terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sopro na Vela



Eu tenho um fogo
aqui dentro,
A fagulha sempre
esteve lá no fundo,
Agora está queimando
a palha de minha inércia,
Quero espalhar o fogo
antes que tudo termine em cinzas,
Entre no fogo
Deixe o fogo entrar,
A vida nunca passou disso
Um sopro na vela,
Só muda a intensidade
e a intenção.

Vire Bicho



Odeio você
que anda nos trilhos,
e de sua janelinha
aponta o dedo pra mim,
Sim, eu sou o animal,
o quadrupede que corre pela mata,
o que é vital pra mim
encontro pelas margens,
encontro satisfação
revirando aquilo que é lixo pra você,
Isto não é um poema,
é meu desafio,
deixe a segurança de sua cabine
tire suas roupas e convicções herdadas
de uma geração mais hipócrita e equivocada
se junte a mim,
fique de quatro
e vire bicho!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Haikai Chuva



Chuva e sol
Olhos marejados
Nossa musica toca e ilumina tudo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Vida!!! Por Favor!!! (Ou Chorando o Leite Derramado)



Me apoio no ponto de ônibus, mais para não cair de sono do que para esperar o dito busão. Mas que eu tinha que pegar o ônibus, eu tinha. Ir de uma fuga para outra, na trajetória desta tragédia cotidiana, chamada vida, que não leva a lugar algum. No puteiro do outro lado da rua, toca 'Pablo' no volume máximo, fazendo a minha espera mais dolorida ainda, como se eu fosse uma câimbra no nervo da coxa cabeluda da vida. Sou despertado pelo roçar de pezinhos contra pedrinhas e a mãe ralhando com a criança:
---Lorraneee!! Por favooor!!!
Daí me dou conta que viver em sociedade é isso. É. A sociedade são os pés da vida remexendo nas pedras de seus sonhos,onde você está enterrado até o pescoço, ela raspa os pés até espalhar a porra dos seus sonhos pra longe.
Aquele dia acordei de um lindo sonho. Ao me ver privado do mundo da fantasia e tendo de encarar mais um cinzento dia de realidade, percebi o que eram de fato os sonhos: Colchas de retalhos coloridos sobre a sepultura nossa de cada dia.
Examino a picada do pernilongo que não vi em meu braço, e á assim que defino o sentimento daquela manhã. Sonhei com ela. Mas vocês sabem como é a paixão: É como apagar fogo com gasolina.
E mesmo quando amadurecemos, a saudade não muda, é como ter 5 anos de idade, é tudo belo e as preocupações são do tipo ter emprestado o brinquedo e o coleguinha não devolveu mais.
Mas minha história se passa alguns anos após os idílicos 5 anos. Talvez tivesse 10 ou 11 anos, aquela idade em que nossos pais acham que já não somos tão imbecis e já podemos ir fazer compras pra eles.. No caso, era pra comprar um saquinho de leite, o qual acabei deixando cair no trajeto de volta.
--- É um leite só pra cada um!
---Mas...Mas eu deixei cair...
-- Já falei que é um leite só pra cada um!
Fiquei olhando aquele chale negro no pescoço da portuguesa, imaginando que poderia ser a corda de uma forca. Infelizmente não era. Chegando em casa, tomei uma bronca. Abaixo do puteiro, observo que também há uma padaria, e fico pensando que aquele chale negro, uma bela corda de forca daria... Meus devaneios são interrompidos pelo meu ônibus que passa rasgando e que não pára ante meu resfolegante agitar de braços.
--- Vida!!! Por favooor!!!!!!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015

O Bolo Que Não Queria Ser Comido



Era uma vez um bolo, que como todo bolo, fora criado para ser comido. Mas o bolo em questão, sempre negara sua vocação.
--- Não! Me nego a ser comido! Sou um bolo só de enfeite!
E passavam-se as festas, as crianças babavam ao ver o bolo. Diziam que ele era muito gostoso, e que parasse de 'fazer doce', e deixa-se ser comido. Mas o bolo repetia:
--- Sou um bolo de enfeite! Não posso ser comido!
Mas um dia, um gordinho muito guloso e safado, chegou por trás do bolo e lhe deu uma baita mordida:
--- Aaaiiii!!! Não! Não me coma!! Eu sou um bolo de enfeite!
--- Hmmmmm...Se é de enfeite, é um enfeite saborooosooo....
Respondeu o gorducho, lambendo os dedos.
E assim, terminou o nosso bolo, sobrando só uma migalha para contar a história:
--- Amiguinhos! Não devemos negar o que somos! Se temos uma vocação, temos que assumir e dar o verdadeiro sentido à nossa existência! E agora, sou uma migalha. Mas, uma migalha feliz! Pois sempre fui um bolo, que se dizia de enfeite...Mas, como todo bolo, fui criado para ser comido...E fui muito bem comido, como deveria ser!
E a migalha viveu, não feliz para sempre, pois a mãe do gordinho, ao sacudir a toalha, deixou a migalha cair no chão, e assim, acabou sendo comida pelo Totó.

FIM

Bolo de Casamento



Sou um leão
careca e covarde,
minha juba fajuta é feita de poesia,
misturo emoções feito batedeira,
Queria mesmo era encontrar
comigo mesmo, quando era criança,
e dizer para o 'eu mesmo mirim':
---Não queira ser leão, quando crescer,
pois teu coração é como bolo de casamento,
criado para alimentar a todos
com o doce de teus sentimentos!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Borboleta e a Rocha



A taça de vinho de minha juventude
jaz despedaçada aos meus pés,
meus sapatos empapados num doce
que já não pode mais ser sorvido,
e não há nenhum cristo
que o lamba de minhas solas
dando-me uma falsa sensação de superioridade,
não há mais o moleque
mostrando o dedo para o ônibus cheio,
cheio de gente de meia idade e saco cheio
olhando praquele imbecil mostrando o dedo,
Sou um carro pegando fogo no deserto,
um carro que já correu muito,
derrapou em curvas perigosas
e continuou sua corrida maluca rumo ao deserto,
não há espectadores,
ninguém se interessa pelas chamas que me consomem,
estão todos correndo rumo ao seu próprio deserto,
o fogo queima o que resta do combustível
e o deserto é o destino dos desejos obsoletos,
O encontro da expectativa com a realidade
sempre será como o pouso da borboleta sob a grande rocha.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Aceno Perdido



Te joguei um aceno,
você não pegou,
Deixou-o ir embora
Um pássaro tonto
sem destino
Foi afagar as nuvens
mas caiu morto
na terra da decepção,
Pois elas eram
tão palpáveis
quanto a atenção
que você me dispensou.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Eu Sou o Bode Que Cruzou o Teu Caminho



Eu sou o bode,
Para muitos, encarnação do 'coisa ruim'
Mas vê se pode
Sou feio, mas nem tanto assim

