quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

De Libra

Não há direções definidas
Desliza como àgua
pelas pedras do caminho,
Deságua quase sem querer

no entulho de sentimentos cortantes como navalha
É sangue quase sempre
Que sonha transmutar-se em lágrimas de alegria.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Prece






A cor do amor

é a cor dos olhos de minha menina,

Entre nossos corpos, só o suor

...Só com o olhar, ela me ensina



Me ensina que nem tudo acabou

que cada dia é um degrau,

nessa longa escada onde vou

cada passo, para o bem ou o mal



O do mal é fácil de alcançar

O do bem, cansa só de olhar,

O pézinho dela, vejo onde vai pisar

Se vale a pena, sua cintura abraçar



Virar seu rosto para mim

sorver a ambrosia de seus lábios,

Sonhar esse sonho até o fim

com paixão e gestos rápidos



Pois a cor do amor

surge e se desvanece,

como da face, o ardente rubor

de uma sacanagem, sussurrada como prece.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Um Deus no Caminho

 Uma barata cruzou meu caminho,
 Lembrando meus atos mais ordinários,
 Será que Ele se disfarçou com asas e antenas
 só pra me fazer lembrar disso?
 Eu o pisei!
  Ele não morreu!
 Ouço uma voz:
 "Nada é o que parece"!
 Será que Ele se transformou
 em uma papa branca e pegajosa
 só pra me fazer lembrar disso?
 Será que a salvação
 em tempos de toque de recolher
 surge com perninhas cabeludas
 de um céu escuro e fétido nos esgotos?
 Assim como minha ultima esperança de amor,
 O saco de lixo nas mãos da pessoa amada...
 Confundi com um buquê de flores.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Importância de ser Piegas

        A cerveja e a lembrança de uma mocinha ainda estavam frescas em minha mente. Enquanto meus amigos (a poetada) conversavam, peguei um pedaço de papel e me pus a rabiscar uns versos na mesa do bar. Eis o resltado:

            "O Poeta é um Pássaro


            Toguei na mão dela,
            Apertei seu corpo contra o meu
            Queria que o tempo não corresse
            Ficasse congelado
            naquele momento,
            mas sempre esqueço
            que o tempo é como asas,
            E o poeta é um pássaro
            que voa pelas nuvens negras
            da decepção,
            Sempre a procura
            daquele tão ansiado
            e perfumado oásis,
            onde finalmente
           saciará sua sede de amor! "

