sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Bexiga de Preservativo



Sou o verme
que invadiu teu jardim intocável e florido
numa exposição desnecessária e inconveniente,
Tua vida é um perfil do instagram,
onde só cabem os belos e os felizes,
Os desmazelados
tu toleras apenas na DM,
Mas tudo bem,
Ser um revirador de lixo
não me torna menos digno,
Assim como a criança que vi hoje cedo,
na praça, a brincar com uma bexiga de preservativo.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Querofobia



Paro em frente ao que me parece ser um precipício
É difícil pular
mesmo que tenha um tapete de rosas no fim
para amortecer minha queda,
Repito que quero
que quero,
Mas a querofobia me domina
Sim. É tão difícil se jogar
quando pensamentos preenchem o cérebro
como um bloco de cimento
sobre as raízes das flores
deste jardim desconhecido,
Querofobia,
Sim. É tão difícil se jogar
quando caminhamos num mundo duro
em que o que tanto procuramos
se apresenta como um adesivo pisoteado no chão
escrito 'felicidade'.

O Riso da Hiena



A amargura é abafada
pela máscara do palhaço,
E o som estridente
que engana teus ouvidos
é o riso da hiena
cujo hálito cheira a carniça
contendo os pedaços da carcaça de saudosas ilusões,
o resto da refeição do leão do tempo,
Tenho um cemitério em ruínas no peito
e as batidas de meu coração
são como o grasnar do soturno corvo de Allan Poe:
Nunca mais!
Nunca mais!
Nunca mais!

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Torniquete



Mais um ano se esvai
das veias retalhadas da juventude,
A navalha enferrujada do tempo vai fundo,
Rugas são cicatrizes,
as articulações rangem
sob o peso das desilusões,
Devo estancar o que ainda resta de positivo,
A arte é o torniquete
que mantém ainda, aqui dentro,
aquele velho dom de olhar para o céu
mesmo em meio à uma tempestade interna,
e enxergar as mais bobas e sutis
formas nas nuvens.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O Paquiderme na Estrada de Cristal



Mastigo o tempo, como cacos de vidro
deitado na cama de pregos da solidão
A menina tira as botas e vejo nas verdes meias
meus verdes anos
quando caminhava como paquiderme numa estrada de cristal
Lascivo, fecho os olhos
me concentro na mocidade
odores e sabores materializam-se no bacalhau à debater-se do outro lado da montanha de erros acumulados
com as guelras a se abrirem e fecharem
pois a este ambiente já não pertencem mais
minha boca também se abre e fecha
no murmurio do ultimo gozo, diante da morte de mais uma saudade
o que resta é viscoso e morno
semente expelida à toa
como a lágrima que não cessa
e esse mau costume de transformar em poesia ruim
essa coisa que trago no meu peito
que como briga de dentaduras no lascivo beijo do casal de idosos depois de um azulzinho
não há Corega que segure!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Eu Vi Um Velho



Eu vi um velho
cochilando naquele banco
e o sono que vi, refletido no espelho
era a fuga para o seu desencanto

De repente, abriu os olhos
e viu o menino com as rosas na mão
foi como se retornassem velhos sonhos
e com maior desgosto, deixou cair as vistas ao chão

O casal de crianças
foi-se afastando, naquele dia especial,
levando consigo, as esperanças
que o velho criou, até o final

Criou como flores,
aquelas mais perfumadas,
Agora, não há mais cheiro, nem cores
fenecem sob a lápide de sua fronte, calva e arruinada.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Reflexo- (Poema de André Diaz e Jaime Queiroga)



Ninguém vê seu reflexo
nos espelhos do mundo,
estilhaçados por egos martelos
desfigurando qualquer semelhança,
porque não corta as amarras de teu egoísmo
nos cacos deixados pelo teu caminho, imbecil?
O outro não é apenas teu espelho!
O outro é o teu irmão!
E quem dera, um dia,
o homem ainda se enxergar no outro,
Como se de fato,fossem gêmeos univitelinos!

