segunda-feira, 22 de junho de 2020

Se de fato, Existir um Céu


Minha amiguinha
se foi esta tarde,
e levou aquela coisa tão importante
que é o amor entre dois seres
sem a necessidade de palavras,
Se eu estava mal
lá vinha ela lamber meus dedos
mesmo após lhe dar bronca
por fazer coisas de cachorro,
Vamos passear?
E ela pulava como louca,
A ficha ainda não caiu,
Fico esperando que do quintal vazio
venha ela correndo para cheirar a cozinha inteira,
A coisa que mais quero no momento
é que exista um céu para os bichos,
Pois minha amiga é merecedora
bem mais que a grande maioria do exemplar humano,
com suas intrigas, falsidades e orgulho,
Sento na mesa
e a cabeça dela não aparece mais
a espera de um pedaço de minha comida,
Ela se foi
e deixou um buraco aqui no meu peito,
levando consigo todo o lirismo que gostaria de passar para esse papel,
Ela se foi e levou minha poesia,
pelo menos, por hoje,
Então lhes deixo um retrato cru e realista
dessa merda chamada saudade
que tenta me matar nesse momento,
Mas não vou agora,
Porque sei que não iria encontrá-la,
Porque se de fato, existir um céu
é minha amiga que o merece, e não eu.


André Diaz

domingo, 21 de junho de 2020

Pássaro Poeta

Quebrou a casca faz tempo,
mas parece que foi ontem,
Seu canto sai
cheio de rimas, alegrias e tristezas
e a intenção de se fazer ouvir por todos,
Chegou a idade,
suas asas anseiam por vôos mais longos,
A gaiola do cotidiano
só segura as aves conformadas
não o pássaro poeta,
que já nasceu com espirito livre,
Que desde o primeiro piscar de olhos
já deu asas à imaginação,
Deixem-no voar
e escrever com própria pena
as linhas as linhas tortuosas e tão incertas
desse caderno em branco
chamado existência...

terça-feira, 2 de junho de 2020

Sublime Abrigo

O caos das ruas
é filho da solidão,
que me atravessa a alma todos os dias
como faca cega,
sorrio e cumprimento o vizinho,
ele não pode ouvir o meu grito silencioso
e volta a se entregar a sua própria confusão interior,
enfim, chego em casa,
Ela levanta a cabeça branca de algodão,
estende seus braços cansados
e o berro que ecoa em meu peito, silencia,
e a balburdia de aço e concreto
dá lugar ao perfume e a paz
desse sublime abrigo chamado abraço de mãe.

Dolorosa Delícia

Estou seco por uma cerveja,
mas tem a merda do vírus lá fora,
então fico por aqui,
é a paranoia, que agora mata mesmo,
antes só fazia com que me portasse como um cara durão
nas ruas mais suspeitas que gostava de percorrer
mas com o cu trancado de medo
e com os dentes cerrados,
receio de falar algo ridículo e que você risse de mim,
antes a paranoia só fazia com que brochasse na melhor parte,
deitasse a cabeça em seu colo e contasse sobre outras merdas antes do vírus,
Você acariciava minha careca, com um sorriso condescendente nos lábios
afinal, você tinha um homem de verdade nos braços,
muito longe de ser o melhor, mas real,
alguém que falava de suas paranoias
como alguém que diz seus sabores preferidos de miojo
e não vinha com aquela lorota "Ah..Isso nunca aconteceu antes.."
Claro. Não tinha orgulho.
Mas tinha você. Mas daria tudo agora por este momento,
A dolorosa delícia de se broxar nos braços de quem se ama.

A Beleza e a Indiferença das Flores

Trancado aqui
sem poder ir e vir,
olhando pela janela
finalmente prestei atenção nas flores,
as rosas que balançam para cá e para lá ao vento,
indiferentes a minha existência  e dessa humanidade estupida e sua agonia,
quando um toque, quando um passo
quando o simples ato de respirar está impregnado da substância da morte
tudo muda,
contas bancárias já não são garantia de nada,
aí paramos e nos colocamos a pensar
e a invejar a beleza e a indiferença das flores
que em nossa arrogância,
nunca tivemos tempo de admirar.

