceito. Fazer algo que fosse bonitinho!
      Dei fim, ao meu blog. Comecei a fazer outro. Com arte panfletária cristã. E arte pobre. Aquilo não tinha lirismo. Não era poesia. Não vinha de dentro. Arte tem que vir de dentro. Não pode se ficar raciocinando, para se jogar  lições de moral em cima dos outros. É preciso um bom adiantamento espiritual para isso, creio eu, ter estudado muito, etc.
      E este segundo blog, tambem foi excluído. E estamos aqui, novamente. "Rezando pra São Rivotril." Eu sabia que não estava sendo desrespeitoso com nada. Quem me conhece, tambem sabia. Mas, estava preocupado com a opinião alheia. Hoje, trilho o caminho espirita. Mas, sabe aquela culpa católica? Muita gente me aplaudia, quando eu apresentava o poema, mas eu tambem via a carranca acusadora de pessoas "dogmáticas" que não entendiam nada de arte.
     Tenho ainda, e acho que não perderei essa ligação forte com o catolicismo, e é algo que sempre se refletiu na minha poesia. Um poeta, certa vez, assistiu o "São Rivotril", e me perguntou se eu era religioso! Taí, um cara com sensibilidade! Tem que ser artista mesmo, para captar mais acertadamente, o que outro artista está tentando dizer.
    Usei a imagem católica, apenas como alegoria para dar sentido exato, do que era tomar rivotril (porque eu tomei) naquela época. Era algo mesmo, de alívio para as dores terrenas, me entende? Nunca fui, e nunca serei ateu. E "São Rivotril" é apenas um poema sobre um remédio.
     E, mesmo deixando toda a arte panfletária para trás, inconscientemente, introduzo essa coisa espiritual nas coisas que escrevo. As vezes, só me toco depois de reler o texto. Como é o caso de "A Folha Com Cara de Cão". Outro interessante, mas que, se a pessoa tiver preguiça de pensar, não vai sacar do que se trata, é "Amar é...", esse inclusive tem video , em que apareço chupando um pé de borracha. Alguem com pensamento curto, vai parar e apenas dizer: "Cara! Que nojento!" Aqui, como em "Rivotril", eu uso uma alegoria, só que desta vez, é o fetiche por pés. Meu querido! Minha querida! Presta atenção no texto: "Amar da boca pra fora/ È beijar o pé do campeão/ Amar da boca pra dentro/ É chupar os dedos sujos de chão!"
    Quer coisa mais cristã? Não vou explicar. É óbvio demais.
    É apenas questão, de parar para ler. E usar o cérebro já tão acostumado às noticias à velocidade da luz, do mundo informatizado. O titulo e o início dessa crônica é uma pegadinha, para essas pessoas, que vão logo jogando pedras sobre aquilo que tem preguiça de se aprofundar.
    Bom, é isso aí. Como agora, me gosto deste jeitinho anti-convencional, que Papai-do-Céu me fez, não tinha necessidade nenhuma de ter escrito este texto explicativo. Mas era algo, apenas para desabafar.
   E sem medo algum, que me caia um raio na cabeça!

  P.S: Alguem mais aí, se habilita a amar este cara? Rê! Rê!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Soluços No Paraíso