Eu sou o bode
que cruzou o teu caminho,
Se quiser, foge,
que sigo o meu, sozinho

Cabisbaixo e chifrudo
me alimentando de qualquer capim,
Pareço indiferente, mas, no fundo
me magoo, com o que pensam de mim

Afinal, o que de fato, eu mais queria
era botar de molho, esta velha barba,
Não tenha medo, mas também não ria
Para abrir a porta de meu coração, só mesmo com um belo pezinho de cabra!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Pra Não Dizer Que Não Falei de Dodô e Osmar (Ou pelo Direito de Pegar na Caca)



"Matamos o tempo, o tempo nos enterra". Pra você ver a situação, abro o texto com uma frase que não é minha, mas do Machadão, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Ontem, deitei rezando a São Rivotril, por inspiração, para escrever alguma coisa, pois ficar muito tempo sem escrever é algo triste, meus amigos. É como uma função fisiológica. É preciso botar todo o dejeto sentimental pra fora, se não, fica-se doente, e a inspiração é o purgante que a gente toma, e é preciso ter o celular ou papel na mão, porque podemos nos cagar todos, se de repente, o efeito se der no meio da rua.
Porque citei "Brás Cubas", mesmo?? Ah, sim! O tempo...O tempo é um rolo compressor de acontecimentos, que passa por cima de nossos dias, transformando-os em pastéis de carne crua, mas se deixamos passar muito (tempo?dããã...)para digerir os dito cujos, a azia é certa.
E a azia está me queimando essa noite. Vocês me entendem? Ou será que estou sendo claro, como um fanho ao microfone? Ás vezes, penso que ainda há muito material aqui dentro, só que não sei como oferecê-la ao mundo. Se o regurgito, como vômito, ou se o cago. Lendo um livro de psicanálise, me parece que talvez, ainda esteja estacionado na 'fase anal'.Mas a gente, que tem facilidade em revolver a merda, é complicado, se de repente, queremos oferecê-la ao mundo, como um buquê de rosas. As pessoas não entendem que aquela coisa nojenta é o nosso íntimo mais sincero. Sem retoques.Ao escolher um texto para uma antologia, meu amigo Paulo achou que era melhor não usar o poema "Cocô Seco", mas se o livro se destina às escolas, quem melhor que os jovens, para compreender a escatologia? Não estarão eles, mais próximos a fase anal, que este quarentão que vos fala?
Então...Acho que ainda há muita merda aqui dentro, a lhes oferecer...Mas, existe essa maldita falha de comunicação...Ás vezes, me parece que eu e o mundo somos dois surdo mudos manetas, que não conseguem chegar a acordo nenhum.
Dia desses, observei uma criança acompanhada da avó, se agachar pra pegar algo no chão, no que a velhinha bate em sua mão e diz:
--- Não pega! É caca!
Eu me vi no rosto choroso daquele menino. Vi que talvez, ele se agarrará com unhas e dentes, à fase anal, e será assim como eu, um lutador pelo direito de pegar na caca.
E pra não dizer que não falei em Dodô e Osmar,finalmente consegui dormir. Me vi sendo empurrado numa muvuca infernal. Isso...Entendi... Orei pra São Rivotril, mas Ele não me ouviu...Não era o "In.Fer.No" de Paulo D'Auria, era mais terrível! Era Salvador em seu eterno carnaval, mais quente que uma fornalha. Pessoas alucinadas pulavam atrás do trio elétrico.Eu tentava sair fora, mas mais gente aparecia e eu não via escapatória. No alto do trio elétrico de Dodô e Osmar, vi Caetano com chifres, rindo de mim:
--- Atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu!
Entrei em desespero. Para não ir atrás do maldito trio elétrico, só vi uma solução. Saquei uma folha de papel do bolso e uma caneta. Escrevi o poema "Cocô Seco" e o espetei em minha barriga, com a caneta. Comecei a apodrecer, e meu cadáver se abriu, como uma flor malcheirosa. Minhas vísceras se espalharam, fazendo os foliões infernais ao meu redor escorregarem e quebrarem os crânios no chão, como cocos (não cocôs). Meus braços ainda se moviam e ofereceram a Caetano, a merda borbulhante que saía de meu íntimo. Caetano gritou. Disse que não aguentava aquilo. Que admirava Glauco Mattoso, mas que minha merda não tinha estética, métrica, nem porra nenhuma, ou não. Mandou-me a puta que pariu e partiu com o trio elétrico, com Dodô e Osmar ao seu lado, balançando a cabeça tristemente.
Acordei com dor de barriga. E estou escrevendo este texto, no vaso. E lhes ofereço essa caca. E peço que aceitem, com a condescendência de um adulto, que ainda tem vívida em suas entranhas, uma época de maior aproximação com os fluídos ditos impuros, mas que são nossa verdadeira essência.
Peço que a aceitem. Pelo menos, na minha frente. Depois, podem lavar as mãos. Afinal, num mundo tão mascarado, em que a vida insípida e virtual se tornou como luvas de látex, com a qual podemos lidar com a merda da realidade, onde há mais importância 'likes' e milhões de amigos de mentirinha, é preciso se livrar de verdades tão sinceramente sujas. Pode ser contagioso.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Rapidinha Número 03



Amor não correspondido:

Pare de chupar esse caco de vidro
como se fosse bala de framboesa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Você



Você pode cair toda
como água gelada no meu colchão,
perturbar os meus sonhos
prender minha respiração

Pode acabar com minhas forças
debilitar-me como a gripe,
Mas minhas asas já estão soltas
Minha cabeça está em riste

Pode ainda me procurar
como fera, pelo faro,
Mas pouco a pouco irei te escarrar
Pois para mim, você é catarro

O meu seboso lenço
é o papel onde escrevo
este desprezo intenso
do qual, não sararei tão cedo

Que seja feita de poesia
cada assoada de você, que dou
E quem sabe num distante dia
veremos, se a meleca de alguma mágoa restou.

Ritual do Acasalamento Funebre



Ele acendeu o cigarro dela,
Ela acendeu o cigarro dele,
Um só sentimento (cancerígeno)
Um só coração (infartado)
Ela se foi primeiro,
Ele, lambe agora
um cinzeiro, toda noite,
na falta dos beijos da mulher amada.

Rapidinha - 02



Pegaria tuas partes pudendas,
se me permitisse.

Rapidinha 01



A poesia é a luz que acendi
no começo do túnel.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Poesia é Besteira



Ás vezes me canso
de tão humano que sou,
de sentir tão intensamente
Gostaria de passar
meus últimos anos que restam
mais indiferente a tudo,
Ser mais 'de exatas'
e menos 'de humanas',
As pessoas mais bem sucedidas a meu ver
são o contrário de gente como eu,
E quer saber duma coisa?
POESIA É BESTEIRA!!!!!!!!!!!!!!!
POESIA É BESTEIRA!!!!!!!!!!!!!!!
Ai...Como eu sou besta!