   Minha amiga Cissa leu e me gozou:
 --- Mas André! Que coisa mais piegas!
   E Paulo sugeriu que o poema daria uma bela canção sertaneja, e começou a cantatá-lo com aquela vózinha fina "a la Zezé Di Camargo". Não fiquei chateado. Achei graça até. Gozação de amigo não dói. Não entra fundo, nem faz estrago. Depois ele deu um desconto, pois percebeu a "sacanagem oculta" no poema (que não era apenas romântico, mas erótico): "...Sempre a procura/ daquele tão ansiado/ e perfumado oásis/ onde finalmente/ saciará sua sede de amor!" (bom, acho que não preciso explicar, né? Isso se chama metáfora!)
   Lembro de uma foto de Agnaldo Timóteo no livro "Eu não sou Cachorro não!" sobre a história da chamada musica cafona no Brasil, em que ele aparece chorando, após ter sido brutalmente vaiado por "jovens insensíveis" para com suas musicas cheias de "amor com dor". Muita gente tem ojeriza a esse senhor, pelo seu lado pessoal ou político. Mas não se pode negar, que se tratando do quesito musica romântica, o cara faz de seu ofício, a coisa mais linda! Parem! Parem de jogar coisas em mim, pôxa! Mas não adianta. Estamos falando de sentimentos instintivos. Verdadeiros. Humanos. Caro leitor, não adianta negar. Você pode até disfarçar muito bem. Mas você os tem bem lá no fundo. Sentimentos que chegam a ser hediondos, como o imbecil que jogou àcido no rosto da iraniana, só porque ela não queria se casar com ele. Sim. São sentimentos ridículos, que às vezes, infelizmente, se tornam trágicos.
 Em vez de se fazer coisas estupidas, por que não fazer arte com tais sentimentos?
    Nando Reis, ex menbro de uma das mais importantes bandas de rock do país, Titãs, e compositor de vários hits para outros intérpretes, recentemente lançou CD e DVD "O Bailão do Ruivão" em que celebra a cafonice (breguice ou pieguice, se preferirem), com participações de gente como Zezé Di Camargo e Calypso (com direito a batida de cabelo da Joelma), sem medo, sem vergonha, e sem estar tirando sarro, como explicou na entrevista dos extras. Não se tratava de seu gosto musical exatamente, mas ele tambem não tem uma "Piegasfobia", e já chegou a tocar ao lado do já falecido Wando, outro ícone da cafonice descarada. Mas tais musicas são coisas que qualquer um acaba ouvindo, independente de seu gosto musical. Mas, como já disse Renato Russo: "Não revele suas fraquezas. As pessoas costumam usá-las contra você." Então, o medo é esse. As pessoas se escondem atrás de um escudo de "bom gosto", se arma com a espada do "descolado" e atacam ferozmente o dito "popular", na ânsia de negação de tais sentimentos cafonas que ela própria carrega. É a mesma coisa que a homofobia.
     Mas não adianta. Tal combate é uma farsa. Por isso, dedico essa crônica com todo meu carinho e "coraçãozinho S2" para o casalzinho mais fofo que conheço: Paulo D`Auria e Cissa Lourenço. Presencio o "chamego" entre os dois, e posso dizer que fico realmente emocionado. Apesar de tanto tempo juntos, parecem um casal de namorados que acabaram de se conhecer. É um tal de "amor" pra cá e pra lá. Mãozinha dada e Cissa fazendo voz de menininha. (ou seja, piegas pacas!) E por isso mesmo, a coisa mais fofa! (o Paulo odeia essa coisa de fofo! Mas vocês são fofos, mesmo! Fazer o quê?)
    Escrevo esse texto ouvindo Agnaldo Timóteo. Agora está rolando "O Grito", em que ele fala do desejo de dar um grito e chamar pelo nome o seu grande e secreto amor. Mas, se der esse grito...Todo mundo vai saber quem ele ama! Pois essa crônica é meu grito: "Sou cafona sim!" Pois, parodiando Wilde, com sua "Importância de ser Prudente", digo que mais vale é a "Importância de ser Piegas"... Que apesar de realmente, ser idiota a maioria das vezes, é verdadeiro, e se transformado em arte, não machuca ninguem, e a prudência de se trancar a sete chaves, os sentimentos mais cafonas, é apenas perda de tempo. É. Fazer 40, tem suas vantagens (ou é preciso inventá-las).
    Um beijo à todos! E, se alguem estiver sofrendo de amor... Não fique alimentando essa dor... E faça como esse senhor... Tranforme em arte todo o horror! (Vixe...)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Roberta foi a Estrela

Estava para baixo,
muito puto mesmo, com tudo!
Pensando: Onde será que me encaixo
nesse caótico e tão triste mundo?

Esqueci o meu dilema
quando a vi em cima do palco,
Não existiam mais problemas
Ela foi a estrela que desceu lá do alto.

Me envolvendo em nova dimensão
Cores, sons e aquela voz!
Percebi que meus lamentos não foram em vão,
Sempre haverá anjos a orar por nós!

Às vezes, em forma de artistas,
que com sua mágica essência
trazem colorido às entristecidas vistas,
Como Roberta, que fazem a diferença!

Roberta, esta bela borboleta
me trouxe de volta, o sorriso que se perdeu,
no cinza da realidade concreta
um milagre multicolorido aconteceu!

Não. O mundo nunca foi o que eu quis.
Mas nesta tarde de domingo, a esperança foi salva,
Ao encher minh'alma com sua musica, fui feliz,
Muito obrigado, Roberta Estrela D'Alva!

domingo, 23 de setembro de 2012

A Camiseta de Raulzito


Nessa eleição
trabalho de mesário
pela segunda vez,

Puta chateação
pra eleger
um novo salafrário
outra vez,

Vi essa foto de Raul Seixas
que me deu a idéia do poema

Além da revolta que não me deixa
A obrigação de servir a pátria é um problema!

Não quero escrever
nada de otimista,
Quem não vê a verdade
precisa de oculista!

Pessoal que parece que não tem colírio,
Tá todo mundo de óculos escuros?

Esse poema é a mosca na sopa, meu filho!
Eleger um novo Tiririca, não engulo!

Na camiseta de Raulzito
diz pra gente votar nulo,
Concordo e sempre repito:
Não vote em quem vai te roubar o futuro!