--- Alô?
---Alô...Quem fala...
---Oi, André! Sou eu!
---Ah...Oi...Desculpe...Tava mexendo no celular...Liguei sem querer...
    Minha cabeça girava e o forró retumbava lá dentro, no salão de festas. Meu amigo Caranguejunior, foi requisitado por alguma dama, para dançar. A sua amiga Érica, tambem não dançava, estava lá dentro, pois lá fora, na churrasqueira, estava um frio de lascar. Até aquele momento, conversamos sobre nossos fêmures fraturados em acidentes automobilisticos. Mesmo sendo um assunto dolorido, é bom trocar idéia com alguem que tenha algo em comum com você!
    E lá estava eu, às voltas com a carne e o tambor de cerveja. Muita gente! Muita animação! E me bate uma melancolia danada. Sabe quando você está cercado de gente, por todos os lados, como um mar vibrante de vida, mas você não é àgua? Você é uma ilha deserta? E sente uma necessidade danada para que alguem venha habitar esse terreno àrido, que é seu coração? Poisé.
   Comecei a fuçar nos contatos do celular. Liguei para uma pessoa, apenas para dizer "oi". Mas, quando ela atendeu, achei que seria algo muito estupido de se dizer. Daí, inventei a desculpa do "Liguei sem querer." Que se mostrou ser algo mais estupido de se dizer. E estupidez por estupidez, acabei abrindo mais uma cerveja.
    Caranguejunior e Érica decidem ir embora, e eu vou junto. A caminho do "Metrô-Paraíso", tenho um ataque de soluços:
----Hiiiiicccc!!! Hiiiiiiccc!!!
    E a Érica tem um ataque de risos:
--- Ri! Ri! Ri! Ri!
    E o Caranguejunior:
--- Quéisso, Andrezão! Prende a respiração!
     Já dentro do trem, eu soluçava e ria, porque a Èrica ria pra caramba, e acabei até, soltando um "pum" sem querer. E acabei "vazando" na estação errada!
     Mas acabei me divertindo, achando graça de meu ataque de soluços, provocado por um ataque de gula, que foi provocado por um ataque de melancolia.
     Poisé. Nós, os seres humanos, complicamos demais, as coisas. Com medo de uma pequena estupidez, fazemos com que ela se torne uma grande bola de neve estupida! E no dia seguinte, aquela bruta dor de cabeça! Coisa que poderia ser evitada, com um simples:
--- Eu só liguei pra dizer oi!