André Diaz

Uma Palavra



O peregrino viajou dias sem fim
Atrás da iluminação do Grande Mestre,
Quando já sentia as forças esgotadas
Eis que avista o ancião no alto do monte:
"Mestre! Vim de muito longe atrás de uma palavra tua! Imploro por uma palavra, uma palavra apenas"!
Então, o Mestre, em toda sua sapiência se inclina para o visitante:

"ITAQUAQUECETUBA"!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Infernos Imaginários?-Resenha de "In.Fer.N.O." de Paulo D'Auria e "Imaginários Impróprios"-de Makenzo Kobayashi



"Puxa-saquismo" com os amigos? Não. Não sou de puxar o saco. Mas também não espezinho ninguém. Se a obra de um amigo não me agrada, simplesmente não lhe digo nada. O lance é o estímulo. Escrevo quando algo me faz 'sentir'. E os dois livros de que falo, foram os que me fizeram 'sentir' mais intensamente nos últimos tempos.
Livros que, por coincidência são de amigos. As duas leituras mexeram bastante comigo, e olha que sou um leitor voraz, verdadeiro rato de sebo, que devora uma obra atrás da outra, como deliciosos queijos. Li primeiro "In.Fer.N.O.", de Paulo D'auria, que chamou-me a atenção por pegar emprestado o conceito de "O Inferno de Dante" e transportá-lo para a realidade brasileira, o que resultou numa obra de horror que não deve nada à um Stephen King, autor que evoca o medo de dentro dos cenários mais realistas. Mas a diferença é que D'Auria não é autor 'pop star', e escreve com o intuito de mudar o mundo. "Verdade seja dita: a sociedade, aliviada com o paulatino resfriamento das rebeliões, estava feliz assim. Melhor não cutucar esse vespeiro"... Paulo sabe que é assim. Paulo, que não é 'Coelho', um produto bonitinho com rabinho de algodão, sabe que se deve cutucar o vespeiro, chamar pra briga. Folclore e espiritualismo são as cores que cobrem o tétrico cenário da realidade brasileira. O negócio não é bonito. É um chute no estômago. Vai mudar o mundo? Talvez não. Mas nosso Paulo, que não é 'Coelho', sabe que temos que lutar pra mudar a situação, pois a felicidade não está comodamente instalada no nosso quintal. Só se for o quintal dos monstros descritos em seu "In.Fer.N.O".
Agora, vamos de Makenzo Kobayashi. Diferente do livro de D'Auria, "Imaginários Impróprios" não me trouxe aquela sensação de incômodo, mas sim, em uma página, me via sorrindo, divertido, e em outras, me via excitado, com uma ereção, coisa que as velhas e manjadas revistas eróticas já não conseguem com o mesmo êxito. Eu entendi 'o tarado'. 'O sujo'. O imoral'. E só os hipócritas se dirão enojados ao ler as linhas libidinosas de Makenzo, que como Mattoso, mete a língua portuguesa na sujeira, com gosto. Sade nunca foi diferente de ninguém, apenas exteriorizava o que a falsa moral, a religião e os bons costumes atacavam. Ou seja, todos são e podem ser 'putos', mas desde que façam suas 'putarias' às escondidas. Como Sade, Makenzo Kobayashi é 'pecador assumido'. E só quem tem orgulho de admitir as suas baixezas (na verdade, asas, na concepção libertária do pensamento Kobayashista) pode admitir a beleza de versos tais: "não quero saber de lavar a minha cabeça/porque amo completamente a minha sujeira".
"Repetitivo! Cru! Simplório!" Dirão seus detratores. Pois digo, que aí está a delícia de se sorver a poesia 'Kobayashista'. Simples. Direto e repetitivo como o 'vai e vem' numa boa foda. Se fosse compatriota e contemporâneo de Bukowski, Kobayashi também seria ovacionado. Chamado a declamar nas universidades sua obscena ânsia por liberdade do indivíduo, tanto sexual como intelectual e o escambau! Lhe pagariam, além do cachê, vinho e cerveja e mulheres velhas e novas viriam dar para o poeta, que como um santo às avessas, não diz nada mais, que a 'puta' verdade. Pois como diz em "Verbo Dar":"Eles dão/Elas dão/Vocês dão/Eu Como".
É como o bom sexo deve ser, são sempre os mesmos buracos a serem penetrados. A coisa é simples demais. A boca que sorve o suco do outro. O pipi que entra no popó alheio, ou vice-versa. Quem complica, é avesso à natureza. E é pela natureza que estamos aqui, mais uma vez citando o 'divino marquês'. Independente de uma crença num poder superior. Se não fosse pela corrida alucinada da porra ao útero, nenhum de nós estaria aqui. E viva a putaria! A putaria é vida! E mesmo que os incautos espermatozoides venham a morrer na palma da mão, ou em 'buracos não procriativos', como o poeta descreve em 'Poema Anal', que nos remete ao clássico maldito de Verlaine e Rimbaud: "Soneto do Olho do Cu", mesmo assim, é a chamada da natureza que não deve ser ignorada, pois a punheta alivia o solitário, e o cu, em toda sua sensibilidade, porque estar destinado à um eterno 'encagalhamento'?
Não falei antes, que "In.Fer.N.O." é prosa, e que "Imaginários Impróprios" é poesia? Ora! Paulo D'Auria nos brinda com passagens poéticas, ao descrever seu cenário de horror. É belo? Não. E para quem pensa ainda que a poesia deve ser bela e inspiradora de bons sentimentos...Sinto muito, ela pode ser dura, feia, mas sim, pode penetrar fundo "no útero da libertação". Vocês podem odiar Paulo D'Auria e Makenzo Kobayashi. Mas, apenas porque eles 'cutucam o vespeiro', podem virar o rosto e acharem que são lunáticos vivendo em "Infernos Imaginários". Mas eles são o caminho, a verdade e a vida. E ninguém que queira chegar a felicidade, o conseguirá, como um "Coelho" sentado em cima de seu rabo de pom-pom, se masturbando, longe dos olhares alheios, com videos grotescos da internet, na segurança e tranquilidade de seu quintal, com muros altos, arame farpado e câmera de vigilância, voltar pra cama, rezar, e meter o pau nos outros no dia seguinte. Hipocritamente, e não prazerosamente como Kobayashi.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Foda-se