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Vômito

Sinto-me enjoado,
Cambaleio
entre os caminhos perdidos,
Caminhos feitos de homens perversos
que seguram-me os pés
tentando impedir meus passos,
Eu paro
enquanto minhas vísceras se contorcem,
Tento,
mas já não consigo
esvaziar-me de ódio,
Me contorço
Espremo a barriga para o vômito,
Mas o que me sai da boca
São centenas e centenas de rosas!

A Valsa daVida

Ela me pega pela cintura
E me conduz pelo sinistro salão
Me sorri um sorriso de cadáver
Vermes no lugar da lingua
me convidam para o ultimo beijo,
Mas percebo que há algo errado
Que deveria ser eu
à guiar a maquiavélica dama
nessa dança de cegos
a pisarem cacos de vidros,
esses dias espatifados
que não colam com minhas lágrimas,
Levanto a cabeça indecisa
e olho dentro das órbitas vazias,
Sim, há uma luz de sol lá dentro,
Bem no fundo das trevas profundas.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Se seu Amor Perdesse o Nariz

Se seu amor perdesse o nariz
sua face, você ainda beijaria, feliz?
Se seu amor perdesse os dedos
você ainda beijaria suas mãos, com desejo?
Se seu amor perdesse a lingua
um beijo no céu da boca, você daria ainda?
Se seu amor perdesse a razão
para os pés da louca, você ainda seria o chão?
Se seu amor perdesse a poesia
raios de sol, para ela, traçaria?
Raios de sol, desses que rompem as trevas
Um sorriso oculto, desses que se revelam
Desdobrando-se como flor de papel
Que é a alma humana, levada pelo vento
Ao infinito azul do céu.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Divina Graça

Não posso respirar,
a fraqueza me envolve
como um lençol escuro,
A realidade é composta
de paredes de tijolos,
lá fora, as crianças
bincam ao sol,
lá fora, o corpo
da mulata torra
bezuntado de bronzeador,
A inércia flui
para dentro de meu ser,
Ser que não se move,
como a pedra no fundo d'água,
Sou um velho agora,
o espelho me nega sua simpatia,
pintando os cabelos de minha barba de branco,
marcando com os cacos cortantes
da alegria estilhaçada
as rugas, como erros estupidos
em minha face atônita,
A cabeleira da juventude
arrancada por este caçador implacável
chamado tempo.
do crânio do que antes fôra
feroz e forte leão,
Sou aquele senhor
jogando milho aos pombos,
como restos de esperança,
A esperança que se alimentem
de seus velhos sonhos
e voem o que ele não voou,
e agora, só espera o fim,
Mas queria mesmo
era ser um daqueles urubus
a sobrevoarem sua carcaça,
que se alimentam da carniça
de seus dias jogados fora,
Mas que rodopiam,
nesse oceânico e infinito azul
com a mais divina graça!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Maldita Condição


Tentei te amar
num colchão de algodão
e lençóis de paixão
suaves como cetim,
Cama de pregos é o que me resta
refestelado sob pele rasgada
a dor do desprezo me mutila,
Testículos perfurados,
e eu não me movo
consciente que sou merecedor.
Reto e uretra são uma só chaga,
Sangue e dejetos são chorados
pelo olho que é o buraco
que é o meu corpo agora,
Sou um vazio exposto,
exposto aos olhos do mundo,
olhos estes que se fecham
à passagem do homem-retalho
que um dia ousou
assumir sua maldita condição
de poeta.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Morte lhe Cai Bem

