terça-feira, 28 de abril de 2026

No Fim da Estrada

 

A tristeza no meu coração

faz coro com a miséria que vejo nas ruas,

Aqui dentro e a minha volta só desolação

Estado de espirito de mãos dadas com a realidade nua e crua


Esqueletos ambulantes passam por mim

Entorpecidos pela droga pesada que os enterra,

Vejo neles um esboço do nuclear fim

carma maldito dos senhores da guerra


Enriquecendo mais e mais

deixando um rastro de fome e desespero,

Maldade prevalecendo sobre a harmonia e a paz

E a desigualdade a golpear como um martelo


Não...Não posso fazer nada

A não ser, como poesia, registrar o meu lamento,

Mas vejo uma luz no fim da estrada

Um novo amanhecer, ou outro incêndio varrido pelo vento



André Diaz

terça-feira, 14 de abril de 2026

Como Drama Terminou

 Hoje visitei o velho lugar

que resiste, enquanto o mundo desaba ao redor,

parei e me pus a suspirar

em meio a aridez da saudade, tua lembrança a se destacar como uma flor


Uma flor imponente

que se mantém vívida, a beber de minhas lágrimas,

enquanto eu mesmo me resseco, impotente

diante das lembranças, que passam rápidas


Como a zombarem de mim

como você mesma, flor querida, zombou

A vida que passa diante dos olhos, antes do fim

como aquele filme de comédia, que como drama terminou



André Diaz

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Apesar de Toda Derrota e Infortunio

 


Você tenta prender entre os dentes

aqueles melhores momentos,

mas eles já não passam de pedaços frios

do cadáver de um frango no espeto da vida,

que caem no chão

e já não há nada mais a fazer,

só se agachar para catá-los

mostrando a bunda cabeluda,

Porque, apesar

de toda derrota e infortúnio,

você nunca se esquecerá 

que a senhora sua mãe, te deu educação...



André Diaz

sexta-feira, 27 de março de 2026

Propaganda de Margarina

 Vejo o amor ir embora

  como água límpida entre os dedos,

  Vejo como é cruel, o aqui e o agora

  Personificação dos piores medos


 Vejo ruir o meu porto seguro

 deixando toda a fragilidade exposta,

 perdido na neblina, brilhante e utópico futuro

 soterrado em perguntas, uma vacilante resposta


Sinto soltar-me o braço, meu maior apoio

e embaçar-se o sorriso encorajador,

Tento dormir e fingir que é só um sonho

mas desperto de meu embriagante torpor


E percebo que não há o que fazer

Do livro da vida, a ultima página, finitude,

E entre lágrimas, devo reconhecer

Um novo dia é propaganda de margarina, que só nos ilude...



André Diaz

segunda-feira, 16 de março de 2026

As Cinzas do Palhaço Triste

 


Procuro mais do que nunca

o ponto final dessa história,

feita de reticências em meio à várias fugas

e de espaços em branco, quando falha a memória


Sobrevivi ao corte seco da narrativa

empalado que fui, por mais um travessão,

e como vampiro sequioso, a tremer de forma aflitiva

esperançoso, aguardei a ultima batida do coração


Mas o terror mais uma vez se tornou

não mais do que uma comédia involuntária,

e mais uma vez, aqui estou

recolhendo as cinzas do palhaço triste, em sua tão sonhada urna funerária...



André Diaz

sexta-feira, 13 de março de 2026

Vem e Senta

 

Agradeço a cadeira 

que aguenta esse enorme peso,

desde o alvorecer até a saideira

Quilos e quilos de amargura, e isso não tem preço


Quando vira e mexe me ausento

a procura do que já perdi,

Volto e está lá o fiel assento

com pernas e postura imóvel, sem cogitar fugir


Nunca antes me apercebi

daquela, que calada me aguenta,

diferente da outra pessoa, que com a boca fez meu coração partir

E a cadeira, em silêncio, sempre me chamará: "Vem e senta"!