     
    André Diaz

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Viajante e O Vaginão

--- Você é viajante?
--- Hmmm...O quê?
--- Se você é viajante!
--- Não.
--- Parece.
     Estava a caminho de fazer uma cobrança, carregando minha mochila. E uma senhora me parou com esta pergunta. Depois, refletindo melhor, deveria ter dito que sim! Sou mesmo um viajante, um peregrino, sem nada de santo, admito. Um ser dividido em dois "(S/Z)?" Ou mais. Uma parte ansiando as delicias da luxuria. Outra, a pureza espiritual. Mas, todas essas partes, numa viagem constante, sem duvida!
     Chego ao meu destino (temporário, vejam bem), toco a campainha, mas não ouço o som. Estará quebrada? Toco de novo. Nada. Resolvo bater. Silêncio absoluto. Enfim, a voz de uma criança:
--- ÔÔÔÔ, ZÉÉÉÉÉ!!!!!!!!!!!Tão batendo na portaaaaaaaaaaa!!!!
      Penso: " Bom. O tal do Zé vai aparecer."
      Passam-se minutos, como pequenas partículas de eternidade, resolvo tocar e bater de novo.
      De repente, vejo um focinho de cachorro embaixo da porta. O curioso desse cachorro, é que ele não latia. Só fungava!
      Um cachorro mudo? Como ser um cão, e não poder expressar os sentimentos, sem poder grunhir ou latir? Será tudo na base do balançar de rabo? Deus! Creio que seja um cão imcompreendido!
      Eu mesmo, sempre tive voz, mas foi sempre duro para que alguem me compreendesse. Creio, então, que este blog seja o "rabo" que sacudo, quando estou feliz, ou que coloco entre as pernas, quando tenho medo!
      Dizendo "caetanamente": "Ou não!" Puxa! Nunca achei que o simples fungar de um cão mudo, debaixo de uma porta, me faria pensar tanto. Encher linguiça? Não. É simplesmente, "viajar". Poisé, eu "viajo", até sentado nesta cadeira!
     Não sei se é bom, ou mau, mas sou um cara muito "mental". Um amigo, veio falar outro dia, sobre futebol. Mas, admito que não acompanho, às vezes vejo algum jogo. Não manjo nada, desses papos "técnicos." Na verdade, admiro o lance "físico". Quando mais jovem, eu invejava as pessoas "físicas". Hoje, aprendi que a inveja é um puta sentimento negativo, e só faz com que atrasemos com nossas vidas. Assumi que sou uma pessoa "mental." E hoje, apenas, admiro as pessoas "físicas". A vida parece tão mais simples, para elas! Atravessar este mundo lugubre, com pernas e braços fortes, e nenhuma "minhoca-existencial" na cabeça!
     Sim! Me parece bem mais adequado, que escrever linhas e linhas, armado apenas, de um velho dicionário Aurélio!
     De repente, a porta se abre, e há uma garotinha na minha frente.
--- Olá! A Dona "Fulana" está?
--- Minha mãe saiu! Tipo... Ela foi trabalhar!
--- Sabe se ela deixou o cheque do seguro?
--- Eu não sei!
     "Será que o Zé, não sabe?" Pensei em dizer, mas calei-me.
--- Bom... Tudo bem! Depois eu volto!
--- Esperaí! Vô perguntar pra empregada, se ela sabe!
--- ÔÔÔÔÔ, ZÉÉÉÉÉ!!!!!!!!!!!! Tem gente na portaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!
     Então, aparece a empregada, que toma um susto ao ver a menina com a porta aberta, falando com um estranho.
--- Ai, sua peste! Se sua mãe fica sabendo!!! Vem pra cá!!!
      Ela agarra o bracinho da menina e bate a porta na minha cara.
      Fico lá, olhando para a porta. Decido bater de novo. O focinho do cachorro mudo aparece novamente.
--- ÔÔÔÔ, ZÉÉÉÉÉ!!!!!!!!!! O "ômi" ainda tá na portaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!
     A empregada volta e lhe digo que vim buscar o cheque do seguro.
    Mais um pouco, e ela finalmente surge com o cheque na mão. E eu vou embora.
    Lembrei de toda essa situação bizarra, porque no momento, estou apenas de "fraldão", uma boina e gravata, atrás de uma cortina, esperando minha vez para recitar um poema. Duas moças estão lá no palco. Perguntando à platéia, se ela "ouve seus ovos!" Alguem entra na loucura, e diz: "Eu ovo!!"
    Foi tudo bizarro, e creio(terei que ver o video pronto) que fui eu, o mais estranho e chocante poeta que pisou naquele palco!
   E isso é bom? Sei lá, senti -me nervoso, Aos olhos de quem assistia, devo ter parecido (citando meu primeiro poema)" RI-DI-CU-LO!! "
  Mas, naqueles loucos momentos... Eu existi!!
  Sim. Percebo que o artista precisa do palco. Como o óvulo precisa do espermatozóide, para que se dê a magia da vida! Mas, a ficha só caiu, após a apresentação, quando fomos a uma pizzaria, comemorar. As pessoas pareceram espantadas, ao descobrirem que eu era uma pessoa timida. Bem diferente, daquela figura batendo "asas" e "cacarejando", como um fugitivo de hospício.
   Então, bateu-me uma espécie de "depressão-pós-palco". Aquele, sentado, comendo pizza... Não era mais "a minha existência".
   Ela ficou naquele palco! Que na verdade, me aterrorizou no início, coisa que até me fez cair do banco, colocado de modo, que o atravessássemos, após recitar o poema. Pois nós "nascíamos", quando entrávamos no palco. A proposta era essa, a abertura da cortina, era na verdade, um "vaginão", E nós nascíamos de fraldas. Então, já nascidos, não poderíamos retornar à grande vagina! "Quem nunca pensou nisso, um dia?" Mas, cada vez que íamos recitar... Nós dávamos a volta, e nascíamos novamente, para um novo poema! "Reencarnação?" Sim, amigos! Artista quer palco, por mais aterrorizante que seja! Acham que me considero artista, por escrever este blog? Não! Apenas um chato, que escreve suas neuras e sonhos e tenta socar tudo goela abaixo, dos camaradas, enviando seus avisos de atualização.
    A apresentação dos "Poetas do Tietê", era o resultado de uma oficina de poesia, que fazíamos nos fins de semana. Na semana seguinte a apresentação, a qual descrevi, não nos veríamaos, pois meus amigos queriam viajar no feriado, fiquei então, "viajando" no papel mesmo, e mais triste, pois demoraria mais tempo, para "existir" de novo!
   Então, decidi colocar a "casca vazia" para dormir. Enquanto, minha "alma" ficaria lá, ansiosa, atrás daquela cortina, com a cabeça, louca para emergir da grande vagina. Como um bizarro "fantasma-da-ópera-de-fraldas!"