   Caminhando... Caminhando... Caminhando... Raiva no peito... E lágrimas nos olhos... As ruas estão desertas... As famílias "felizes" se reunem... Eu me emociono com o afeto que as une neste dia... As pessoas se amam e tudo é perfeito... A hipocrisia é bela...E eu choro...
   Cada vez que espero para atravessar a rua...Rezo para que não apareça nenhum cachorro.. Uma vez, um cachorro lindo e simpático me acompanhou na rua... Ele me ultrapassava e latia... Balançava o rabo...Me esperando... Ele só queria brincar...Ele só queria um amigo... Ainda não dava para atravessar a rua...Mas ele atravessou.
   O carro o atingiu em cheio...Não parou...Porque parar? Porque parar...Porra!?! Era apenas um cachorro! Quem liga para um cachorro de rua?! Fiquei congelado... O cachorro levantou a cabeça...Ele me olhou... Babando sangue.. Como que perguntando: "Por quê?! Eu só queria brincar..."
   O segundo carro acertou a cabeça... Ele morreu. Ninguem parou. Ninguem ligou.
   Com mãos trêmulas e a vista embaçada pelas lágrimas... Puxei o animal pela pata partida até a calçada... Não havia nada o que fazer...
   Existirá um céu para os bichos? Pois se existe... Este meu amiguinho merece o mais bonito... Campos verdejantes onde possa brincar e pular entre flores que nunca murcham... Onde não passam correndo máquinas de matar, cujos motoristas não são mais que uma peça insensível deste mecanismo atróz..Correndo em direção a porcaria nenhuma... Em direção ao vazio dentro de seus próprios corações... Vocês merecem a morte... Abortos motorizados... E não, aquele pobre cachorrinho...Ele só queria um amigo.
   Meu consolo é pensar que sua morte foi a liberdade para algo melhor... Esta semana, sonhei que fui enforcado. Não. Não foi um pesadelo. A morte foi rápida. Tranquila. Mal a senti. E acordei aqui mesmo, no mundo físico. O alem não era em outro lugar. Mas sim, uma camada sobreposta sobre o mundo físico. Eu passava por dentro dos encarnados e via tudo que havia lá dentro.
   Eu vi um casal jovem... Eles haviam acabado de ter seu primeiro filho. Passei por dentro da moça... Queria ver o coração batendo no ritmo da felicidade...Mas, acabei vendo mais que isso... Havia um câncer brotando dentro dela... Como uma semente do mal... Eu vi a sujeira debaixo do tapete...Eu vi a lâmina na manga do assasino.
   Ah! Fiquei nervoso... Com vontade de urinar... Existiria um banheiro neste mundo espiritual? Ou usaria a privada dos vivos, mesmo?
   Vi então, homens entrando por uma porta... Reconheci que era um "banheiro publico ectoplásmico", sobreposto a estante da sala do jovem casal.
   Me aproximei do mictório. O homem ao lado me olhou desconfiado:
   --- Oi!
   ---Olá!
  ---Vem sempre aqui?
  --- Não. Eu morri a pouco.
  --- Como foi?
  --- Eu fui enforcado.
  --- Qual seu crime?
  --- Ser diferente dos outros. Ou pelo menos, não esconder isto.
  --- A morte lhe cai bem!
  --- Oquê?
      Ele fez um gesto com o indicador, reparei que eu estava vestindo uma espécie de manto transparente, todo coberto por letras...Muitas letras... Minusculas e maiusculas...E os meus sentimentos faziam com que se formassem palavras diferentes:
    "Espanto" "Solidão" "Saudade"
  --- Não entendo... Não posso ter saudade de nada de lá... Eu não fazia parte daquilo...
     O homem sorriu...O jato de urina caía como uma cascata infinita:
  --- Todos fazemos... Só não podemos deixar que os outros nos façam pensar o contrário.
     O vaso transborda... O "mijo do outro mundo" me sobe até os joelhos... Tinha que sair de lá...
     De repente...Não havia mais banheiro... Mas, eu estava mergulhado numa fonte cheia de rosas... No alto, um anjinho pelado dirigia contra o meu rosto, o pipizinho de onde jorrava àgua cristalina. E seu sorriso era o mesmo do homem do mictório:
  --- Volte, André! Ainda não acabou!
   --- Não! Eu não quero!
       Au! Au! Au! Au!
      Olho em volta, e reconheço meu amigo cachorro, que pulava alegremente e cheio de vitalidade... Bem diferente do cadáver que abandonei no meio fio, e que provavelmente teve um sórdido enterro em algum caminhão de lixo.
   --- Olá, amigo! Então aqui é o céu dos bichos?
      Ele saiu correndo...E havia uma fenda no meio de uma àrvore... Ele passou por ela, e eu fui atrás... O ar de repente, ficou pesado... Já não conseguia correr como antes... Senti-me cansado... O campo verdejante deu lugar ao cinza do concreto... A escuridão do asfalto...
   --- Não!! Cuidado!! O carroooooo!!!!!!!!!!
      E lá estava eu novamente... Com o animalzinho morto em minhas mãos... O seu amor desmanchado em líquido rubro em minhas palmas hesitantes... E aquele cadáver era a personificação de minha dor... E o que fazer com esta maldita dor que me aflige? Criar letras...Uma atrás a outra... Formar palavras sobre este manto invisivel que nos reveste... Mas que não se chama morte... Mas, sim...Esperança...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Arte De Pedir Dinheiro Emprestado

