Li a notícia de que os últimos telefones públicos, ou popularmente conhecidos como "orelhões", serão recolhidos das ruas. Outro dia, fiquei observando pessoas tirando "selfies" com seus modernos Iphones, junto a um desses jurássicos objetos, em uma galeria. Fazendo pose e rindo ao segurar o fone junto a boca, numa simulação grotesca, como se fossem os primatas do século XXI, em algazarra simiesca, manipulando algo aparentemente ridículo, na sua limitada compreensão de leitores de 280 caracteres (e olhe lá)!
Então, como se aquele orelhão fosse uma máquina do tempo, me vi transportado para as imundas e duvidosas ruas do centro de São Paulo. Praça da Republica, Rego Freitas e imediações. Parando de orelhão em orelhão, que se encontravam sempre cobertos de pequenos anúncios de acompanhantes, oferecendo do mais simples estímulo oral, até as mais mirabolantes fantasias de amor intenso, para o incauto e enfastiado cidadão, que ao reprimir seus desejos mais secretos e inconfessáveis, vivia, assim como eu, num estado de tensão exasperante. E às vezes, este cidadão que vos fala, tinha a sorte de encontrar um cartão telefônico esquecido no aparelho, por outro cidadão em estado possivelmente, de maior excitação. Assim, a voz do outro lado atendia, o acordo era feito e invariavelmente ao chegar ao determinado prédio, você deveria ligar novamente, para que a pessoa então, lhe passasse o numero do apartamento. Numa dessas, uma vez um sujeito estava parado na porta de um bar, ao lado do tal prédio, e ao ouvir o nome da pessoa que falei ao interfone, moveu-se rapidamente, e entrou comigo no prédio. O fiofó não passava nem wi-fi (até porque nessa época não existia ainda) e entramos no elevador. Esperei que ele apertasse o andar que iria, e constatei, com o cabelo arrepiado (nessa época ainda existia) que era o mesmo que eu iria, então apertei o botão do andar de baixo. Desembarquei e saí correndo desesperadamente as escadas, quase me esborrachando.
Voltei para o ar poluído, mas bem vindo da rua, botando os bofes para fora. Tirando esse periquitante episódio, foram inúmeras vezes que utilizei-me dos orelhões e seus anúncios, para desafogar minha solidão crônica e ser quem realmente sou, dentro da discrição das quatro paredes, no toque trêmulo e excitado no fone e numa ligação rápida e fugaz que nunca era o bastante.
André Diaz