Esta semana, me deparei com uma foto da apresentadora Gigi e o palhaço Tic Tac, de um antigo programa infantil chamado 'Bambalalão', o que me trouxe algumas memórias, não das mais agradáveis, mas estimulou-me a escrever, botando as mágoas pra fora, já que me encontro a bom tempo, sem receita de rivotril.
O programa contava com a participação de uma platéia formada de pirralhos de algum colégio.Chegou então, o grande dia da excursão da minha escola. Lembro que fui bem a contragosto, nunca fui um ser sociável, e via naquele passeio, ocasião ideal para ser alvo do costumeiro 'bullying'(que nem tinha esse nome na época, era algo completamente despercebido e só a vítima sabia bem o tormento que era) não só de colegas de classe, mas de qualquer desconhecido 'espirito de porco'de outra classe.
Muito bem, sempre querendo ficar por último e passar despercebido, quando chegou minha vez de entrar no ônibus, a 'tia' me indicou o único lugar vazio, que era ao lado de um gordo com cara dos mais escrotos, ou seja, não era só 'espirito de porco', era um porco completo, que disse pra eu não sentar do lado dele, se não iria me bater. E lá foi Andrézinho, de pé, odiando ainda mais aquele 'programa de indio', que já não o apetecia desde o início. O programa (não o de indio, mas o Bambalalão) começou, e ao ver de perto a Gigi, que achava muito bonita, me senti mais confortado. Mas, outro problema, foi também ver de perto o Tic Tac. Sempre tive certa fobia de palhaço, não aquela mais forte, que faz a pessoa entrar em pânico, mas sempre fiquei desconfortável com este ser, que embora tivesse a cara colorida, era um homem enorme, com cabelos despontando do peito e das pernas. Ou seja, não era uma criatura de fantasia, como um desenho, mas sim, um adulto, alguém avesso a fantasia e que poderia te punir, te dar ordens, mas escondido atrás da palhaçada, como uma besta raivosa, atrás de uma roseira, se é que me entendem.
E Tic Tac passou correndo perto de mim, com aqueles sapatos enormes e pernas cabeludas "Plac!!Plac!!Plac!!" e uma jarra cheia de leite pingando. Não, meus amigos. Não foi uma sensação agradável. E, ao fim do programa, a criançada subia uma escada para ir deslizar num escorregador. Chegou minha vez, eu não quis escorregar. Mas, de que adiantava falar que não queria? Tinha um brutamontes lá atrás, que me puxou e empurrou:
--- Vai escorregar, moleque!!
Depois, ao pegar nossos lanches, meu doce se perdeu em meio a selvageria das 'criancinhas-futuro-da-nação', ou foi pisoteado ou roubado, só sei que foi mais um prego no caixão daquele dia tenebroso.
Mais tarde, de volta aos braços de minha mamãezinha querida, menti, dizendo que foi 'legal'.
Mas não. Não, meus amigos. Foi horrível. Foi como o adulto cabeludo, atrás do nariz de palhaço. Naquele dia, descobri que o horror residia por trás da fantasia. Fui perdendo a inocência, enfim. Como a orelha decepada, que se ocultava na grama iluminada pelo sol, no filme "Veludo Azul". E eu mesmo me transformei. O mundo foi me moldando, com mãos sinistras foi embrutecendo essa alma cândida, que já conheceu dias melhores, e que aprendeu a exorcizar seus demônios através das cores da arte. E, vejam só, a ironia! Até já bolei uma performance caracterizado de palhaço!
--- Andrézãooo!! Gosto de você porque você é alegre! Você é um cômico!
Disse o seu José, um velhinho que eventualmente acompanha as apresentações do meu grupo 'Poetas do Tietê', coisa que me desgostou profundamente:
--- Não...Seu José...Eu não sou alegre...Muito pelo contrário...Eu sou triste....Eu tenho muita raiva!
Ele não entendeu. Minha aparente 'graça' esconde muita dor e ódio. Se eu fosse um cara de 'exatas' e não de 'humanas', ou seja, se não tivesse o menor dom artístico, acho que já teria atentado contra minha vida, ou a de alguém. Se você cruzar comigo, e eu estiver agindo como um bobo alegre, não se engane, na verdade é um ataque de angustia. Daquele tipo que a gente não sabe pra onde ir. Estava vendo um filme com minha mãe, em que uma mulher acaba de ser estuprada, depois de gritos de desespero, a mulher começa a rir. Minha mãe diz: 'Qual a graça?"
Digo que ela está em choque. É bem por aí. O mundo bota na sua bunda e, ou você reage com a mesma brutalidade ou dá uma de louco, ou de 'cômico', como diria o seu Jose´. É rir pra não chorar. E este texto é meu 'foda-se', depois de tantos anos, ao 'porco' do ônibus de excursão, e ao 'gorila' que me empurrou no escorregador. Minha caneta é a arma com que estouro seus miolos.
Pode rir da minha 'graça', caro leitor. E da minha cara pintada e meu nariz vermelho. Mas tome cuidado. Não me dê as costas. Posso, de repente, trocar 'humanas' por 'exatas'.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Budismo?



É Bem Melhor Assim



--- As mulher de hoje não presta! Vi o compadre todo triste e cheio de pinga no bar... Mas compadre... Vai dar essa satisfação pra vagabunda? Ela vai te ver nessa situação por causa dela? Ah! Mas foi Jesus que me mandou falar com o compadre! Ai...Jesus! Como você é lindo!
A velha olha embevecida para o céu através da janela embaçada do ônibus, como uma apaixonada não declarada, espiando o homem amado da esquina. Eu apenas ouço, também agradeço a Jesus ou apenas à coincidência de me fazer trombar com essa velha, depois de reclamar comigo mesmo por querer escrever, mas não ter a porra de ideia nenhuma. O rostinho chupado como uva passa de repente perde aquela luz que só as beatas senis apresentam e se converte numa carranca raivosa:
--- Aquela filha da puta! Fez macumba pro meu filhinho!! Meu filhinho que fazia a escola dominical...Ia acabar sendo pastor... Mas aquela baiana tinha que aparecer... Por que homem é bom... Homem é bom!! A mulher engana e o homem ainda gosta dela?! É macumba!! É macumba!! No meu tempo não se andava com as coxas de fora!E nem de calça comprida!! Hoje... Elas andam mostrando tudo!! E andam na frente, com cigarro na boca e o coitado do homem vem atrás, segurando as crianças!! No meu tempo, mulher não mandava em homem!! Meu filho tinha medo de falar comigo na frente dela...Não... Mas agora ele me chamou de canto e ela ficou lá, toda arreganhada em cima da cama com cara de cachorro bravo... Desgraçada!! Mulher boa foi minha mãezinha...Tinha uma máquina Singer..Assim..Desse tamainho...A gente morava na fazenda... Ela passava o dia todo costurando... As roupas dos filhos... De papai e dos empregados... Tava sempre asseada pra quando papai chegava... Nunca vi mamãe brigar com papai... Ai, mãezinha...Teve dezessete filhos... Eu aprendi ser como mamãe...Sempre toda bonitinha...Esperando meu portuguesinho chegar do trabalho... Mas hoje... Elas vão dando pra todo mundo!! E marido só é bom pra dar dinheiro!! Não!! Não pode fazer isso com os homens!! Homem é tão bom...Homem é tão bom...Tudo como a gente deve fazer tá na bíblia! Eu falo lá na igreja! Mas eles acham que eu sou chata!! Irmão! Só sei de mim!! Mas você põe na prática os aprendimento que tá nesse livrinho de capa preta? Tá tudo lá! Os proceder e as torturação do inferno!! Tudo lá...Tudo lá...Ai, mãezinha...
E a carranca se desmancha, o rosto seco cai sob a pasta disforme que um dia foram os seios, e o discurso inflamado dá lugar a um murmurio sem sentido. E mesmo toda aquela lenga-lenga anterior fizera algum sentido? Talvez para ela. Penso que cada um deva procurar seu próprio sentido nas coisas da vida. E quem sabe, o veneno cotidiano de repente não desça pela garganta como um bom suco de uva.
Olho para fora, e leio numa placa o que deveria ser: "Bolos caseiros", mas preferi enxergar: "Belos traseiros". De repente, o murmurio da velha aumenta:
---- Hmmmmmmmmmmm....Quem come a minha carne e bebe meu sangue...mmmmmm...Terá vida eterna....
Meus olhos ainda estão procurando a verdade lá fora...Na falta de vinho, abro a quarta latinha e arroto satisfeito pensando no meu sentido das coisas. Pensando que é bem melhor assim.
Sniff...Minha mão tá cheirando à bunda...

