segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Riso Que Abraça

 


Para onde levarão o poeta

os seus calejados pés?

Riso, reflexão, qual a estrada certa

Que tipo de caminhante, afinal tu és?


Quantas dores e mágoas esconde

por trás do riso fácil que nos brinda?

Quantas lágrimas derramou no ontem,

e quantos sorrisos nos darás, amanhã ainda?


Velho, ele diz que já está

conseguir cortar as unhas dos pés, já o deixa feliz

e assim, o amigo poeta se põe a caminhar

de tudo fazendo piada, como quem diz:


Quem ri melhor é quem ri por ultimo?

O dito popular todos nós sabemos,

Mas o melhor riso, não é o popular, mas o mais intimo,

que não nos ofende, mas nos abraça, assim é meu amigo Marcelo Lemos.



André Diaz


terça-feira, 21 de julho de 2026

Congelante Arrependimento Eterno

 


Desculpe, mas não posso te enganar

Fingir que o céu é todo azul,

que não há em sua face nuvens brancas a flutuar

assim como estrias e cicatrizes no corpo nu


Desculpe, queria muito poder te amar

Contigo fazer a volta perfeita no novelo da vida,

e deixar-me por ela, naturalmente tricotar

tendo um no outro, agasalho quente e sob medida


Ninguém conhece ninguém tão bem

nem sabe de fato, de que material o outro é feito,

e com as possibilidades, nosso desejo de entretém,

apertando um falso cachecol, de encontro ao ansioso peito


Mas nada de irreal

irá sustentar-se ao mais rigoroso inverno,

e o mais simples encontro de corpos, poderá ser fatal

Resultando em congelante arrependimento eterno



André Diaz

terça-feira, 14 de julho de 2026

Coração de Espinhos

 




No sombrio jardim de teu desprezo

tentei acessar como flor teu inacessível coração,

aquele ao qual dediquei descomunal apreço

Regando-o com minhas lágrimas em vão


Nele não pude encontrar abrigo

Ferido, me senti ainda mais sozinho,

Sei que manter-me fiel a este amor, não faz sentido

Perfurado profundamente por este coração de espinhos


Tentei repor no àlcool

todo o sangue e todo fluído que perdi

Mas cada vez sinto-me mais fraco,

Mas morrendo conciente, que chorei, mas muito mais gozei por ti


André Diaz


Foto: Paulo D'Auria



terça-feira, 7 de julho de 2026

Gol de Placa das Ilusões"



O verde maceta e o amarelo vibra

ao meu redor, mas não adianta,

A cor de minh'alma é cinza

e o escapismo futebolístico não me encanta


Não me encanta no sentido de fazer te esquecer

me encanta sim, o espetáculo de cores e corpos,

mas entre estes corpos, não está você

às vezes, penso que só te encontraria entre os mortos


Num desses túmulos baratos

que terminam como dormitórios de mendigos,

e em vez de meus beijos, estaria coberto de ratos

Será enfim, uma carcaça, e não mais o meu abrigo?


O que dói é esta incerteza,

Se você existe mesmo, agora, só nas recordações

que lubrifico com várias latas de cerveja,

Como um gol de placa das ilusões



André Diaz 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Chupado Até o Palito

 

O odor pungente 

de tuas calças e calçados

perdeu-se em meio ao redemoinho

de lembranças embaçadas,

como o vidro da janela

que limpei agora,

mas não há produto de limpeza

para as desilusões,

nem removedor

que apague este teu sorriso debochado,

Não consegui transpor

a guarita de teu coração,

Deixou-me estacado, sem acesso,

acumulando junto com os anos

todo este sujo ressentimento,

E agora, com o trapo esburacado da poesia

tento botar a limpo

este sentimento puro, mas maculado por tua covarde atitude,

de jogar ao chão de meu limpo coração

o papel lambuzado de meu amor, mordido e chupado até o palito


André Diaz

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Vastidão de Esquecimento

 


Você correu atrás de pertencimento,

como um ser sequioso de água no deserto,

Achando encontrar um oásis

no primeiro sorriso que te deram,

Mas, sempre uma miragem,

Os sorrisos eram sempre de pouco caso,

Quis se brutalizar,

Viu que a delicadeza

não sobreviveria ali,

Tentou se adaptar ao austero ambiente,

Uma flor desidratada

na aridez deste deserto,

tentando se passar por cacto,

Mas, a areia do tempo é impiedosa,

Te enterrará completamente,

Outras flores crescerão

num ciclo de vida e morte implacável,

E seus dramas, agora insuportáveis

não serão nada mais

que um grão,

nessa vastidão de esquecimento



André Diaz


terça-feira, 2 de junho de 2026

Entranhas Confidências

 

Deixa... Deixa eu boiar

O afogamento ainda não é para agora

Bater os braços até cansar

Fugir da tormenta lá fora


Encher os pulmões de úmidas reticências

e ter as "entranhas confidências" arrancadas

Ensopado, mas seco apenas de aparências

Partido em dois, como por um peixe espada


Pensamos muito em um vilão

que neste mar de duvidas, irá nos vitimar

Pensamos que será provavelmente a bocarra do tubarão

mas no fim, é só a pedra da inércia, nos puxando, amarrada em nosso calcanhar



André Diaz