André Diaz

quinta-feira, 5 de março de 2026

Como Uma Migalha

 

Mais um domingo

que passou rápido e dolorido,

 como escorregar no piso molhado da cozinha,

Lugar onde tentamos saciar a fome,

Mas nem toda fome é de comida,

O coração, assim como o estômago,

ronca, por um abraço amigo,

Um sorriso,

ao ouvir nossas confidências mais tolas,

Voltar para o lar

com a sensação de cumplicidade,

Que não somos os únicos perdidos no labirinto

e cada minuto com essa pessoa amiga

é como uma migalha

para achar o caminho de volta para casa



André Diaz

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma Carinha Sorridente no Meu Joelho Inchado

 

Você me perguntou se estava tudo bem,

Tive muita vontade de abrir este velho coração,

Sem rima, sem métrica e sem censura,

só com o abridor de latas 

da saudade de outros tempos mais ensolarados,

e despejar todo conteúdo

no chão sujo de mais um dia igual,

Essa repetição incessante de existir por existir,

e dividir mais uma cerveja comigo mesmo,

Sinto até o dom da conversação enferrujado,

como um náufrago com a barba por fazer

nesse mar de concreto,

Mas diferente de Tom Hanks

sem uma bola pintada pra trocar uma ideia,

Peraí...Posso pegar uma faca de cozinha

e desenhar uma carinha sorridente no meu joelho inchado,

Espero que dê um bom amigo,

além de estalar como sucrilhos quando me agacho...



André Diaz

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ansiado Troféu

 

Observo a hora que corre

como uma atleta louca e obcecada,

e observo meu mundo que morre

e minha própria corrida, que não valera nada


Eu, sempre avesso que fui

a qualquer tipo de competição,

qualquer expectativa de ganho, agora rui,

e as pegadas do percurso, se apagam no chão


Enxergo o fim da linha

não com o alívio esperado,

Mas como se na garganta, fosse uma espinha

e o ansiado troféu, só morrer engasgado.




André Diaz

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Fiofó Não Passava Nem Wi-Fi

 Li a notícia de que os últimos telefones públicos, ou popularmente conhecidos como "orelhões", serão recolhidos das ruas. Outro dia, fiquei observando pessoas tirando "selfies" com seus modernos Iphones, junto a um desses jurássicos objetos, em uma galeria. Fazendo pose e rindo ao segurar o fone junto a boca, numa simulação grotesca, como se fossem os primatas do século XXI, em algazarra simiesca, manipulando algo aparentemente ridículo, na sua limitada compreensão de leitores de 280 caracteres (e olhe lá)!

Então, como se aquele orelhão fosse uma máquina do tempo, me vi transportado para as imundas e duvidosas ruas do centro de São Paulo. Praça da Republica, Rego Freitas e imediações. Parando de orelhão em orelhão, que se encontravam sempre cobertos de pequenos anúncios de acompanhantes, oferecendo do mais simples estímulo oral, até as mais mirabolantes fantasias de amor intenso, para o incauto e enfastiado cidadão, que ao reprimir seus desejos mais secretos e inconfessáveis, vivia, assim como eu, num estado de tensão exasperante. E às vezes, este cidadão que vos fala, tinha a sorte de encontrar um cartão telefônico esquecido no aparelho, por outro cidadão em estado possivelmente, de maior excitação. Assim, a voz do outro lado atendia, o acordo era feito e invariavelmente ao chegar ao determinado prédio, você deveria ligar novamente, para que a pessoa então, lhe passasse o numero do apartamento. Numa dessas, uma vez um sujeito estava parado na porta de um bar, ao lado do tal prédio, e ao ouvir o nome da pessoa que falei ao interfone, moveu-se rapidamente, e entrou comigo no prédio. O fiofó não passava nem wi-fi (até porque nessa época não existia ainda) e entramos no elevador. Esperei que ele apertasse o andar que iria, e constatei, com o cabelo arrepiado (nessa época ainda existia) que era o mesmo que eu iria, então apertei o botão do andar de baixo. Desembarquei e saí correndo desesperadamente as escadas, quase me esborrachando. 

Voltei para o ar poluído, mas bem vindo da rua, botando os bofes para fora. Tirando esse periquitante episódio, foram inúmeras vezes que utilizei-me dos orelhões e seus anúncios, para desafogar minha solidão crônica e ser quem realmente sou, dentro da discrição das quatro paredes, no toque trêmulo e excitado no fone e numa ligação rápida e fugaz que nunca era o bastante.