terça-feira, 23 de junho de 2015

terça-feira, 9 de junho de 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Exorcismo Hardcore: Ainda Somos Homens de Cro-Magnon



Algum tempo atrás,observava crianças brincando num shopping center. Era uma espécie de jaula inflável, cuja entrada era a boca de uma enorme cabeça do coelho Pernalonga. Fiquei tentando captar o sentido daquela imagem. As crianças pulavam e trombavam umas nas outras, com uma alegria histérica. Observava como se nunca tivesse passado por isso, ou tentava buscar nos confins empoeirados da memória o que fazia com que agíssemos assim na infância.
Hoje, me encontro sacolejando os membros de forma selvagem em meio a sujeitos tatuados de aspecto ameaçador, sob um trovejante som de bateria, baixo, guitarra e gritos que nos impulsionam a um instinto básico, que antes tentei captar seu sentido na visão daquelas crianças pulando euforicamente. Mas apesar de sermos todos marmanjos barbados, ainda era uma brincadeira, apesar que o chão não era fofo como o interior do Pernalonga inflável e uma trombada de um sujeito enorme e marombado pareceu tirar meu ombro do lugar por um breve momento.
A banda era "Cro-Mags", e que funcionava para aquele determinados publico como gatilho dessa emoção primária que não se perdeu da infância, apenas tomou outras formas e significados.
Três bandas nacionais tocaram antes, e o publico ainda estava frio, mas eu não sei se por ser poeta, um bicho emocional por excelência, já comecei a sacolejar o esqueleto e esmurrar o ar á cada estrondo sonoro da musica hardcore. Ok. Somemos a isso as decepções cotidianas, e a furia deve ser extravasada de algum modo. A emoção primal, que julgamos perdida, depois da juventude, na verdade se transmuta no gosto por determinada musica, torcer por um time, xingar o juiz ou sair no pau com outra torcida. Mas neste ultimo caso, trata-se de uma falha na adaptação do homem primata á civilidade, onde a energia primal não se esvai da maneira correta, colidindo com as leis de convívio em sociedade.
E, diferente de outras cenas do universo roqueiro, apesar da aparente brutalidade da 'roda de pogo', que aos olhos dos leigos possa parecer uma briga generalizada, ao 'stage diving'(que não é o 'mosh' como muitos pensam, o 'mosh' corretamente seria a 'roda de pogo')em que o sujeito sobe no palco e 'mergulha'na platéia, num verdadeiro impulso kamikaze, o que presenciei foi um ambiente de extrema civilidade e repeito. Cabeludos com camisetas de heavy-metal convivendo em paz com sujeitos com cabeças raspadas á zero e outros que pareciam saídos daqueles filmes de gangues, verdadeiros 'chicanos' com lenços amarrados na cabeça e tatuagem até no rosto.
Esta cena hardcore atual tem uma noção de 'família'. E é descendente de uma geração punk, onde a 'treta' era certa. Agora a furia só explode na hora da 'dança', se podemos chamar assim. O vocalista da banda 'Questions' fez um discurso bem articulado contra o fascismo (algo que se espera do punk em geral), mas também condenou o sexismo e a homofobia, defendeu a proteção aos animais e a greve dos professores. Não aquela velha lenga-lenga de "Anarquia e botar pra fuder".
Talvez até por esse publico ser formado por grande parte de 'straight edges', ou seja, vegetarianos que não bebem ou se drogam. Se vi meia dúzia de sujeitos com latinha de cerveja, foi muito. Cruzo com alguém com uma camiseta com o desenho de uma vaquinha e embaixo escrito: "Não Mate". E foi a primeira vez que comi um sanduíche 'vegano'! Era algo que parecia carne, mas não era carne, e até que não estava ruim,não. Então pensei que o que o que somos, também está relacionado com o que ingerimos. Mas a energia vai estar sempre lá. E ela precisa ser posta para fora. É como a reação de pessoas que me conhecem após verem minhas performances poéticas. Elas pensam que sou louco. Violento. Ou sei lá oquê. E se surpreendem com o sujeito tímido que surge após gritos e quedas estrondosas no palco. A poesia é meu 'grito primal'. Como já enfatizei no poema intitulado 'Saudades do Primata':

Sei que está aqui
Dentro das entranhas civilizadas,
Saudades do primata
Vigoroso, físico, vital

Ah! Tantos pensamentos!
Eu não quero religião!
Quero sentir Deus no sol
Quero sentir Deus na lua

No vento que sopra na cara
Quando parto para a caça,
Quero meu porrete
Não o velho Sr. Aurélio!

Não quero palavras novas,
Quero viver
Correr nas matas
Quero acasalar

Quero parar o poema aqui
E dar meu grito primal!

