segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Braços



Cabisbaixo

andava

debaixo do céu cinza,

chutou algo que rolou

até a sarjeta.

Limpou as camadas de lama

das pontas,

enfiou no bolso,

foi pra casa.

Lavou,

começou a brilhar.

Sorrindo

correu até o quarto

pendurou em cima da cama

e ficou olhando

o brilho das pontas


enquanto lá fora, estouravam rojões anunciando mais um ano novo,

E o brilho foi aumentando, até se tornarem braços 

que embalaram seus sonhos,

Eram os braços da pessoa amada

perdida num tempo longínquo,

personificada agora,

numa simples estrela
de papelão dourado.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Mortos Não Tem Cãibras

   Uma e trinta da madrugada. Como a pessoa impossivel de ser amada. Seu corpo macio é feito de cobertura de bolo. Meus dedos afundam em sua cintura. Seus braços me enlaçam, balançam e caem. Percebo então, os sonhos são feitos de cobertura de bolo. E a realidade é aquela parte mais seca, que a gente é obrigado a engolir, pra não fazer desfeita. Começa a chover Coca-Cola. Ela derrete toda. Meu sonho se desfaz entre meus dedos trêmulos. Acordo com vontade de urinar.
   Escuro. Cãibra. Queda. Babo no assoalho, enquanto rezo para Nossa Senhora das Dores Lancinantes.    Levanto e agradeço a graça alcançada, de não ter me partido ao meio, na quina da mesinha de cabeceira.
   Amanhece.  E com o sol, vem a dor nas costelas. Agradeço. Estou ferrado, mas estou vivo. Vivo no dia de finados. O dia em que rezamos por aqueles que já não tem cãibras, nem dores do lado.

Essência Envenenada

Achei meu coração
enterrado no cemitério dos velhos sonhos,
Já não batia como antes
Mal podia reconhecê-lo
Cada fraca palpitação
era um código morse
que já não me dizia nada
os anos 2000 não são coloridos
como o desenho dos Jetsons,
A revolução industrial
mastigou com seus dentes metálicos
cada vestígio da frágil semente,
Bolhas esverdeadas de sabão
estouram todos os dias,
O indio mata para comprar droga,
Enterro de volta, o meu coração
Quem sabe,
Quem sabe um dia
o desenterre para um transplante,
Esta troca tão sonhada
da inocente essência envenenada.

Dia de Finados

Chegará o dia de finados,
quando o olhar desviado
da miséria alheia, estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o anseio em ser o primeiro
estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o preconceito
com o diferente, estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o riso diante da queda do outro
estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando o receio de se estender a mão
temendo ingratidão, estará morto.

Chegará o dia de finados,
quando essas palavras não forem apenas
escritas por mim,
e lidas por você,
mas colocadas em prática

Será o dia em que
não haverá mais morte,
e cada gesto, conterá a ressurreição.