segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Arte De Pedir Dinheiro Emprestado

   Aha! Pegadinha do malandro! Acharam que eu iria ensinar como pedir dinheiro emprestado, né? Não. Este texto se refere sobre a vez, em que encarei o fato de pedir dinheiro emprestado, como arte. Esse fato veio-me a lembrança, quando um sujeito veio me pedir dinheiro emprestado esta semana, para beber. Fiquei indignado! Mas, que coisa pobre! Não há "glamour" nenhum nisso!
   A unica vez em que pedi dinheiro emprestado, creio que já deva fazer uns dez anos. Tinha acabado de ler um dos livros de Henry Miller, e fiquei encantado com aquele sujeito, que acreditava no ato de escrever. Ele vivia para aquilo. Mas não ganhava nada, financeiramente falando, com seu talento. E tampouco tinha aptidão para o trabalho. Então, sobrevivia do dinheiro que pegava das mulheres com as quais tinha relações sexuais. Aparecia na hora das refeições, na casa dos amigos. E por fim, pedia dinheiro emprestado. Fiquei maravilhado com aquela existência "romântica". As aventuras sexuais eram bem tentadoras. Mas nada tinham a ver com minha realidade. Decidi então, fazer uma experiência artística. Pedir dinheiro emprestado, como li no livro de Miller. Na verdade, não estava precisando de dinheiro. Quer dizer, pobre sempre está precisando, só não era aquela situação "periquitante" de Miller.
   Queria pedir dinheiro, para sentir-me um pouco Miller. Sentir-me mais artista! Recorri ao quitandeiro ao lado do escritório, alguem com quem gostava de travar conversas filosóficas sobre sexo e outros mistérios da vida:
--- Você não pretende ter um filho, André?
--- Não. Eu não acredito nisso.
--- Não acredita que seja importante?
--- Acho o mundo um lugar horrivel para se viver, Marcos! Não desejo isso aqui, pra ninguem!
--- Mas é parte dos planos de Deus! Você deve deixar os seus genes! Continuar! Não acha?
--- Eu vou continuar, Marcos! Meu corpo vai virar comida pros vermes. O espirito continua! Um filho seria só a junção do meu esperma com um óvulo qualquer!
--- Ah! Você é espirita?
--- Eu acredito na existência infinita do espirito, Marcos! Não gosto de me rotular quanto a religião, essas coisas... Se for pra me definir... Sou poeta ou artista... Tenho uma "coisa católica" forte...Mas creio no espirito... Os espiritas põe filhos no mundo, pois crêem na sua evolução através da reencarnação...Creio nisso... Mas não me definiria exatamente como um desses espiritas... Porque a idéia de colocar alguem aqui, me causa repulsa... Mas, sim...Eu acredito nessas coisas...Mas não faria um filho, não... Quanto as pessoas como você...Que crêem nos "genes"... Fazem filhos puramente por egoísmo... Vaidade... Tem horror a idéia de fim absoluto após a morte... Ou de ficar sofrendo tormentos até um hipotético "juízo final"... E acham que vão continuar na terra através de um filho... Ignorando o quanto esse sujeitinho poderá sofrer neste inferno... Porque  o inferno é aqui, Marcão! O inferno exterior! E dentro de nós, o interior! Acho que, por não aceitar o exterior...Acabo criando um interior dentro de mim! (Santa redundância, Batman! Mas foi o que eu disse!)
--- Interessante seu ponto de vista!
    Marcos sorriu, colocando a mão sobre a boca banguela. Ele era bom para conversar, por não ser um fanático. Estava sempre aberto à opiniões diferentes da sua. Era como uma "esponja", a absorver idéias ao redor.
--- Você falou que se considera um artista. O que é arte pra você?
    Em vez de tentar responder, pensei em botar em prática a "experiência artística":
--- Marcão! Tenho que voltar ao trabalho! Discutimos isso depois! Poderia te pedir uma coisa?
--- Fala, André!
--- Será que você poderia me emprestar um dinheiro? No fim do mês eu te pago!
     Ele coçou a cabeça, mas se esgueirou atrás do balcão, e pegou algumas notas numa velha caixa de sapatos. Pensando talvez, que tal sacrifício rendesse uma boa discussão posterior, acerca da definição de arte.
    Eu já estava lhe respondendo o que era arte, para mim, através daquela ação. Mas o coitado não percebeu.
   Lembro que fiquei carregando aquele dinheiro no bolso, durante o mês inteiro. Eu pegava e examinava aquelas notas sujas e comuns, como qualquer outra, como se fossem objetos de arte abstrata. Tentando captar sua "lírica vibração." Curtindo aquela sensação gostosa, de ser como Henry Miller! Enquanto o pobre Marcos, que morava dentro da própria quitanda, passava um sufoco, com suas prateleiras vazias, numa escuridão tremenda, para economizar luz.
   Mas eu não tinha essa consciência, na época. Deslumbrado que estava, com meu "experimento artístico'! Me imaginava no Masp, exposto numa redoma de vidro, exibindo minhas "notas de dinheiro-pura arte" nas mãos! Desafiando a compreensão dos passantes:
--- O que há de arte nisso?
--- Ele pegou aquele dinheiro emprestado! Se trata de uma performance baseada na obra de Henry Miller!
--- Oh!
    E as pessoas, entendendo o significado da "obra", me aplaudiriam, e visualizava até, minha própria mãe, às lágrimas, orgulhosa de mim:
--- Aquele é meu menino!
    De repente, acordo de meu sonho, com a voz potente de meu patrão, me chamando:
--- André! Vem cá!
--- Pois não?
--- Quando você precisar de dinheiro adiantado, me peça! E não, para o quitandeiro! Ele veio aqui me cobrar!
--- Ah...Sim...Desculpe...
     E assim, acabou a minha experiência. O que era arte para mim? Acho que arte, é o que o artista diz que é arte. E não, o que o publico diz! Como no outro texto, em que falei do disco do Metallica com o Lou Reed. Aquele disco foi execrado...Porque é arte!
    Tomei uma bronca por pedir dinheiro emprestado. Mas, não fui compreendido. Aquilo era arte! Como meu amigo Junior, disse uma vez:
--- Se um cara se pendurar num poste...E dizer que é arte...É arte!
     Naquela época mesmo, comecei então, a carregar a toda parte, uma caixinha de fita K7, contendo vários pêlos pubicos. Ao mostrar às pessoas, invariavelmente a reação era essa:
--- Que merda é essa?
--- Isso é arte?
     Poisé! O artista que desafia as normas, que ousa, sempre vai se deparar com reações como essa. Mas. como sei que quem lê meus textos, tem a mente mais aberta. Menos suscetível a tais preconceitos. Desafio o caro leitor, a repetir minha primeira experiência mal sucedida, e convido-o para abrir, não apenas a cabeça, mas tambem a carteira, e fazer "arte" com este humilde poeta!
     Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí?