Minha Própria Humanidade

Tentei te amar humanidade,
Tentei me adaptar as suas regras,
Tentei ser uma peça que se encaixasse,
Procurei sua aprovação,
Uma criança que desejava ser o orgulho do pai,
Enterrar toda a sensibilidade num buraco fundo
e ressurgir como a porra do filho perfeito,
com diploma na mão e "DR" antes do nome,
Caralho, eu tentei,
Será que fui fraco
ou será que fui eu?
Agora te vejo, humanidade,
cair feito moscas,
sabe aquelas moscas que voam cheias de si
e ninguém consegue pegar?
E um dia aparecem lerdas, morrendo
num canto da janela?
É. Hoje é assim,
Seu passado é arma apontada
para sua têmpora,
Sua consciência é o estrondo da bala,
O silêncio é minha prece,
tentarei chorar,
e assim tentar recuperar
minha própria humanidade.

Um Colar Feito de Estrelas

Marta senta-se na beira da cama. Desliza as mãos no ventre, com dedos cujas unhas já não revelam nem mais um pingo da antiga vaidade, sempre esmaltados de vermelho, a cor preferida, impressa no vestuário, nos cabelos e nas paredes do escritório, ou o "quartinho de escrever", como gostava de chamar.
Repete o gesto todas as manhãs, na esperança de  que tudo não passara de um pesadelo, mas sempre constata a ausência de algo, ou melhor, de alguém, e sempre sente a mesma pontada no peito. Mas algo  parece ter mudado, as lágrimas parecem ter secado. Nos primeiros dias, Lucas aparecia logo em seguida, com uma bandeja com o café da manhã. Então, certa vez, ela sentiu-se enjoada diante a visão dos ovos mexidos e largou com aspereza a bandeja de lado. O rapaz não lhe trouxe mais o café.
Veste então, a longa camiseta com estampa de Monalisa, com seu sorriso enigmático, arrasta os pés nos chinelos grandes que Lucas largara ali, se encaminha para a sala e o encontra fumando um cigarro e olhando o mar cinza de prédios, da varanda. Então, ele sorve o resto de café da xícara, dá bom dia a ela, se inclina e lhe deposita de modo mecânico, um beijo na testa, pega a pasta de couro e sai pela porta. Ela se encaminha para o quartinho de escrever. O computador já estava ligado. Verifica que havia links abertos, e constata o que já desconfiava: Lucas passava as madrugadas se entretendo com sites eróticos, então os fecha e se põe a escrever algo. Imprime o pequeno texto e o deixa sob o teclado. Deita no sofá, fecha os olhos e a mente a transporta a uma viagem ao campo, anos atrás. Os dois deitados em meio ao campo infinito e verdejante. O céu noturno como a sorrir para eles, com milhares de brilhos a despontarem. "Eu vou te dar um colar feito de estrelas.." disse ele, lhe apertando a mão e ela lhe retribuindo, acariciando os dedos de unhas vermelhas. Aos poucos, as imagens vão se desvanecendo, uma voz grita em desespero, parece ele, mas parece tão longe..Ele sacode seu corpo..Pede perdão..As lágrimas pingam de seu queixo. No chão, ao lado do sofá, um bilhete amassado de despedida e um vidro de remédios vazio. Tudo escuro. Ela não vê mais nada, mas aos poucos, algo brilha ao longe e vai se aproximando devagarinho. Algo de brilho intenso. Uma garotinha de vestido branco, sardas no rosto e cabelo de vermelho vivo como sangue. Ergue nas mãozinhas algo cujo brilho lhe penetra como fogo intenso pela boca e narinas e explode em seus pulmões. Era o brilho de mil sóis. Era um colar feito de estrelas.

Apenas um Nome num Coração de Papel

-- Bia ! Bia!! Maria Beatriz!

