sábado, 23 de novembro de 2024

Com os Mesmos Pés

 

Surgiu em minha velha vida

uma menina, plena de juventude,

E já posso dizer que é uma querida,

Anjo gótico à livrar-me do ataúde


Somos irmãos de alma

rebeldes e párias da sociedade,

Lhe contar minhas velhas histórias, me acalma

Compartilhar os melhores momentos desta saudade


De um tempo mais livre

apesar da violência e hipocrisia,

Compartilhar com ela, oque fiz e onde estive,

e o prazer dela em ouvir-me, me dá alegria


Caminhamos o mesmo caminho

em diferentes épocas, mas com os mesmos pés

e estes, merecem reverência e todo carinho

beijados num verdadeiro ritual de fé


Pois somos os maiores desviados

e merecemos que os santos salivem em nossos pés,

De tua amizade, sou enfim, afortunado,

Das bichas velhas, sonhadores e poetas loucos, como eu,

Assim tu és!


André Diaz

Quando Te Chamo de Meu Bem

 

Quando te chamo de meu bem

é com todo carinho de meu ser,

e tudo de bom, que deste gesto advém

não há sarcasmo, só há prazer


Quando te chamo de meu bem

é uma honraria concedida à poucos,

na minha fala, nada de maledicente advém,

só a mágica loucura dos poetas loucos


Enfim, quando te chamo de meu bem

É apenas sobre este bem querer,

E a paz de espirito que disso sobrevém

É amor de amigo. Foi bom te conhecer.


André Diaz

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Orgasmo Feito de Dor

 

Sozinho

como um corpo boiando num lago,

envolto pela neblina das lembranças,

feita da invocação de meu assassinato passional,

tua indiferença como um gancho de açougueiro

a rasgar-me com fúria ao meio,

e cada vez que sussurro teu nome

é uma golfada quente de sangue,

como um orgasmo feito de dor

e paixão irracional


André Diaz

domingo, 3 de novembro de 2024

Fechado à Visitação

 

A chuva cai

sob a fúria silenciosa,

mas não consegue afogá-la,

Esse ranço de tudo que me cerca

se alimenta dela

e de tudo de bom

que por ventura

um dia, aqui floresceu,

Carrego no peito 

um jardim de mágoas,

enfim

fechado à visitação.


André Diaz

sábado, 2 de novembro de 2024

Cotidiano Enjôo

 

Descendo para comprar pão

no meio da calçada ali estava

um pássaro morto, estatelado no chão,

em meio às revoltas penas, só uma carcaça


Ninguém chora por esta ave

Nem repara na natureza toda à perecer,

Sua morte é mil vezes mais grave

que a de muitos humanos, devemos reconhecer


É a morte de nossos dias

Nós, insensíveis seres do asfalto,

mergulhados na ilusória era da tecnologia

Da qual o poeta, se sente tão farto


E desejoso, para que como o pássaro

fazer enfim, seu último vôo,

de um mundo tão frio e tão avaro

como um vômito às alturas, a partir deste cotidiano enjôo...


André Diaz



sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Parindo Poesia

 

Mais um fim de domingo

a cerveja gelada e o amendoim,

não preenchem o buraco que sinto

no peito, única herança que você deixou para mim


Só desaguam as palavras

porque as lágrimas já secaram,

feitas de saudade e mágoa, não as ingratas

que de sua boca, dispararam


E penetraram bem no fundo

e um coração devotado, rasgaram

e dessa ferida, surgiu um buraco fecundo

parindo poesia, de onde os amores do mundo sempre falharam.


André Diaz

Vestígios Físicos Dessa Saudade

 

É preciso me anestesiar

quando chegam os tristes finais de tarde,

o àlcool me abraça, a me embalar

enquanto sou machucado pelos vestígios físicos dessa saudade,


Uma rua, um caminho,

que me levam a nenhum lugar,

só à pungente sensação de estar sozinho,

onde antes costumava sempre te encontrar


Sinto meu corpo morrer,

mas não morre, de fato, esta certeza,

de que teria prontamente morrido por você,

com grito, choro, baba e sem o menor pingo de sutileza.


André Diaz

Marionete de Uma Paixão Impossível

 

O som da chuva tenta

mas não consegue calar

esses pensamentos 

que gritam teu nome,

evocando momentos

de uma cumplicidade

que hoje, penso,

só existiu em minha fértil imaginação,

A chuva aperta

e golpeia o telhado rachado da lembrança,

e os pensamentos gritam mais alto

pois não querem ser calados,

porque porque eles mantém seu corpo em pé,

cada grito é um dedo a mover

uma corda de recordação,

que move cada membro deste corpo cansado,

Marionete de uma paixão impossível,

Me perguntam porque sou tão calado,

É porque não podem ouvir os gritos

formando incessantemente as letras do teu nome.


André Diaz