Mesmo que exista a civilidade e até mesmo a espiritualidade como no meu caso, a energia primal é como um 'alien' crescendo em nosso organismo, e que alguma hora vai romper nossas entranhas, até mesmo como uma úlcera ou câncer, então porque não deixá-la sair de um modo positivo? A banda 'Cro-Mags' é um exemplo disso, do selvagem, que mesmo sob uma filosofia espiritual, no caso o 'Hare-Krishna', foi palco de desavenças e um ultimo e lamentável caso de violência : o baixista fundador da banda esfaqueou seu substituto, indignado por ser trocado. O vocalista já chegou a ironizar outra banda 'Hare-Krishna", o 'Shelter', dizendo que eram hipócritas por entregarem a palavra de 'Krishna" como uma flor, e que eles a entregavam como um taco de baseball. Então é isso. Como disse meu amigo Ni Brisant, que precisava ir a um show para exorcizar. E é mesmo um exorcismo. Sorrio, pensamento nisso, quando é anunciada a musica "Crush The Demoniac". Todos esmagando seus demônios, embaixo de coturnos e tênis, numa furia alegre, como as crianças dentro do Pernalonga. Apesar das adaptações, ainda somos 'homens de Cro-Magnon'. Saio cambaleando, o calor da adrenalina passa e meu corpo esfria. Começo a sentir as cotoveladas nas costelas, as bicas nas canelas, o ombro que tomou a trombada. Pego o ônibus, e apesar do horário, ele ainda enche. Logo uma senhora gorda fica prensada ao meu lado, com a ponta da bolsa esmagando meu mamilo. Mas tudo bem. Tô calminho...Calminho....

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Pernilongo



15 de abril de 2015
01:50 da madrugada
O manto negro da noite
obscurece a vista
mas não os pensamentos
que pesam sobre a mente
como pesados vasos de plantas secas e bichadas
na jardineira capenga de minha alma,
Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...........
Penso no salário atrasado
e o pernilongo quer meu sangue,
Penso no aumento na conta de luz
e o pernilongo quer meu sangue,
Penso na meia idade
como um revestimento de argamassa podre
em cima de um espirito juvenil
que ainda crê numa história de amor possível,
e o pernilongo quer meu sangue,
Penso nesse celibato romântico
que equilibro na cabeça como um antiquado chapéu coco
num mundo onde Chaplin morreu engasgado com a laranja mecânica
e o pernilongo quer meu sangue,
Penso em parar o poema aqui
e fazer melhor uso dessa mão direita,
Mas o fluído na minha palma não é a semente de minha solidão
mas o sangue de outro infeliz,
Penso que é melhor ir dormir
o pernilongo está morto.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A Rosa no Arame Farpado



--- Eu sonhei com um anjinho...Um anjinho com peitinho....
Claudemir cantarolava, enquanto arrastava sua carcaça de meia idade, naquela situação em que as carcaças de meia idade se encontram no início da noite de sextas feiras em uma grande metrópole como São Paulo, após mais uma brutal jornada de trabalho. Claudemir queria mesmo era ser escritor. Mas seus textos longos sempre acabavam no lixo. Acabou tendo prejuízo com seu único livrinho de poesia, cheio de rimas pobres, mas ricas de um sentimento que ainda cismava em manter vivo. A esperança de que ainda cruzasse seu caminho "o anjinho com peitinho". Personagem inspirador de seus versos e um romance inacabado.
---- Sim...Sou sobrevivente de "romances inacabados"...
Uma imagem lhe chama a atenção. Na cerca de uma empresa, onde um amigo trabalhava, havia uma rosa presa no arame farpado. Não havia como alcançá-la, sem rasgar as mãos. Reconheceu aquela imagem como a melhor definição do amor que já lhe tivesse passado pela poética mente.
--- Demir! Demir!
Era o amigo que saía do serviço, para tomarem umas.
Claudemir aponta a cadeira do lado de fora, com um casaco pendurado:
--- Eu nunca vi o guarda!
---- Ah! O patrão só deixa a cadeira com o casaco pra fingir que tem um guarda! A mesma coisa a câmera, que não funciona e a placa que diz "Cuidado com o Cão", não tem cachorro nenhum!
Começaram a descer a avenida, em direção ao boteco. Claudemir fica encantado com a beleza da carroça que um senhor vem puxando, mais perto verifica que na verdade era um armário que o carroceiro vinha trazendo. Um primor de móvel antigo. Um carro pára ao lado, no farol. O carroceiro cumprimenta o motorista, que corresponde. O amigo de Claudemir também dá "oi" ao velho.
--- Quem é?
--- Não sei o nome dele! Acho que ninguém sabe! Todo mundo chama ele de tiozinho!
Claudemir também se via à caminho, à curto prazo, de se tornar um tiozinho, e também de passar despercebido, mas só ele mesmo sentir isso. Afinal, todos o cumprimentariam ainda. Mesmo que não soubessem seu nome. E fingissem se importar com ele, cumprimentando-o: "Oi, tiozinho!"
A importância de Claudemir seria mais uma das mentiras da sociedade cinza, com sua sensibilidade de concreto. Mais uma mentira, como o guarda e o aparato de segurança inexistentes da empresa de seu amigo. Aliás, qual o nome do seu amigo? Será que até sua existência se tornou uma fraude para Claudemir? Ele era seu amigo realmente, ou apenas um companheiro de bebedeira?
Adentram o pequeno boteco, com a placa lhe lembrando que não passavam disso: "Os Filhos do Porre".
Meia dúzia de cervejas depois, a conversa, se direciona ao descontentamento com as chances de privilégios de uns, e a total ausência para outros.
--- Demir! Hoje me deu "piriri", e como fiquei por último, não quis nem saber, usei o banheiro privativo do chefe! Adivinha! O maluco tem chuveirinho, mano! Se com a dor de barriga que me deu, fôsse usar o dos funcionários, iria acabar com o rolo de papel, depois iria ouvir, ainda! Mas com o chuveirinho...O negócio lava tudo! A hemorroida mais nervosa vira o couve flor mais cheiroso! Daí...Pra tu ver... Porque a gente não pode ter chuveirinho, também? Porque uns rabos merecem o carinho duma ducha, enquanto outros, que se rasguem com papel ordinário?
Aquela conversa de banheiro deu vontade em Claudemir de ir "tirar a água do joelho" e algo mais. Lá, ele observa os remendos nos fundilhos, e se dá conta que também sua alma estava cheia de remendos.
"Me esfolando todo no arame farpado da vida, a fim de alcançar a rosa do amor...."
De volta à cerveja, já não encontra mais o amigo:
--- Seu Zé!! Viu meu amigo?
--- Amigo? Essa conversa não cola mais! Não vai sair sem pagar!
Confuso, tira a carteira e toma um susto com a conta. Mas logo esquece disso, ao passar uma mocinha cheirosa por ele.
E com voz pastosa, os velhos versos vem a tona:
--- Eu sonhei com um anjinho....Um anjinho com peitinho...
Uma década atrás, teria tido uma ereção, mas hoje, com a virilidade se esvaindo como a cerveja na urina, em sua carcaça de meia idade, a pose de macho e comentários safados de bar, também já não passavam mais de uma mentira, mantida por força do hábito, ou melhor, por vergonha. Sente, na verdade, que a falta de controle genital transmutou-se numa espécie de tendência canibalesca,em que se via, não em intercurso com seu "anjinho", mas como um predador usando o que ainda lhe restava de rígido em seu corpo, os dentes, a estraçalharem os pequeninos seios numa orgia de sangue.
O delírio é interrompido imediatamente, lembra-se que deveria aproveitar enquanto era beneficiado de um convênio dentário da em presa e dar "uma geral" na boca, evitando que até os dentes já não fosse capazes de morder as "tenras carnes". Lembrando-se do semblante desolado de uma senhora no ônibus, observando um orçamento dentário e que havia o desenho de vários dentes circulados: "Sinal: R$700,00 + 6 de R$ 500,00."
---- E aí, Demir? Tá vendo o Big Brother? Tem um poeta lá, que nem você!
Claudemir tenta fixar a vista no rosto embaçado do amigo, que parecia querer se desfazer no ar. Pensa que o filho da puta sempre some na hora da conta, mas decide ficar quieto e se levanta, sem se despedir. Vira-se para o dono do bar, e grita, soltando perdigotos como insetos prateados:
---- A porra do poeeetaaa é um fingidooor!!!!!!!!
Vai se arrastando de volta para casa, pensando no destino do "poeta do Big Brother". Seria ele, um poeta de mentira? Ou se real, transmutaria-se inevitavelmente em poeta de mentira, embrulhado para consumo rápido no fast-food televisivo? De repente, reconhece a menina do outro lado da rua.
---- Oi lindo! Quer fazer, nenê?
Ele agarra os delicados seios, espremendo-os como duas mexericas.
----Aaaaaahhhhhhhhhh!!!!!
---- Não! Nenê sou eu!! Nenê quer mamar!!
A moça começa a gritar, um brutamontes surge do nada, e apesar de cambaleante, Claudemir consegue escapar na escuridão.Passando em frente à firma do amigo, as lágrimas caem como cascata ante a visão da rosa presa no arame farpado.
No dia seguinte, a TV anuncia:
--- Foi encontrado hoje, o corpo que à princípio, suspeita-se tratar-se do cruel "Poeta Canibal", que já atacou diversas mulheres, em sua maioria prostitutas, que tiveram seus seios mutilados e o sangue usado para escrever versos na cena dos crimes. Ele estava com os braços enrolados numa cerca de arame farpado de um terreno baldio. Suspeita-se de execução. E agora, é com você, Bial!
---- Salve! Salve! E falando em poeta, nosso poeta do bem, Adriles, é o novo líder na casa mais vigiada do Brasil! Não perca! Logo depois de Império!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Sorriso do Angolano