   Aha! Pegadinha do malandro! Acharam que eu iria ensinar como pedir dinheiro emprestado, né? Não. Este texto se refere sobre a vez, em que encarei o fato de pedir dinheiro emprestado, como arte. Esse fato veio-me a lembrança, quando um sujeito veio me pedir dinheiro emprestado esta semana, para beber. Fiquei indignado! Mas, que coisa pobre! Não há "glamour" nenhum nisso!
   A unica vez em que pedi dinheiro emprestado, creio que já deva fazer uns dez anos. Tinha acabado de ler um dos livros de Henry Miller, e fiquei encantado com aquele sujeito, que acreditava no ato de escrever. Ele vivia para aquilo. Mas não ganhava nada, financeiramente falando, com seu talento. E tampouco tinha aptidão para o trabalho. Então, sobrevivia do dinheiro que pegava das mulheres com as quais tinha relações sexuais. Aparecia na hora das refeições, na casa dos amigos. E por fim, pedia dinheiro emprestado. Fiquei maravilhado com aquela existência "romântica". As aventuras sexuais eram bem tentadoras. Mas nada tinham a ver com minha realidade. Decidi então, fazer uma experiência artística. Pedir dinheiro emprestado, como li no livro de Miller. Na verdade, não estava precisando de dinheiro. Quer dizer, pobre sempre está precisando, só não era aquela situação "periquitante" de Miller.
   Queria pedir dinheiro, para sentir-me um pouco Miller. Sentir-me mais artista! Recorri ao quitandeiro ao lado do escritório, alguem com quem gostava de travar conversas filosóficas sobre sexo e outros mistérios da vida:
--- Você não pretende ter um filho, André?
--- Não. Eu não acredito nisso.
--- Não acredita que seja importante?
--- Acho o mundo um lugar horrivel para se viver, Marcos! Não desejo isso aqui, pra ninguem!
--- Mas é parte dos planos de Deus! Você deve deixar os seus genes! Continuar! Não acha?
--- Eu vou continuar, Marcos! Meu corpo vai virar comida pros vermes. O espirito continua! Um filho seria só a junção do meu esperma com um óvulo qualquer!
--- Ah! Você é espirita?
--- Eu acredito na existência infinita do espirito, Marcos! Não gosto de me rotular quanto a religião, essas coisas... Se for pra me definir... Sou poeta ou artista... Tenho uma "coisa católica" forte...Mas creio no espirito... Os espiritas põe filhos no mundo, pois crêem na sua evolução através da reencarnação...Creio nisso... Mas não me definiria exatamente como um desses espiritas... Porque a idéia de colocar alguem aqui, me causa repulsa... Mas, sim...Eu acredito nessas coisas...Mas não faria um filho, não... Quanto as pessoas como você...Que crêem nos "genes"... Fazem filhos puramente por egoísmo... Vaidade... Tem horror a idéia de fim absoluto após a morte... Ou de ficar sofrendo tormentos até um hipotético "juízo final"... E acham que vão continuar na terra através de um filho... Ignorando o quanto esse sujeitinho poderá sofrer neste inferno... Porque  o inferno é aqui, Marcão! O inferno exterior! E dentro de nós, o interior! Acho que, por não aceitar o exterior...Acabo criando um interior dentro de mim! (Santa redundância, Batman! Mas foi o que eu disse!)
--- Interessante seu ponto de vista!
    Marcos sorriu, colocando a mão sobre a boca banguela. Ele era bom para conversar, por não ser um fanático. Estava sempre aberto à opiniões diferentes da sua. Era como uma "esponja", a absorver idéias ao redor.
--- Você falou que se considera um artista. O que é arte pra você?
    Em vez de tentar responder, pensei em botar em prática a "experiência artística":
--- Marcão! Tenho que voltar ao trabalho! Discutimos isso depois! Poderia te pedir uma coisa?
--- Fala, André!
--- Será que você poderia me emprestar um dinheiro? No fim do mês eu te pago!
     Ele coçou a cabeça, mas se esgueirou atrás do balcão, e pegou algumas notas numa velha caixa de sapatos. Pensando talvez, que tal sacrifício rendesse uma boa discussão posterior, acerca da definição de arte.
    Eu já estava lhe respondendo o que era arte, para mim, através daquela ação. Mas o coitado não percebeu.
   Lembro que fiquei carregando aquele dinheiro no bolso, durante o mês inteiro. Eu pegava e examinava aquelas notas sujas e comuns, como qualquer outra, como se fossem objetos de arte abstrata. Tentando captar sua "lírica vibração." Curtindo aquela sensação gostosa, de ser como Henry Miller! Enquanto o pobre Marcos, que morava dentro da própria quitanda, passava um sufoco, com suas prateleiras vazias, numa escuridão tremenda, para economizar luz.
   Mas eu não tinha essa consciência, na época. Deslumbrado que estava, com meu "experimento artístico'! Me imaginava no Masp, exposto numa redoma de vidro, exibindo minhas "notas de dinheiro-pura arte" nas mãos! Desafiando a compreensão dos passantes:
--- O que há de arte nisso?
--- Ele pegou aquele dinheiro emprestado! Se trata de uma performance baseada na obra de Henry Miller!
--- Oh!
    E as pessoas, entendendo o significado da "obra", me aplaudiriam, e visualizava até, minha própria mãe, às lágrimas, orgulhosa de mim:
--- Aquele é meu menino!
    De repente, acordo de meu sonho, com a voz potente de meu patrão, me chamando:
--- André! Vem cá!
--- Pois não?
--- Quando você precisar de dinheiro adiantado, me peça! E não, para o quitandeiro! Ele veio aqui me cobrar!
--- Ah...Sim...Desculpe...
     E assim, acabou a minha experiência. O que era arte para mim? Acho que arte, é o que o artista diz que é arte. E não, o que o publico diz! Como no outro texto, em que falei do disco do Metallica com o Lou Reed. Aquele disco foi execrado...Porque é arte!
    Tomei uma bronca por pedir dinheiro emprestado. Mas, não fui compreendido. Aquilo era arte! Como meu amigo Junior, disse uma vez:
--- Se um cara se pendurar num poste...E dizer que é arte...É arte!
     Naquela época mesmo, comecei então, a carregar a toda parte, uma caixinha de fita K7, contendo vários pêlos pubicos. Ao mostrar às pessoas, invariavelmente a reação era essa:
--- Que merda é essa?
--- Isso é arte?
     Poisé! O artista que desafia as normas, que ousa, sempre vai se deparar com reações como essa. Mas. como sei que quem lê meus textos, tem a mente mais aberta. Menos suscetível a tais preconceitos. Desafio o caro leitor, a repetir minha primeira experiência mal sucedida, e convido-o para abrir, não apenas a cabeça, mas tambem a carteira, e fazer "arte" com este humilde poeta!
     Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí?