A Folha Com cara De Cão

    Crrrccc...Crrrrccc...Meus joelhos fazem esse barulho de sucrilhos sendo mastigado, enquanto arrumo minha cama. Isso me dá arrepios, pois começo a pensar que sou feito de ossos, cobertos com camadas de substâncias viscosas, que um dia irão apodrecer.
    Desço ao supermercado, para comprar óleo, uma moça passa por mim, fazendo cooper, os caras do posto de gasolina sorriem e assobiam, entusiasmados. Eu já não me entusiasmo tanto, apesar dela ter um bumbum convidativo, é que acho que calça de lycra segura muito, assim como o jeans. Eu prefiro aquele tipo de tecido que deixa as nádegas mais soltas, "tremelicantes".
    De repente, já não é mais dia, é noite. Estou no ponto de ônibus e não consigo tirar os olhos do pé daquela outra mulher. O esmalte prateado solta-me raios lazer paralizantes, e eu fico lá, hipnotizado. Meu ônibus passa. Fico vendo o tempo passar, desde a invenção da roda, até o fim absoluto. Nada mais restou. A terra devastada apenas deixou-me um galho seco, com uma folha engraçada. Ela tem cara de cão. E me encara. Eu sei que é só o vento batendo. Mas parece que esse pequeno cão balança a cabeça, inconformado com o unico epécime humano existente.
--- Então, tu és o que chamam de homem?
--- Quem chama? Não há mais ninguem!
--- Os elementos do vazio, o chamam assim!
--- Há elementos no vazio?
--- Rá! Rá! Pensas que és grande coisa? Saco de tripas e ossos!
--- Posso não ser! Mas sou algo! Não o vazio!
--- Apodrecerás e pertencerás tambem, ao vazio!
--- E o que é o vazio, afinal?
--- O vazio é o impensado! O que não foi inventado! O vazio sempre haverá de existir! Porque não existe, de fato!
--- E o que é o existir? A existência, então, não teria importância?
--- A existência é o rolar da pedra!
--- De onde vem a pedra?
--- Ela vem do alto! Ou, às vezes, é impulsionada de baixo, mesmo!
--- Mas, o que é a pedra?
--- A pedra é formada de outra, que se partiu e sua poeira juntou-se no vazio, formando outra! Que tambem haverá de rolar e se espatifar no fim, e dar início a outra, e assim por diante!
     Nisso, um vento mais forte bate na cara do cãozinho-folha, que vira poeira, que vai para lá longe.
--- Então, é isso...
     Balbucio, me ajoelhando e sentindo que então, viria um vento bem mais forte, para desfazer-me em poeira. E, quem sabe, o que aprendi, retorne intacto, na formação de uma nova pedra, mais resistente, e que não se quebre tão fácil, no terreno da vida humana.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ser Ou Não Ser Ridículo?