   A menina finalmente coloca o ponto final à sua confissão do diário, o guarda no compartimento secreto do armário e desce correndo os degraus da escada.
--- Bia! Vai chegar atrasada ao primeiro dia de datilografia, menina!
  E lá se vai a garota, chegando à escola, a apenas um quarteirão de casa. Uma senhora de óculos a atende, sorridente, e a encaminha para sua mesa, onde sua máquina de escrever a esperava e junto com ela, um "futuro brilhante de possibilidades e colocações mais elevadas no mercado de trabalho", como dizia o folheto que apareceu certo dia em sua caixa de correio. Bia olha em volta e lhe chama atenção um garoto magro e cabeludo, com uma camiseta preta, de banda de rock e jeito atrapalhado, bufando e parecendo travar uma verdadeira batalha com a folha de papel sulfite no rolo da máquina. O rapaz percebe o olhar da menina, vira-se e dá um de seus melhores sorrisos amarelos, o qual a menina recebe como um presente inesperado. Suas bochechas ficam rubras, arruma nervosamente a tiara na cabeça e se põe a arrumar a própria folha na máquina. A professora a ajuda, e assim, metade da aula na realidade, é perdida, pois a presença do garoto atrapalhado se torna uma irresistível distração.
  Passam-se os dias, e Bia nunca mais se atrasa para as aulas. Antes mesmo do horário, ela já desce as escadas de casa, numa alegre agitação, causando espanto em sua mãe, que acaba se acostumando com a ideia  de que logo terá em casa, uma "próspera profissional da datilografia".
  A garota começa a estranhar a atitude fria e distante do rapaz do curso. Ás vezes, em casa, o vê passar, da janela, com tipos estranhos, e ás vezes, cambaleando, como se estivesse sem equilíbrio, como de vez em quando, seu próprio pai chegava em casa tarde da noite, depois de alguma reunião da firma e sua mãe se descontrolava e os dois acabavam brigando. Ela ficava então, matutando, se um dia se casasse com aquele garoto, seria igual para ela também?
 Além de vê-lo no curso, Bia cruzava com o rapaz em sua rua várias vezes. Descobriu que ele também morava lá, ela sempre lhe sorria, ele a cumprimentava, sem graça, mas nunca passava disso. De noite, em frente ao espelho, Bia experimentava um novo vestido florido, uma nova tiara e se perguntava se acaso ele a achava feia, mas o espelho, diferente da história de Branca de Neve, não lhe dizia nada, tão mudo quanto o seu príncipe encantado.
Então, certo dia na aula, fizeram um exercício de datilografar envelopes de cartão, o rapaz usou um envelope vermelho, o qual acabou esquecendo no fim da aula, junto a máquina. Bia deixou que ele se fosse, se apoderou do papel e o enfiou no bolso. Passaram-se os anos, uma moça revira caixas dentro de um armário, de repente um velho diário cor de rosa cai no chão, e uma coisa, aparentemente uma borboleta vermelha de asas quebradiças alça voo e cai junto ao pé da moça, que se abaixa, pega o frágil objeto que quase se desfaz ao toque, olha, sorri e caminha para a sala, onde uma velha senhora repousa assistindo a novela na TV.
-- Mãe, eu não achei o tal documento, mas achei isso..Quem é André?
A idosa por um momento não se lembra do que se trata, estica o braço trêmulo e segura o que a filha lhe mostra. Um brilho lhe passa rapidamente nos olhos, sorri e segura uma lágrima que se insinua.
-- Não é ninguém, filha. É apenas um nome num coração de papel.

O Arroto e o Por do Sol

Diário da pandemia: 09 de abril de 2020.
Após algumas latinhas, coloco minha máscara e desço ao supermercado. No caminho ele sobe. Impávido e valente. O arroto sai e invade as narinas, que já se esforçam para conseguir ar atrás do tecido grosso. O forte odor me transporta para os tempos de adolescência, de porres homéricos e sonhos tolos, quando para fugir da realidade, bebia litros e litros de álcool e terminava os dias expulsando todo o conteúdo das tripas numa bela praça, com o nome mais bonito ainda: "Por do Sol". As vezes, o liquido acabava sendo expulso pelas narinas também. Era ruim. Era horrível mesmo. Mas no dia seguinte, graças ao poder regenerativo da juventude, a operação era repetida. Hoje, nessa expectativa cruel de conviver com um vírus assassino sempre á espreita, sentir esse nauseabundo cheiro, me fez bater uma velha emoção da juventude, essa aparentemente infinita estrada cheia de vigor e fúria, inconsequência e sede de viver tudo. E quando não conseguimos sorver este tudo, acabávamos por tentar sorvê-lo nos litros e litros de álcool, que vejam só, só hoje, nas limitações e dores do amadurecimento, consigo de fato, apreciar. Porque naquela época, a lei era "ficar louco", mesmo achando a cerveja um troço amargo pra caralho.
 Como em outrora, pretendo repetir a operação amanhã, fazendo com que o forte odor penetre as narinas, fazendo com que meus olhos lacrimejem e por breve instante vejam um por do sol, que sempre há de despontar na esperança de um novo dia, ou na catinga de um arroto movido a muitas latinhas.