quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Consumindo-me

 

Abro a janela do desejo

Deixo a luz do dia me abraçar,

Sinto então, invadir-me como um beijo

Por detrás, sinto a força deste olhar


A perscrutar cada centímetro

Invadindo cada dobra,

O sangue ferve, mas encontro-me lívido

Paranoico vestígio de perigo, que sempre sobra


Cobrindo com película odiosa

estes olhos que devoram minha petulante nudez,

Olhar de quem não admite, mas goza

consumindo-me com repudio, mas com extrema avidez.




André Diaz

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Cabeça no Aquário

 

Vi minha avoada cabeça exposta

num aquário, para a diversão 

de crianças apáticas, cuja única resposta

foi postar-me como meme, até a exaustão


Os peixes se alimentavam

de minhas órbitas sonhadoras,

a língua, coberta de limo, já não estalava

ao declamar poesia, paralisada estava agora


O grande homem vazio veio limpar o aquário

Derramando todo o conteúdo no esgoto,

Porcarias e uma cabeça, com sonhos vários

dos mais censuráveis, de adulto, até mais inocentes, de garoto...


E tudo, enfim, se perdeu

no grande mar do esquecimento,

e outro poeta solitário me sucedeu

e também teve sua cabeça exposta ao estupido escarnecimento...



André Diaz



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Pratos Assim, Como Você, Já não Fazem

 

Consumo minha solidão

a bebo e mastigo freneticamente,

como um alucinado glutão

Tendo imagens do passado em minha mente


Devoro-as, muito bem apimentadas

pelo desejo, que um dia, tanto ardeu,

Sugo até não restar mais nada

dos apetitosos lábios que rechearam o sorriso teu


Passo a lingua pelas tatuagens

que davam mais sabor a teus braços,

Pratos assim, como você, já não fazem

Mantendo-se aromáticos e quentes, no tempo e no espaço...



André Diaz

A Origem do Vilão

 

O mundo me cuspiu

e caçoou até não poder mais,

Aquela velha inocência sumiu

e na esperança, já não encontro minha paz


Carrego os bons sentimentos de menino

como restos de um fim de feira,

Recolho-os, pisoteados e não me animo

a reaproveitá-los, de qualquer maneira,


Mas ainda assim, fustigado como cão,

pelo chicote das circunstâncias,

Não! Não considero esta a origem do vilão

No fundo do veneno, ainda persiste um pequeno e puro fragmento da perdida infância...



André Diaz

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Apenas o Gosto da Saudade

 

O desejo e a carência

dão forma a esta faca de açougueiro,

a qual, em minha mão, vibra com indecência

e a cada emocionado golpe, me descontrolo e tremo inteiro


A carência é o engordurado cabo

na qual a palma suada se agarra,

O desejo é a afiada lâmina de aço

que corta laços, numa sangrenta e triste farra


Meu coração, sempre iludido, dispara

em  puro e frenético frenesi,

Mas, como sempre, no espelho, meu rosto com seu reflexo, se depara

e mais uma vez, me condeno a te ver partir


Mais uma, entre tantas e bem intencionadas pessoas

que me deram o privilégio de sua atenção e amizade,

Fatiei como bife, suas intenções que eram tão boas

sem saciar-me, deixando em meu paladar, apenas o gosto da saudade.




André Diaz