    Imagine um grupo de poetas num local escuro. Recitando poemas? Não! Tirando a roupa! Sacanagem? Não! O momento é sagrado. Há uma magia no ar!
    A magia da Arte! Quatro marmanjos posando para fotos, usando apenas fraldões! Ah! Um deles usava meias! Eu estava entre eles, sem pensar em momento algum, qual o sentido daquilo.
    Eu estava rindo! Por que pensar no sentido da alegria? Vivemos num mundo em que se mata o próximo, até em nome de Deus! Ah, meus amigos! Isso sim, não tem sentido! Vesti o meu fraldão extra-grande, e dei uma banana para o horror e toda a merda que me cercava!
   Me soltei! Sem medo de ser ridículo! Pensando mais seriamente no fato, acho que agi de modo ridículo, de verdade, todos os anos que se passaram lá atrás.
   Tudo perda de tempo. Minha amiga disse que deveria escolher entre ser artista, e arrumar namorada, depois que o mundo me visse daquela maneira ridícula.
   Pensei na minha solidão que atravessa os anos, e vi que não houve vantagem alguma, em ser um cara sério. Me diverti mais nesses rápidos momentos de "infantilização", do que em todos os momenstos juntos, ao lado de mulheres sem um pingo de sensibilidade para ver a sorte que tinham em ter um artista ao seu lado. É aquela coisa, artista é bom quando é sinônimo de grana. Estou me achando grande coisa? Sim, estou achando mesmo!
   E é assim, que seremos de fato, felizes!
   Fazendo o que gostamos, mesmo parecendo ridículos! Vivemos em função do que o outro vai pensar.     Criamos uma casca de falsidade, e quando nosso "eu" verdadiro decidir se soltar, talvez seja tarde demais.
 Eu não tirei minhas roupas e coloquei um fraldão, simplesmente para aparecer. Não, meus amigos. Tirei a casca da mentira, para tentar ser feliz.
   Se escrevo essas linhas, com a velha melancolia marcando meus traços, é porque não me iludo. Como diz a canção de Odair José: "Felicidade não existe...O que existe são momentos felizes". Por mais ridículos que pareçam.

Para Que Servem As Páginas Em Branco Dos Livros

    Término de trabalho para muitos. O formigueiro humano do centro de SP me empurra para o lado, bem do lado do poste. E eu não vejo a grande merda em que piso. Há um mendigo por perto. Realmente, aquilo não me parecia ser obra de um cachorro.
    Mergulho o pé numa poça d'água, e vou deixando um rastro marrom no meio-fio. Mas é pouco! Injuriado, me encosto no muro de um estacionamento, olho para a sola do sapato. E a coisa é bem pior do que imaginava! Abro a mochila, só tem papéis que não podem ser destruídos. Apólices de seguro e protocolos de propostas.
   Pego então, o livro que estou lendo. Sempre me perguntei para que serviam as páginas em branco dos livros. Mais papel para encarecê-los? Pois hoje, encontrei a sua utilidade! Limpar cocô do sapato! As duas páginas em branco ainda não tinham feito grande coisa. Tive que pegar também, aquela ultima, do "O Autor e sua Obra". Ah! Minto! A primeira página, não estava propriamente em branco. Comprei o livro usado, e havia uma dedicatória e uma data. Penso que houve carinho, ali. Algo quente a unir duas pessoas. E que acabou com algo, também quente. Porem, nojento e infecto.
   Era algo que não gostaria de ter feito. Chateado, depois contei para um amigo, que me disse:
--- Pisar na merda é boa sorte!
--- Sério?
-- É! Dizem que sim!
    Agora, me deito. Tentando lembrar da ultima vez, que pisei na merda. Não lembro.
    Pego meu livro sem páginas em branco, sorrio e acaricio sua capa dura.
--- Foi por uma boa causa, amigo! Uma boa causa!


     
      André Diaz

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Abominável Homem Que Cumprimentava