O Que Há De Puro

O vento
que bate nas flores
Açoite das circunstâncias
tentando quebrar a beleza,
Este vaso de porcelana
cujos cacos colados
palpitam em meu peito,
Este vaso que contem
todo o mel e todo veneno
que penetram-me os olhos,
Receptáculos do horror
que teimam, como imundo coador
recolher o que há de puro
de toda merda ao seu redor.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Rei Da Ralé

   Neste sábado, fui à um sarau diferente do que estou acostumado, o publico era formado por moradores de rua, e alguns deles tambem foram lá na frente, se apresentar.
   Fui pego de surpresa, não sabia que se tratava de um ambiente assim. Não consegui ir lá na frente. Senti-me intimidado com a algazarra e o cheiro de cachaça que impregnava o ar. Tinha um velhinho esbravejando que queria se apresentar, pois ele era "o melhor do mundo".
   Quando finalmente chegou sua vez, disse que iria cantar uma musica sua, registrada. E começou a tocar com dificuldade, o violão, e a cantar uma musica do Roberto Carlos.
   A emoção no seu rosto, me emocionou. Tá certo. Foi redundante o que acabei de dizer, mas foi isso, caraca! Simples! As vezes, as palavras são demais. Fiquei emocionado. Só isso. O homem espezinhado, ou pelo destino, se quiserem pensar assim, ou pelas circunstâncias. Fraquezas. Falta de oportunidades. Aquele ser esmagado se inflou. A substância espatifada tomou forma humana.
   Naquele momento, ele era grande. Ele era gente. Naquele momento, Roberto Carlos não tinha nenhum direito sobre aquela velha canção. O mendigo era o Rei! Os aplausos dos excluídos. Dos miseráveis. Dos invisiveis. E o rei tirou sua coroa e voltou a ser parte da pobre ralé. Seus lindos suditos.
   Porque naquele momento, naquele palco improvisado, eles eram lindos em sua imundície, seus hematomas, sua emporcalhada dignidade das ruas.
   Havia um travesti sentado a minha frente. Um rapaz com pés negros de sujeira, o beija de modo singelo. Chamando-o de princesa. E ele era, realmente, sua linda princesa, naquele momento. Uma doce menina, apesar da barba por fazer, e a tatuagem típica de presídio, nas costas.
   Não tenho mais palavras. Enrolei até demais. Pois foi tudo tão simples. Enquanto escrevo, "The Doors" toca no som, abrindo-me essas "portas da percepção". Vislumbro Jim Morrison, como um São Sebastião da sarjeta, com seringas e cacos de garrafa no lugar das flechas a dilacerar-lhe a carne, enquanto me diz: "This is the end...My only friend...The end..."

O Amor Do Mundo

Entre muros e paredões,
Entre murros e empurrões
Procurei o amor,
Descobri que ele não exite no mundo
Está dentro de mim,
Está dentro de meu âmago,s
Ah! Minh'alma é um pênis em estado de ereção!
E a seiva que brota de sua cabeça entumescida
são minhas lágrimas,
O amor do mundo é um chicote
E para gozá-lo
é preciso humildade
e uma boa dose de masoquismo.


André Diaz