Carrego a terrivelmente ingrata
e deliciosa cruz, de ser eu mesmo,
espantando a todos, na hora exata
com minha singela e bestial nudez, pessoalmente ou em forma de texto
A poesia me mantém erguida
a cabeça, neste perpétuo calvário,
desafogo assim, na balsâmica escrita
minh'alma solitária, neste pedregoso itinerário
Cada verso salva-me
de cada expressão de desprezo,
e no final, isso basta-me
porque nas letras, enfim, te enalteço
Tu, que passastes por mim
usando meu corpo de capacho,
Fazendo-me gozar de uma agonia sem fim
maior que a folha em que escrevo, que para descrever já não há espaço
André Diaz
