quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Meu Coração é Um Cão Ao Relento

 


Apesar de lindo

embriago esta minha beleza solitária,

Mais um domingo findo

e a transmutação da melancolia em verso, se torna necessária


Como numa quase morte

vejo minha vida toda passar pelos olhos,

Penso se é karma ou falta de sorte,

se é dado à alma sensível, deparar-se perpetuamente, com abrolhos


Tento dar à vacilante caneta

direção a um final razoável,

Mas agora, já não tenho certeza

se minha poesia, não se tornou vítima de uma repetição intragável,


Um eterno lamento

sobre uma situação imutável,

Meu coração é um cão ao relento

bebendo àgua da sarjeta, como qualquer palavra que lhe soe amigável


André Diaz

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

O Apocalipse Flopado de Nostradamus

 

O tempo esfriou

e o meu coração também,

É como se importar com quem nunca se importou,

dar um abraço apertado em ninguém,


E alguém me cumprimenta

e aquele gesto me envolve como um sol,

que rebenta a tarde cinzenta,

e como luz nas trevas, faz-se farol


Décadas me separam desta pessoa

como se o destino quisesse zombar de mim,

e seu aceno gentil, em minh'alma ainda ressoa,

e a falta de esperança, só me faz desejar o fim


Nasci errado,

sem emitir um choro,

cresci solitário e mal falado,

e pelo apocalipse flopado de Nostradamus,

ainda imploro


Varrendo toda a vida

mas também todo o engano,

dando descanso a toda alma sofrida

padecendo sempre do mesmo destino, este tirano



André Diaz

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Do Putrefato ao Sublime

 

Estar em tua companhia

foi como um despertar da tumba gélida da monotonia,

que tomava conta de meu corpo,

como uma putrefação voraz e imparável,

Você veio como uma alma igual,

perdido e solitária como eu,

à procura do sentido do próximo passo,

Uma eterna indagação a bater no peito,

Já não foi triste o meu domingo,

Apesar de caminharmos quase em silêncio, 

vestidos de preto, num luto persistente

por um mundo dourado que já morreu,

revivido em nossos relatos nostálgicos

como um vínculo a nos envolver,

O qual, registro agora no papel,

Começando no putrefato,

e no sublime, tendo seu ponto final.



André Diaz

Como um Dente Cariado

 

Eu não pedi,

Foi o que você me disse

quando te entreguei

meu coração em bandeja de prata,

Quando te dei tudo

e esse tudo , embrulhado em desprezo

você me devolveu,

na medida exata,

Não anseio por um reencontro,

muito menos, suas desculpas,

Como um dente cariado

tua lembrança me dói

cada vez que tento passar a escova do esquecimento por cima,

Mas, teimoso,

volto a mastigar aqele velho e doce tempo,

cheio do açucar da ilusão,

e sorrio um sorriso triste, podre, banguela e cheio de saudade.


André Diaz

Uma Sinceridade que Vem das Vísceras

 

A estupidez do mundo me aflige

Os dias são como um transporte coletivo

rumo a destino algum,

Palavras pesadas nos são jogadas na cara como pedras,

estilhaçando a frágil divisória 

entre o civilizado e o selvagem,

Procuro não enlouquecer 

e revidar com igual iniquidade,

Coloco meu repúdio na caneta

e apunhalo ferozmente a página em branco,

oferecendo a vocês minha poesia

feita de sangue e lágrimas, pus

e acima de tudo

uma sinceridade que vem das vísceras

como um arroto natural

de uma criança durante a ceia de natal

prontamente presenteada com a acusação:

--- Seu porco!!


André Diaz