segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Exceto Feriados

 

A ansiedade toma conta

de meus nervos, como teia de aranha,

e teu desdém é uma afronta

neste jogo maldito, onde ninguém ganha


Reservo horas preciosas

ao cultivo deste asqueroso menosprezo,

regando esta flor exótica e venenosa

que se torna mais exuberante, enquanto envelheço


Concorrendo mais um ano

nesta pútrida categoria,

de covarde a viver em eterno engano

e a mendigar afeto (exceto feriados) todo santo dia



André Diaz

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Mentira Virtuosa

 


Aos quinze anos

Clodovil já era Clodovil,

2026 já quase terminamos

e pouca autenticidade, novamente se viu


Um é o mais macho

a outra é a mais feliz,

neste mundo falso, que até hoje não me encaixo

te peço para tirar tua máscara, o que me diz?


Me exponha tua fraqueza

ou tua canalhice mais vergonhosa,

Defeque a viciosa verdade na bonita mesa

Ou viva e morra esta tua mentira virtuosa



André Diaz

Despir-se da Armadura

 

Não saberia dizer

Um frescor que quase não aguento,

de dentro para fora, como um florescer

Será a velhice, ou esta mudança de tempo?


Sem razão e cheio de sensibilidade

o eclodir dos poros a me dominar,

a desmanchar-me contra o concreto e sua brutalidade

O diferente tenta escapar


Já nasceu em fuga, esta criança

refugiando-se no canto mais escuro do recreio,

Sua espécie, já condenada e sem esperança

Anos se passam, sem saber onde vai e de onde veio


Viver o verdadeiro eu

Na rima pobre e na metáfora,

Despir-se da armadura, onde a criança se escondeu

Viver enfim, sua essência, não só da boca para fora



André Diaz

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Riso Que Abraça

 


Para onde levarão o poeta

os seus calejados pés?

Riso, reflexão, qual a estrada certa

Que tipo de caminhante, afinal tu és?


Quantas dores e mágoas esconde

por trás do riso fácil que nos brinda?

Quantas lágrimas derramou no ontem,

e quantos sorrisos nos darás, amanhã ainda?


Velho, ele diz que já está

conseguir cortar as unhas dos pés, já o deixa feliz

e assim, o amigo poeta se põe a caminhar

de tudo fazendo piada, como quem diz:


Quem ri melhor é quem ri por ultimo?

O dito popular todos nós sabemos,

Mas o melhor riso, não é o popular, mas o mais intimo,

que não nos ofende, mas nos abraça, assim é meu amigo Marcelo Lemos.



André Diaz


terça-feira, 21 de julho de 2026

Congelante Arrependimento Eterno

 


Desculpe, mas não posso te enganar

Fingir que o céu é todo azul,

que não há em sua face nuvens brancas a flutuar

assim como estrias e cicatrizes no corpo nu


Desculpe, queria muito poder te amar

Contigo fazer a volta perfeita no novelo da vida,

e deixar-me por ela, naturalmente tricotar

tendo um no outro, agasalho quente e sob medida


Ninguém conhece ninguém tão bem

nem sabe de fato, de que material o outro é feito,

e com as possibilidades, nosso desejo de entretém,

apertando um falso cachecol, de encontro ao ansioso peito


Mas nada de irreal

irá sustentar-se ao mais rigoroso inverno,

e o mais simples encontro de corpos, poderá ser fatal

Resultando em congelante arrependimento eterno



André Diaz

terça-feira, 14 de julho de 2026

Coração de Espinhos

 




No sombrio jardim de teu desprezo

tentei acessar como flor teu inacessível coração,

aquele ao qual dediquei descomunal apreço

Regando-o com minhas lágrimas em vão


Nele não pude encontrar abrigo

Ferido, me senti ainda mais sozinho,

Sei que manter-me fiel a este amor, não faz sentido

Perfurado profundamente por este coração de espinhos


Tentei repor no àlcool

todo o sangue e todo fluído que perdi

Mas cada vez sinto-me mais fraco,

Mas morrendo conciente, que chorei, mas muito mais gozei por ti


André Diaz


Foto: Paulo D'Auria



terça-feira, 7 de julho de 2026

Gol de Placa das Ilusões"



O verde maceta e o amarelo vibra

ao meu redor, mas não adianta,

A cor de minh'alma é cinza

e o escapismo futebolístico não me encanta


Não me encanta no sentido de fazer te esquecer

me encanta sim, o espetáculo de cores e corpos,

mas entre estes corpos, não está você

às vezes, penso que só te encontraria entre os mortos


Num desses túmulos baratos

que terminam como dormitórios de mendigos,

e em vez de meus beijos, estaria coberto de ratos

Será enfim, uma carcaça, e não mais o meu abrigo?


O que dói é esta incerteza,

Se você existe mesmo, agora, só nas recordações

que lubrifico com várias latas de cerveja,

Como um gol de placa das ilusões



André Diaz