O Que Há De Puro

O vento
que bate nas flores
Açoite das circunstâncias
tentando quebrar a beleza,
Este vaso de porcelana
cujos cacos colados
palpitam em meu peito,
Este vaso que contem
todo o mel e todo veneno
que penetram-me os olhos,
Receptáculos do horror
que teimam, como imundo coador
recolher o que há de puro
de toda merda ao seu redor.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Rei Da Ralé

   Neste sábado, fui à um sarau diferente do que estou acostumado, o publico era formado por moradores de rua, e alguns deles tambem foram lá na frente, se apresentar.
   Fui pego de surpresa, não sabia que se tratava de um ambiente assim. Não consegui ir lá na frente. Senti-me intimidado com a algazarra e o cheiro de cachaça que impregnava o ar. Tinha um velhinho esbravejando que queria se apresentar, pois ele era "o melhor do mundo".
   Quando finalmente chegou sua vez, disse que iria cantar uma musica sua, registrada. E começou a tocar com dificuldade, o violão, e a cantar uma musica do Roberto Carlos.
   A emoção no seu rosto, me emocionou. Tá certo. Foi redundante o que acabei de dizer, mas foi isso, caraca! Simples! As vezes, as palavras são demais. Fiquei emocionado. Só isso. O homem espezinhado, ou pelo destino, se quiserem pensar assim, ou pelas circunstâncias. Fraquezas. Falta de oportunidades. Aquele ser esmagado se inflou. A substância espatifada tomou forma humana.
   Naquele momento, ele era grande. Ele era gente. Naquele momento, Roberto Carlos não tinha nenhum direito sobre aquela velha canção. O mendigo era o Rei! Os aplausos dos excluídos. Dos miseráveis. Dos invisiveis. E o rei tirou sua coroa e voltou a ser parte da pobre ralé. Seus lindos suditos.
   Porque naquele momento, naquele palco improvisado, eles eram lindos em sua imundície, seus hematomas, sua emporcalhada dignidade das ruas.
   Havia um travesti sentado a minha frente. Um rapaz com pés negros de sujeira, o beija de modo singelo. Chamando-o de princesa. E ele era, realmente, sua linda princesa, naquele momento. Uma doce menina, apesar da barba por fazer, e a tatuagem típica de presídio, nas costas.
   Não tenho mais palavras. Enrolei até demais. Pois foi tudo tão simples. Enquanto escrevo, "The Doors" toca no som, abrindo-me essas "portas da percepção". Vislumbro Jim Morrison, como um São Sebastião da sarjeta, com seringas e cacos de garrafa no lugar das flechas a dilacerar-lhe a carne, enquanto me diz: "This is the end...My only friend...The end..."