-- Boa tarde! Meu nome é Keza! Vim de Angola! Estou a vender estes deliciosos drops!

Justiniana era uma flor murcha e enrugada no canto mais escuro do último banco do ônibus. Os dedos cadavéricos de repente despertam num tremor de parkinson, sobre o crucifixo pendurado no pescoço, como se de fato (imagine!) manipulasse de forma lasciva o corpo seminu de Cristo pregado e desgostoso com nossos pecados. O sorriso do angolano foi como um raio de sol, levando um pouco de calor àquele corpo frio e fechado dentro de si próprio, esperando o retorno do Senhor, para trazer salvação para tão piedosa e dedicada criatura e danação eterna à toda gentalha imunda de vício e imoralidade. "O sorriso deste negro!Que dentes bons!" O ar começa a lhe faltar, as palavras carregadas de simpatia do estrangeiro pareciam lhe atravessar como dardos envenenados com uma substância ardente, a qual a vida inteira evitou de se contaminar. Mas era irresistível. Deixou cair uma moeda a mais na palma clara da mão negra enorme. "Oh! Esta palma eu beijaria! Até receberia uma bofetada! Ai, Senhor! Mas é um negro limpo! Elegante! De outra terra! Oooh..." O tremor dos dedos, feitos garras de abutre, aumenta ao tentar rasgar a embalagem. Precisava chupar os drops daquele homem exótico e viril. Coloca logo três tabletes na boca, e os suga com sofreguidão. Imaginava aquelas balinhas brancas a derreterem em sua língua como algo saído das entranhas daquele corpo de ébano, como um deus africano conspurcando-lhe a ressequida e intocada carcaça católica.
--- Tião! Tião! Traga mais drops! Acabou tudo!
A velha engasga, ao ver um menino de camiseta suja e rasgada, shorts e havaianas em petição de miséria, surgir de trás do angolano e enfiar a mão dentro de uma sacola e tirar mais embalagens de drops.
--- Táqui, mano!
"Um pretinho!! Daqui!! Um miserável daqui!!! Um trombadinha!!! Da ralé!! Da gentalha!!" Eram os pensamentos que explodiam como gritos silenciosos dentro do crânio da fanática.
---- AAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!! AAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!
Como uma múmia a levantar-se de um sarcófago amaldiçoado, Justiniana cospe os drops e aperta alucinadamente o botão para que o ônibus parasse. Mal se abrem as portas e o corpo seco como um pergaminho antigo e repleto de calamidades voa, antes da parada efetiva do veículo. A pilastra ao lado do ponto de ônibus recebe o baque daquela caixa cheia de preconceito, ódio e miolo mole.
Forma-se uma roda de curiosos, uns rostos indiferentes, uns enojados e muitos irônicos. O do angolano e do menino, tinham uma surpresa horrorizada, mas logo suspensa pela aproximação de mais um ônibus.
--- Tião! Tião! Fazer dinheiro, gajo!
E lá partem os dois, sem a mínima desconfiança de que foram detonadores das mais fortes emoções, naquela abafada tarde de verão.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Invisível



Naquele dia, ela cismou comigo. Mas eu não fazia parte do grupo dos bagunceiros. Eu era invisível. Ficava rabiscando personagens na última página do caderno. Esboços de histórias em quadrinhos cujo único leitor era eu mesmo. Não havia me descoberto poeta ainda, pelo menos não no sentido de criar versos. Mas era poeta no jeito de olhar o mundo. Via as plantas que nasciam dentro do pátio da escola e se enroscavam na cerca, como prisioneiras ansiando pela liberdade nas ruas. Ah! As ruas! Que tinham aquele apelo de “mundo dos adultos”, proibidas e por isso mesmo tão sedutoras. Naquele dia, ansiei mais do que nunca me jogar em seus braços cinzentos feitos de concreto e fumaça de ônibus. Naquele dia, ela cismou comigo. Mas...Como? Eu era invisível!
---Você! Repita o que eu acabei de dizer!
Ela achava que eu não estava prestando atenção à aula. Eu sabia o que ela tinha acabado de dizer, mas...Travei! Balbuciei algo no desconexo linguajar das pessoas tímidas pegadas de surpresa, e resolvi calar-me. Fui agraciado por aquela mulher de semblante de permanente ódio, com um ponto negativo.
Na hora do intervalo dirigi-me a cerca, mas diferente das plantas não haviam raízes que me prendessem àquele solo, me encaminhei ao buraco, escondido apenas por uma tábua, por onde já vira outros garotos ganharem as ruas na semana anterior. A única criatura que tinha poderes sobrenaturais de enxergar-me em minha invisibilidade, não estava por perto agora. Atravessei o buraco, como se fora uma passagem interdimensional de uma esfera pesada controlada por uma disciplina dura e militar, para um mundo de cores e sensações que me faziam sonhar: Aquele casal no bar...O homem de espesso bigode acaricia com mão grande e forte a cintura macia da dama vestida de vermelho. Eu sou ele. Bebo daquele copo. A água amarela com espuma branca. Imagino que pelo gosto com que ele saboreia (passa até a língua na espuma que fica no bigode) deveria ser tão saboroso como o Toddinho que distribuíam no recreio. Perambulo o resto da tarde, abastecendo-me de imagens, cheiros e vozes...E isso dura até agora, e o corpo invisível do menino dá lugar ao homem de 42 anos de idade...Se tornou poeta? Alcançou seus objetivos? Só sente, com certeza, que cada momento desagradável que já passou, é como se aquele olhar duro da professora que tudo via, ainda persistisse sobre si. Mas, seu consolo é que por mais penetrante que fosse tal olhar, não poderia chegar ao cerne de seu ser. Então, o homem sorri um sorriso ao mesmo tempo irônico e amargo.
--- O gerúndio de falar é falado, professora! E eu não falei por que tive vergonha! Sua... Cretina!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Nossa Senhora dos Bebuns Chifrudos