    --- Bom dia!
         Sandro pára, aterrorizado. Sua memória fraca lhe atormenta. Odeia quando alguem lhe cumprimenta, e ele não se lembra quem é a tal pessoa. Aquele sorriso aberto, luminoso, aquele olhar franco. A mão estendida, tão jovialmente. Tudo na atitude simpática daquele homem, mexe com os nervos do irritado Sandro, que não consegue esboçar nenhuma reação, só um movimento moribundo de cabeça.
        Ele passa pelo homem, e ouve novamente, o 'Bom dia!' Olha para trás, e vê que o simpático e enigmático ser cumprimenta mais outra pessoa, que se mostra tão confusa como ele. Quem seria aquele abominável homem que cumprimentava?
       A nova vítima do cumprimento, se aproxima dele.
   ---- Deve ser um louco! Não o conheço!
   ---- Cumprimentou-me, tambem! Alguem que sai cumprimentando as pessoas que não conhece, definitivamente deve ser um lunático!
   --- Sim! E perigoso! Deveríamos fazer algo!
   --- Vamos ligar para a polícia! Isso não pode ficar assim!
        Saíram correndo, de encontro a um telefone publico. 'Talvez, mais uma vítima do cumprimento do louco!' Pensa alto, Sandro, e o outro homem, que não sabemos o nome, balança a cabeça, concordando com tão luminoso pensamento!
  ---- Alô! Policia? Eu, mais uma pessoa, fomos vitimas do cumprimento de um homem estranho! Obviamente, deve ser um louco! Ele deve ter cumprimentado, tambem, o telefone do qual me sirvo para lhes pedir socorro!
  ---- Oquê?! Ele cumprimentou o telefone publico?
  ---  Ah...Bem...Sem duvida! É um louco varrido!
  ---- Como se vestia?
        Logo, a policia tem a descrição do louco que cumprimentava telefones publicos, e as viaturas estavam a sua procura, com pistolas sedentas de sangue!
       Enfim, o terrivel 'cumprimentador' é avistado, e pego em flagrante, cumprimentando uma senhora idosa, que inocentemente, correspondia ao cumprimento!
 ---- Parado, aí, meliante!
 ---- Bom dia, seu guarda!
 ---- Paradoooooo!!!!!
        O sorriso brilhante do 'criminoso' cega temporariamente, um dos policiais.
 ---- Meu Deus! Esse sorrisooooooo!!!!!
       O outro, tremendo todo, mal consegue empunhar o revólver, ao ver se aproximar "o monstro" com a mão estendida para um ameaçador aperto de mão.
---- Atira, Junqueira!!! Ele vai nos cumprimentaaaarrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!
       Bang! Bang! Bang!
      O corpo de um dos ultimos homens gentis, tomba na calçada cinzenta, debaixo de um céu cinzento, na cidade das pessoas cinzentas. Que volta a normalidade, com todos carrancudos, trombando uns nos outros, numa correria sem sentido, cujo destino é lugar nenhum.

A Canção Interrompida

--- Libra tem uma característica de equilibrar as pessoas a sua volta... Mas não se equilibrar! Vive o tempo todo desequilibrado!
     Passo por esse grupo de pessoas, saco meu caderno de anotações e escrevo a fala desse sujeito, que diz uma verdade sobre mim. De repente, sinto um punho fechado me empurrar, não se parecendo nada com o que um assaltante faria, me viro preparado para ver algum conhecido rir de minha cara. Apenas vejo uma mulher maltrapilha passando, naturalmente uma louca. Sim, sei que é ridículo, um pensamento muito idiota, de minha parte, mas deu-me vontade de ir lá, e chutar-lhe a bunda! Graças a Deus, só fiquei na vontade, resmungando, preocupado se minha camiseta limpa, já não estaria mais limpa!
    Espero fechar o farol, a Rua 7 de Abril vomita veículos e motocicletas assasinas, loucas para chegarem ao seu destino na hora certa, nem que isto custe a vida daquele que está em cima dela, ou de qualquer outro infeliz que passe na sua frente.
   Uma mulher com cara de india, está sentada no chão, com suas duas crianças, em meio a imundície e artesanato feito de palha e penas. Um cego vem cantando e atirando sua bengala para lá e para cá. Eu vi o que iria acontecer. Assim, como alguem viu quando a louca me empurrou, eu vi a bengala do cego bater na perna da pedinte, e uma das crianças gritar assustada. O cego tambem se assusta, e todo sem jeito, continua o seu caminho de trevas, mas a canção foi interrompida. Assim, como interrompo esse relato.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Artista

O artista
é complexo,
O artista
não tem nexo,
O artista
não tem cor,
Aroma, nem sabor,
O artista
é o vento que
carrega a poeira do mundo,
E dela
faz a tinta que colore
a face envelhecida
do tempo,
O artista
é o fluido vital
que corre
nas veias
de um moribundo rabugento
chamado cotidiano.