O Amor Do Mundo

Entre muros e paredões,
Entre murros e empurrões
Procurei o amor,
Descobri que ele não exite no mundo
Está dentro de mim,
Está dentro de meu âmago,s
Ah! Minh'alma é um pênis em estado de ereção!
E a seiva que brota de sua cabeça entumescida
são minhas lágrimas,
O amor do mundo é um chicote
E para gozá-lo
é preciso humildade
e uma boa dose de masoquismo.


André Diaz

quinta-feira, 22 de março de 2012

Aqueles Olhos Verdes

Andei na noite,
a esperança como lanterna,
Troca de olhares no caos,
Aqueles olhos verdes!
Como não parar?
O assunto que saía da boca
Deus! Era sobre as crianças carentes!
Uma vergonha,
mas não me interessava,
Queria me agarrar àqueles olhos,
Como duas bóias
num oceano feito de nada,
Fui embora,
sem deixar contribuição,
Correndo ao banheiro publico,
E derramar
a semente de minha solidão.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Nos Rastros Do Desamor

Caminho
desgostoso com o que me cerca,
Sem saber ao certo
meu lugar no mundo,
Se o fim das ilusões
faz parte de um ciclo que se encerra,
se são tesouros imaginários
enterrados num poço sem fundo,
Se há um espirito igual
esperando para ser amado,
se este ser, afinal,
neste mundo, não estará encarnado,
Se a criatura que anseio
tanto, tanto em ter em meus braços
jamais me dará abrigo em seu seio,
Ou se já nasceram desfeitos
Esses mágicos laços,
Como disse o caro amigo
devo procurar a alegria nas coisas simples,
Devo procurar o sentido
onde nunca procurara antes,
Vou então, percorrendo
esses rastros do desamor,
chorando e percebendo
que em cada esquina
Deus sempre me deixará uma amostra de sua bondade
Na forma de uma linda flor!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Uma Crônica Quase Vampiresca

   Acabei de devolver o livro "Drácula", de Bram Stoker, para meu amigo Paulo. Ele me perguntou se eu já tinha lido, pois se tratava de um calhamaço considerável. Disse que sim, mas menti. Cheguei quase ao final, mas não consegui terminar, pois  me senti deveras perturbado. Fiquei com muito medo, na verdade!
   O horror não me interessa mais como na adolescência. Recentemente, o tema vampírico veio a me chamar a atenção novamente, quando parei para assistir a série "Diários de Um Vampiro", no SBT. Fiquei cativado pelos belos rostos e pelo conflito "bem e mal", "mortal e imortal". Está certo que é uma série voltada para o publico adolescente, com um "quê" da infame saga "Crepúsculo", mas não sou tão radical assim, e até mesmo o "Crepúsculo", ao qual assisti o primeiro filme, não chega a ser tão desprezível, pois a fotografia e elenco são bonitos. Mas peca pelo roteiro fraquíssimo, e na idéia de jerico de fazer o vampiro brilhar na luz do sol. Fui atrás da fonte da "beleza vampírica". Percebi que o que me atraia nesses personagens, não era o horror, não era a monstruosidade. Mas sim, a sua "humanidade". Vê-los como a analogia daqueles que vivem à margem, os vampiros representam os "outsiders" da sociedade. E a mãe dessa idéia se chama Anne Rice, a autora das "Crônicas Vampirescas", iniciadas pelo fantástico "Entrevista com o Vampiro", com tradução no Brasil feita por Clarice Lispector, transformado em filme nos anos 90, estrelado por Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Banderas, passando muito bem a imagem na verdade, de "anjos caídos" e não de monstros, simplesmente. O que não me agradou no "Drácula", que é apenas uma história de monstro, com o mero objetivo de assustar. Mas como obra literária, o livro de Stoker é muito bom, sem duvida. Se trata de um "romance epistolar", formado por cartas e diários de vários personagens, mas no quesito "charme vampírico" é um verdadeiro "horror"!
   A saga de Rice (estou agora na metade de "O Vampiro Lestat") foi iniciada como válvula de escape para a dor da perda de sua filha ainda pequena (personificada na mini-vampira de "Entrevista"), abalando a sua fé, e tudo isso transparece nos diálogos filosóficos dos personagens. O bem e o mal, a existência de Deus, o que vem depois da morte. A imortalidade vale a pena? A obra de Rice é arte verdadeira. Feita de dor e duvida pungentemente humana. Não uma bobagem arquitetada simplesmente para arrancar o dinheiro de mocinhas suspirantes por romance, como o "Crepusculo".
   Olho para esses vampiros, como num espelho, e eles se refletem em mim. Não são demônios estupidos como Drácula, sem reflexo algum a ser refletido,  eles são a pura imagem do poeta! Se esgueirando, existindo e ao mesmo tempo não, passando despercebidos dos simples mortais entretidos em suas vidinhas vazias. O poeta não se alimenta de sangue, mas suga a beleza ao seu redor. Assim como os vampiros, ele sente tudo de forma mais forte. A dor é muito maior para ele. Quando ama, ama de maneira muito mais intensa! E o poeta não crê no fim! Ele será  sempre eterno! Mesmo que as estacas do cotidiano venham a se enterrar em seu coração apaixonado, mesmo que sua esperança seja reduzida a cinzas, sua essência não pode ser destruída. Pois mesmo que seja visto como um monstro pela maioria ignorante, sua beleza será enxergada pelos olhos mais sensíveis.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Flor Vermelha