--- Pô,Valério...Tu sabe que eu te amo, né?
Ademar fala, com aquela voz pastosa de bêbado, a mão dando um tapinha no ombro ainda mais pastoso do amigo. O mulato gordo ri, olhos vermelhos, balançando os peitos, os mamilos eretos apontando para Ademar.
--- He!He! He! Mas você não me ama do jeito que eu te amo!
Ademar sente algo estranho no ar, e resolve se levantar das almofadas jogadas no chão. Cambaleante, procura a camisa.
--- Porra, Ademar! Onde vai? É teu aniversário!
--- Ah, Valério...Tá muito quente aqui...Depois eu volto...
Ademar sai trôpego. Sorte que é horário de verão, se não estaria um breu. Tem dois meses que deixou a mulher. Ela o traiu. Só sobrou o consolo do amigo. Nunca pensou besteira à respeito de Valério. Ele era só um gozador. Mas é que aquele calor...Aquela crescente catinga de macho o estava incomodando...Imagina....O Valério...Até comprou uns filmes pornográficos para se distraírem e comemorarem seu aniversário...Se bem que Valério só fez observações ao dote descomunal do ator pornô, não falou nada sobre a atriz... Imagina....O Valério....Um gozador...Pensou em dar uma passada no "69" da Nossa Senhora da Lapa. Deu um "oi" ao segurança e quase perde o equilíbrio, ao ser atingido por um garotinho que saiu correndo de dentro da porta que jogava uma luz vermelha na calçada.
---- Esse é filho da Brigite!
--- Hmmmmm...Parece com ela, mesmo....
---- E com você, também, Ademar! Ha! Ha!
---- Sai fora, Raimundo!
"Eis um legítimo filho da puta, este moleque!" Pensa Ademar, se afastando e achando que em seu estado seria melhor ir pro bar, seu pau não levantaria mesmo, e o rosto do menino lhe deixou meio perturbado.
Senta e pede uma cerveja, olha para um dragão ao seu lado. O dragão tinha um par de chifres e sorri pra ele.
---- Um dragão com chifres?
---- Se é pra ter chifres, melhor ser dragão, que touro...Ou viado, né amigo? Ha!Ha!Ha!
---- É...Acho que tem razão...
Ademar tem dificuldade para dirigir o copo à boca.
O dragão fica sério e aponta a garra afiada no nariz de Ademar:
----Todo mundo falava...E eu....Eu não acreditava,sabe? A Celeste é uma santa, seu filho da puta! É o que eu falava pra eles...Mas continuo achando o mesmo...Ela não teve culpa....Afinal, o Gaspar era boa pinta...Olhos verdes... E aqueles músculos...Olha, rapaz....Aprenda uma coisa...Mulher nossa nunca é puta....Nem nosso amigo é viado!
O dragão já estava todo torto. Ademar tentava focar a vista.
---- Celeste...Era a sua "dragona"?
----Ha!Ha!Ha! Dragona! Essa é boa! Já chamei a desgraçada de muita coisa! Mas dragona....Peraí,meu amigo...Minha mulher era uma santa....A culpa foi do Gaspar...E aqueles músculos...Bom, de qualquer forma prometi a mim mesmo que se pegasse os dois juntos, não faria nenhuma loucura....Apenas marcaria pra sempre minha vergonha na pele....Tatuaria um bicho chifrudo...E, como já disse....Um dragão é muito mais estiloso! Vergonha "style"! Ha! Ha!
Então, Ademar se dá conta que estava conversando com a tatuagem no braço do homem. Decide voltar, no caminho, um casalzinho à sua frente, troca carinhos. A menina beija o ombro do rapaz, e olha para o cambaleante Ademar e sorri. Ele também sorri. Mas sente vergonha e pára, para inspecionar uma caçamba de lixo. "Seu pervertido! Ela poderia ser sua filha!" Abre o zíper e se põe à mijar na caçamba.
---- ÔÔÔÔÔÔ...Pintuuudoooooo!!! He!He! He!
Dois rapazes magrinhos e que apreciam fazer a sobrancelha, passam rindo e piscando para Ademar.
"Cacete....Esses caras vivem me cantando mais que "Emoções" no show do Roberto Carlos....
Falando nisso...Tenho que voltar pro apartamento do Valério....Mas tudo bem....O dragão disse que amigo nunca é viado."
Chegando, o filme ainda rodava no DVD, Valério jazia meio desacordado, de bruços, o shorts arriado e um espanador enfiado no meio da bunda, balbuciando em cima de uma poça de baba: "Deeeeemaaaar....Deeeeemaaar...."
----Porra, Valério! Mas tu é um gozador, mesmo, hein? Mas brincadeira tem limite! Você podia ter se machucado! Deixa eu ajudar...
Depois de retirar o artefato de dentro do amigo, senta-se para acabar de ver o filme. Observa mais atentamente o ator, abaixa as calças e faz uma comparação:
---- É....Valério tinha razão...Senhora piroca! Se tivesse uma dessas....Ritinha não teria me traído....Eu não a satisfiz...Coitadinha....
Se levanta, a vista já embaçada pela bebedeira se turva de vez pelas lágrimas e vai até a janela. Olha para o ponto de ônibus do outro lado da rua. Por um instante, pensa ter visto a imagem de Nossa Senhora. Mas era só uma propaganda de cerveja. A silhueta de uma garrafa com uma luz dourada de fundo.
"Nossa Senhora dos Bebuns Chifrudos!"
Coloca uma perna pra fora e se joga.