terça-feira, 23 de setembro de 2025

Maior que a Folha em que Escrevo

 

Carrego a terrivelmente ingrata

e deliciosa cruz, de ser eu mesmo,

espantando a todos, na hora exata

com minha singela e bestial nudez, pessoalmente ou em forma de texto


A poesia me mantém erguida

a cabeça, neste perpétuo calvário,

desafogo assim, na balsâmica escrita

minh'alma solitária, neste pedregoso itinerário


Cada verso salva-me

de cada expressão de desprezo,

e no final, isso basta-me

porque nas letras, enfim, te enalteço


Tu, que passastes por mim

usando meu corpo de capacho,

Fazendo-me gozar de uma agonia sem fim

maior que a folha em que escrevo, que para descrever já não há espaço


André Diaz

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

O Amor é Uma Colisão Traseira

 

Ele te destrói

Quase como uma perda total,

Mas é mais essa maldita lembrança que mói

as velhas engrenagens, apenas dano material


Não. A carcaça não é nada

O coração é o motor que ainda te impulsiona,

apesar do encontro errado, numa curva errada

a direção vacilante, ainda funciona


O amor é uma colisão traseira

te fazendo arrastar teus destroços,

Mas o óleo derramado, de qualquer maneira

ainda lubrificará nesta corrida, os lúbricos sonhos nossos



André Diaz


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Suculentas Lamúrias

 

Preste atenção no que escrevo

são pedaços de mim, que arranco

deste tormento atroz e longevo,

temperado com o sal de meu pranto


Peço que esta boca ávida que me mastiga

não faça pouco da pouca satisfação do prato,

Peço que apenas abocanhe estas trêmulas tripas

enroladas nestes meus versos baratos


Que minha dor sirva ao menos

como um lanche rápido de final de tarde,

Mesmo que cortada em pedaços bem pequenos

na pimenta picante de minhas lamúrias de saudade


A qual te trará um doce ardido

ao teu exigente paladar,

saborear as suculentas lamúrias por escrito

deste poeta, eternamente à prantear...


André Diaz


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Serpente e o Fruto Proibido

 

Perdido vou pela trilha da solidão

Na procura infrutífera pelo paraíso,

Uma costela trincada, e dos rejeitados, sou Adão

ainda assim, percorro indeciso


Não a vejo se rastejar aos meus pés

misturada que está com à feia vegetação,

e continuo, mesmo sem destino e sem fé

numa perpétua mágoa e negação


Então ela levanta a rotunda cabeça

ao contato de minha vacilante sola,

Me olha nos olhos, fazendo com que eu estremeça

E numa obscena paródia, se solta para fora


Cravando-me profundamente as presas

Deixando-me deveras dolorido,

Percebo então, para minha surpresa

que não era peçonhenta, e ainda estou vivo


E vou embora me arrastando

ainda procurando direção e algum sentido,

e intimamente me interrogando

Alguns homens cruzam com a serpente, outros com o fruto proibido.



André Diaz






segunda-feira, 1 de setembro de 2025

No Mar do Desprezo

 

Sinceramente, te peço perdão

Eu sempre estrago tudo,

Como folha esvoaçante no furacão

rodopiei novamente a maldita língua no abismo profundo


Levando para bem longe

toda a sua sincera simpatia,

Quem dera, fosse,  em vez de poeta, monge

Vivendo, só de orações e vigília severa, noite e dia


Te ofereço o pungente poema

como flagelo, a me fustigar as costas,

Que tem o descontrole sensual, como tema

Cada verso é uma lapada, a arrancar-me as crostas


Feitas de lubricidade e solidão

levando-me a confundir os sentimentos,

Transformando amizade, real tábua de salvação

em mágoa, nojo e no mar do desprezo, afogamento.


André Diaz