André Diaz

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Sob os Telhados da Lapa

 


Ele se despede de mais um dia

Desses, cinzentos, e sem graça alguma,

Procura ainda um vestígio de alegria,

Não há gatos no telhado, nem algazarra nenhuma


Só uma luz que se despede

esvaecendo-se na tela escura do céu,

A beleza que só tolo, ou o poeta, como nós, percebe

Então, Marcelo sorri, ao ser coberto pelo véu


Registra o fenômeno celeste

pela hoje, tão fugaz arte da fotografia,

e amanhã, mais um dia se repete

e se desfazerá, sob os telhados da Lapa, evocando nostalgia...





André Diaz


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Consumindo-me

 

Abro a janela do desejo

Deixo a luz do dia me abraçar,

Sinto então, invadir-me como um beijo

Por detrás, sinto a força deste olhar


A perscrutar cada centímetro

Invadindo cada dobra,

O sangue ferve, mas encontro-me lívido

Paranoico vestígio de perigo, que sempre sobra


Cobrindo com película odiosa

estes olhos que devoram minha petulante nudez,

Olhar de quem não admite, mas goza

consumindo-me com repudio, mas com extrema avidez.




André Diaz

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Cabeça no Aquário

 

Vi minha avoada cabeça exposta

num aquário, para a diversão 

de crianças apáticas, cuja única resposta

foi postar-me como meme, até a exaustão


Os peixes se alimentavam

de minhas órbitas sonhadoras,

a língua, coberta de limo, já não estalava

ao declamar poesia, paralisada estava agora


O grande homem vazio veio limpar o aquário

Derramando todo o conteúdo no esgoto,

Porcarias e uma cabeça, com sonhos vários

dos mais censuráveis, de adulto, até mais inocentes, de garoto...


E tudo, enfim, se perdeu

no grande mar do esquecimento,

e outro poeta solitário me sucedeu

e também teve sua cabeça exposta ao estupido escarnecimento...



André Diaz



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Pratos Assim, Como Você, Já não Fazem

 

Consumo minha solidão

a bebo e mastigo freneticamente,

como um alucinado glutão

Tendo imagens do passado em minha mente


Devoro-as, muito bem apimentadas

pelo desejo, que um dia, tanto ardeu,

Sugo até não restar mais nada

dos apetitosos lábios que rechearam o sorriso teu


Passo a lingua pelas tatuagens

que davam mais sabor a teus braços,

Pratos assim, como você, já não fazem

Mantendo-se aromáticos e quentes, no tempo e no espaço...



André Diaz

A Origem do Vilão

 

O mundo me cuspiu

e caçoou até não poder mais,

Aquela velha inocência sumiu

e na esperança, já não encontro minha paz


Carrego os bons sentimentos de menino

como restos de um fim de feira,

Recolho-os, pisoteados e não me animo

a reaproveitá-los, de qualquer maneira,


Mas ainda assim, fustigado como cão,

pelo chicote das circunstâncias,

Não! Não considero esta a origem do vilão

No fundo do veneno, ainda persiste um pequeno e puro fragmento da perdida infância...



André Diaz

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Apenas o Gosto da Saudade

 

O desejo e a carência

dão forma a esta faca de açougueiro,

a qual, em minha mão, vibra com indecência

e a cada emocionado golpe, me descontrolo e tremo inteiro


A carência é o engordurado cabo

na qual a palma suada se agarra,

O desejo é a afiada lâmina de aço

que corta laços, numa sangrenta e triste farra


Meu coração, sempre iludido, dispara

em  puro e frenético frenesi,

Mas, como sempre, no espelho, meu rosto com seu reflexo, se depara

e mais uma vez, me condeno a te ver partir


Mais uma, entre tantas e bem intencionadas pessoas

que me deram o privilégio de sua atenção e amizade,

Fatiei como bife, suas intenções que eram tão boas

sem saciar-me, deixando em meu paladar, apenas o gosto da saudade.




André Diaz