quinta-feira, 31 de março de 2016

A Celebração dos Bodes Velhos à Negação da Meia Idade



O cheiro do mijo veio forte nas narinas, como um despertador olfativo para o que viria a seguir. Lavei o rosto inchado, botei o boné ensebado do Black Sabbath no crânio devastado pela calvície, este atestado de decrepitude que o tempo carimba na nossa testa. Saio pra fora e observo pessoas indo e vindo com suas camisetas pretas de banda. Alguns garotos, muitos coroas assim como eu, sem cabelo e apenas uma barba branca de bode.
Começa o show, um calor infernal. Copos de cerveja e punhos levantados fazendo chifrinho. A morena na minha frente solta o cabelo e começa a 'banguear', a cabeleira vai e vem, rente ao meu nariz. Um perfume que é um bálsamo, depois da catinga do mictório e agora, em meio a centenas de machos suados, verdadeira celebração dos bodes velhos à negação da meia idade. Só três musicas se passaram e os dedos dos meus pés estão dormentes. Me balanço simiescamente de um lado pro outro, para que a circulação volte. Penso em sair da muvuca e me escorar, mas seria terrível erro arregar agora. Com minha cara de mau e a imponente águia do Slayer, com seu pentagrama de espadas no peito, não seria de bom tom jogar a toalha e cair nocauteado no corner. Era 'macho alfa', pelo menos naquele momento. A garota às vezes olhava pra trás, e eu lá, 'todo malvado'...Quem não te conhece que te compre, André Diaz.
Acaba e vou-me arrastando ao banheiro. Fila. Mijada e lavada de rosto. Não encontro mais a morena. Posso ser eu de novo, o garoto que se perdeu no labirinto do tempo, mas ao encontrar a saída, sentiu-se mais perdido ainda, pois a imagem refletida na água parada de lágrimas vertidas ás escondidas, mostrava a figura de um senhor, destoando totalmente de um coração juvenil, que se recusa a bater mais devagar. Os ouvidos zumbem, a guitarra de Andreas Kisser ainda rasga como motosserra e os urros do gigante de ébano, Derrick Green, ecoam como o monstro encerrado dentro do peito, querendo reagir selvagemente contra um mundo que vai contra seus ideais.
Ombros arqueados sob a camiseta empapada de suor, me fecho sobre mim mesmo, como uma 'Sepultura' cheia dos ossos de velhos sonhos. Fantasmas que se negam a calar. Assombrações de um tempo de juventude perdida.

segunda-feira, 28 de março de 2016

O Beijo da Sarjeta



Os corpos cobertos de sujeira
confundem-se com as sombras da sarjeta,
visíveis para mim, de qualquer maneira
outros olhos negam-se a enxergar cena tão infecta

Mas lá é que descobri
o amor que não se vê mais,
na boca de dentes podres, a fechar e abrir
enfiando a língua na boca do rapaz

Ela é só pele e osso
uma mancha a mais na paisagem,
ele a agarra pelo pescoço
o desejo cheio de feridas e desesperanças a empatar a passagem

A passagem da patricinha
que com seus saltos altos, dá a volta,
o céu escurece, a tempestade se avizinha
mas só o beijo da sarjeta me importa

Com minhas roupas limpas
e meus versos, não conquistei amor igual,
destinos não são traçados com as mesmas tintas,
e uma flor sempre nasce em terrenos regados de forma desigual

A mão calejada desce até embaixo
procurando a prova do prazer, em meio a imundície
de qualquer constrangimento, me desfaço
agora, não passo de passivo cúmplice

Vampirizando todo gesto de afeto,
agora, sou o pedinte
me alimentando com olhar indiscreto
extraindo beleza, de situação tão deprimente

A chuva despenca
como choro desesperado do céu,
enfim, notam minha presença
correm, resta-me a folha de papel

onde tentarei imortalizar
cada gemido que, imagino, costuma ser de fome
língua na língua, cada estalar,
lembrança que aos poucos some

Como somem, cada abjeta tentativa
de serem vidas, vidas como as que vi,
ao mesmo tempo, que se torna aflitiva
a culpa do prazer, que tão pungente, senti.

terça-feira, 22 de março de 2016

Minha Ferida Mal Sarada



A borracha de tua indiferença
Insiste em querer apagar
Qualquer indício de minha presença,
Até de meu coração, só farelo restar

Meu amor é a rosa vermelha que fenece
No frio da lápide de tua receptividade,
Que é como um deus de pedra, ouvindo a lamurienta prece
Como o médico legista, retalhando sem aparente maldade

Vejo o anúncio no poste:
“Faço voltar a pessoa amada”,
Digo, repito, não me importa se goste
Você será sempre, uma ferida mal sarada

Que coçará
A primeira mudança de tempo,
Cujo pus escorrerá
E só dele mesmo, se faria unguento

Por mais tempo
Não poderei deixar as moscas do ressentimento afastadas
Pois elas vem com o vento
Dos dias sem você, pessoa mais que desejada.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Tô Cagando (Poesia)



Não tentem me encontrar
nem à esquerda,
nem à direita,
Estive sempre as margens,
Não pertencia nem a turma do fundão,
Era aquele tipo quieto, do lado da janela,
sonhando em ter asas
e um amor pra chamar de seu,
Era apenas notado pelo valentão,
cuja valentia, só existia
perante alguém que não revidasse,
Mas ás vezes...
a menina mais bonita da classe
notava minha presença,
pedindo ajuda na redação,
Sim. Eu era bom em redação...Vejam só!
Descobri então, que poderia dar forma
ao que escrevia,
fazendo asas,
e com elas, fugir de todos vocês,
Não...Não tentem me encontrar
nem a esquerda,
nem a direita,
Não...Também não estou em cima do muro,
Enquanto vocês brigam aí embaixo,
Com minhas asas, encontrei o fio da Luz!!
Da Luz, irmãos!! Da luz!!
E daqui de cima,
Cago poesia na cabeça de vocês!

terça-feira, 15 de março de 2016

Enterrado Vivo no Tumulo de Tua Indiferença



Finge não ouvir minha voz,
Eu,prego, você, fria parede,
e numa atitude atroz
Tens água, mas neste deserto que é meu peito
preferes me matar de sede!