Estávamos presos naquele desejo,
Uma cela quente e abafada
Com paredes decoradas
Com fotografias pornográficas.
Éramos papai e mamãe,
Médico e paciente,
Estávamos presos,
Sonhando com a liberdade.
Meu sexo despontava
Como uma flor vermelha,
Mas os espinhos da ignorância
Me impediam de manipulá-la
Com perfeição.
Desejava gozar aquele amor,
Mas era como se tivesse
Uma argola de aço no saco,
Apertando mais e mais,
Não vivi o que pretendia,
Mas essa privação
Moveu os pinceis de minha mente,
E acabei pintando
Um dos mais belos e inocentes
Quadros de minha vida.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fogão Sem Gororoba

Desliguei de você,
arranquei meu fio
da tua tomada,
Vou sentir falta do teu
chacoalhar de máquina de lavar,
Mas você veio com
essa frieza de geladeira,
Esquentei a cabeça
que nem microondas,
Acabou meu gás,
Sou um fogão
sem gororoba agora,
Com um coração de liquidificador,
E quer saber duma coisa?
Vou é fazer uma bela vitamina
Com o fim do nosso amor!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pincéis

O artista
afunda-se em duvidas
tal oceano infinito,
As vezes, pensa fechar os olhos
e parar de respirar,
Mas os pincéis em sua mente
não param de pintar quadros
sempre com o mesmo tema,
Uma linha tortuosa de tinta negra
rumo a uma luz que nunca se apaga,
que nunca se esvai,
mesmo que o caminho
se encharque mais e mais
de vermelho sangue,
Lá estará a luz dourada
como um sol que nunca se esconde,
pois as trevas ficaram para trás.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Caroço

Me afundo
no oceano profundo
do edredom quadriculado,
Enquanto Deus torce
as nuvens lá fora
feito toalhas encharcadas,
Dia de tristeza e solidão,
Tristeza que nem fome
Aquele vazio de apertar as tripas,
Solidão que nem dormir
sem travesseiro,
Aquela coisa fofa
em que afundamos a cabeça
faz falta,
A musica alta é como
o aguaceiro lá fora,
Leva tudo embora,
até a ultima faixa,
e o coração está seco de novo
Que nem a ameixa vermelhinha
que comi a pouco,
Só sobrou o caroço.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Calendários

Recomeçar,
Um novo ciclo
dentro de você,
Este casulo
eternamente fechado,
As asas agitam-se,
Procuram escapatória,
Mas você ainda é um casulo
feito de inércia,
Diante do calendário
feito de papel,
Marcando cada mancada,
cada medo,
em quadradinhos de 1 a 30,
às vezes, 31,
Um dia a mais
que deixou passar,
Passar igual ao anterior,
Um dia a mais,
Um passo atrás,
mais um calendário
a se rasgar,
Sabe que não deve culpá-lo,
1 de janeiro de 2012,
Mais um ano ruim foi pro lixo,
Pare de fingir
que não tem nada com isso,
Liberte as asas
e voe.