Meus Pés

No chão
que se move,
meus pés
reclamam quietos
um pouco de carinho,
Afinal, coitados,
carregam um peso enorme,
de alguem perdido
na multidão.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aquele Paulo Virgilio*

Hoje reli
um velho livro,
Antigas pegadas
nas areias
de um tempo distante,
Aquele Paulo Virgilio
Conservará os sonhos
de outrora?
Como ser poeta
num mundo onde
homem não chora?
Não tema
que te achem fofo,
Algodão doce
nunca será concreto,
Não faça como eu,
Se esconder no cinza,
Se houverem flores
ao redor,
Flores tambem
nascem
de versos simples,
Mesmo condenados
à fina camada de pó
de um falso esquecimento.


*Dedicado ao amigo e poeta Paulo Dauria.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Peço Perdão Às Flores

Peço perdão às flores,
pisoteadas pelas botas do medo,
Temi as suas cores,
Como se pudessem
expor meus segredos
em cada pétala atrevida,
Como se pudessem
coxixar minhas fraquezas
Sob a ameaça
de um vento mais forte
e chantagista,
Quis esconder-me
no negro das sombras
abaixo do cinza
dos edificios,
Mas o perfume
alcançou minhas narinas
como uma carreira de pó de estrelas,
E fiquei doidão
de paz profunda,
Novamente vi as flores,
Ainda que funebres,
a enfeitarem o
tumulo de minhas lágrimas,
E vibrarem ao
sol de melhores dias
que me aguardam,
Tal bexigas de
aniversário
de meu novo nascimento!


André Diaz

segunda-feira, 7 de março de 2011

Eu Quero Ser Eu

Não quero ser
uma linda planície verdejante,
Onde os sábias vem assobiar,
Só para agradar teus
olhos hipócritas,
Eu quero ser eu,
Terreno cheio de escombros
e recantos sombrios,
Onde casais de cães sarnentos
cruzam ao chamado da natureza,
Não sou fácil de se olhar,
Poças viscosas aqui e lá,
Mas sou assim,
Eu sou eu,
Não gostou,
Problema teu!

Dois Cisnes

Tão linda,
Estátua grega
que se move
com a graça feroz
de um leopardo,
Tão linda,
Como o amanhecer
da cor do fogo,
Pensando em ti,
fecho os olhos,
E em sonho
nos encontramos
e envolvemos
nossos corpos
Como
os pescoços
de dois cisnes,
Tão longos
quanto
meus
dias sem voçê!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Tive Medo

Tive medo,
Tive medo
quando a vi,
Tive medo
de mim mesmo,
Como aquela
urina pingando na cueca,
Que não espera
A gente chegar
no banheiro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Olhar Dela

Meu coração
é um pedinte
com a perna amputada,
O olhar dela
é a esmola
que esse homem recebeu.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Espelho

Vi
um homem velho
no espelho,
Que tinha
sonhos na cabeça,
Feito uma
coroa de bolhas de sabão.

Parei pra não Pensar

Jogo de futebol,
Parei pra não pensar,
Larguei o livro,
a caneta,
o caderno,
Deixei de ser mental,
Pra celebrar a coisa fisica,
Jogo de futebol,
Coxas de aço,
Pés de chumbo com asas,
Chutando  a merda toda
pra longe,
A merda quicou
na trave do ventilador,
E voltou na minha cara,
Igual tesão
que vira punheta,
A merda me adubou o pensamento,
Fazendo nascer poesia
Na ponta dos dedos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Raiva

Pingam
pingos
de
sangue
do
céu,
Meus
olhos
rubros
não
vêem
nada,
não
te
atacarei
com
uma
lâmina,
Te
escreverei
um
poema,
Não
desmenbrarei
teu
corpo,
Rabiscarei
com
minha
caneta
ardente
tua
pobre
alma
como
um
simples
papel
de
rascunho.

Veneno

Meu coração
sangrando
se arma
de poesia venenosa
Ante a àgua
imunda que
afoga a esperança.