Meus mal acolhidos chamados
se perdem na tua ausência,
como murros desesperados
de um enterrado vivo, dentro do tumulo de tua indiferença!

Os minutos que se passam
sem o teu ansiado contato
são como vermes que rasgam
o tecido de meu brio putrefato!

Caem pedaços de mim,
a cada lamento perdido,
Caem nacos assim,
a cada recado não respondido!

Diz o que faço, mulher,
com este desejo que me queima as vísceras,
Diz! Faço o que quiser,
Mas não deixe-me afogar
no vômito de minhas súplicas!

domingo, 13 de março de 2016

Minha Sina


Seu sorriso cheio de luz
me enfeitiçou
como trabalho feito,

Meus joelhos, a teus pés, tombariam
E meus lábios, nos lábios de teu sexo
só assim, teriam algum alento!

Mulher!
Não me abandones nunca mais!
Desejar teu cheiro é vício,
É frenesi! Esta distância me tira a paz!

Vivi solitário,
desejei até
abdicar de tal desejo,
Mas esta é minha sina,
o instinto é mais intenso!

O ardor de estar em teus braços
é a mais forte das amarras,
Penetrar em teu regaço
é a mais perfeita de todas as taras!

Não é macumba!
Não é tarô!
Que me faz pensar em ti,
e que minha palma inunda,
Isto, mulher,
Isto se chama amor!

Á Forceps


Te arranquei
de dentro de mim,
à forceps,
Como um bebê
que não queria
deixar o conforto
de minha angustia,
esta colcha de retalhos
de expectativas e ilusões apodrecidas,
Te expulsei
como proprietário indignado
com um inquilino porco,
vomitando um discurso hipócrita
em meu piso escangalhado
e já sem nenhum taco de paciência,
Suas justificativas
são anzóis sem ponta
que já não pescam mais minha atenção!
Caminha com tuas próprias pernas!
Não faça mais das minhas
Muletas de tua cagação!

A Glória do Gole Gelado


O suor, como calda de chocolate salgada, pinga no balcão, enquanto espero. O Zé surge, iluminado não por uma luz celestial, mas pela lâmpada fraca, testemunha de minha batalha diária. Do outro lado, recebo um sorriso sem dentes, como se zombasse de minha espera.
Finalmente a garrafa gelada surge, a boca seca recebe o primeiro gole, levanto a cabeça e correspondo ao sorriso desdentado.
Só os bêbados compreendem a glória do do gole gelado no fim do dia.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Peças Perfeitas Que Não Se Encaixaram


Fomos peças perfeitas
que não se encaixaram,
Eu era a areia
Tão próxima de você, meu mar,
Ansiando pelo abraço
de uma onda que nunca veio,
Criaturas da mesma natureza
Acreditei em nossa comunhão,
Mas percebo agora, fui um sapo
esperando o beijo da borboleta,
Mas a lagarta recusou-se
sair do casulo,
Você estava careca de saber
que sairia de minha passividade
e entraria na porrada para te defender,
Minha estrela,
Nossa musica toca
e ela é o telescópio
com que enxergo teu brilho longínquo
com este olho
que deixa cair mais uma porra duma lágrima.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Acima do Abismo



Sou um zumbi
caminhando sem direção,
um indigente
que já há muito, não estende a mão,
Tiro o que há
de imundo em mim,
minhas entranhas
são a rede de esgoto
de uma alma angustiada,
Meu reto é o anjo caído
que batiza na água parada
o infecto dejeto de minha tristeza,
Sou o dinossauro
que esqueceu que deveria estar extinto,
olhando nos olhos da coruja
no azulejo do banheiro,
Há um abismo de desespero
entre mim e a folha branca,
Ouço uma voz dizer:
-- Pula! Pula! Pula!
Me jogo,
as palavras escritas
são pombas brancas e urubus sombrios,
cada bando agarrando-me de um lado,
Quanto tempo estarei acima do abismo?
-- Você está se masturbando pra mim?
Caio de meu devaneio
em queda livre, sob o rascunho do poema,
Do lado de fora do reservado
ouço novamente:
-- Você está se masturbando pra mim?
Outra voz, trêmula e fina, responde:
-- Imaginaaa! Eu só estava urinando!
A outra voz, máscula e cheia de ódio:
-- Polícia! Vai me acompanhar agora!!
Silêncio.
O que senti ao ouvir esta conversa?
Nada! Nada! Nada!
Não me acusem de mais nada
a não ser, fazer poesia!
Eu só estava de-fe-can-do!