sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Você Comeu Meu Coração

 

Já faz uma década

que vagueio à esmo,

com um rombo em meu peito,

Sabe porque, amor?

Você comeu meu coração!

Se fartou com minha entrega e carinho,

Não só de presentes materiais

mas todo meu sentimento palpitante

numa bandeja de prata

a respingar sangue e paixão

nos fins das tardes ao teu lado,

Senti o medo em teus olhos,

Era uma refeição farta demais?

Seu apetite não chegava a tanto?

Teu garfo não daria conta?

Mas você comeu meu coração, assim mesmo,

Vomitando os restos,

Enjoado de ti mesmo,

E me mandou embora,

Mesmo sem expressar essas palavras,

E eu fui,

Como alimento rejeitado,

Jogado no lixo do medo,

Apodrecendo aos poucos,

Corroído pelos vermes da saudade,

E cada lágrima como chorume

haverá de feder em tuas narinas,

E não terás uma noite tranquila,

Pois meu cadáver putrefato

Irá de assombrar teus sonhos mais íntimos

e enfiará tua cabeça altiva

no rombo de meu peito escancarado!

Flores Abertas

 

Você abriu

o cadeado de minha tristeza,

e então se partiu

a corrente que me prende a essa certeza


Que os dias eram todos maus

e que o sol nunca iria se pôr

mas cada momento contigo, era como um degrau

que me levava a um fogo ardente e redentor


Que me queimava desde dentro

ao ritmo da chibatada recebida,

que me trazia então, alento

a esta personalidade repartida


E me arrastava para a noite

de encontro a tuas mãos inquietas,

do suor, do couro e seu doce açoite,

Ostento agora, com orgulho, minhas feridas como flores abertas


E estremeço feliz

na lembrança das sonosras estaladas,

Afinal, era tudo o que sempre quis

Que me arrancasse as dores da alma, na ardência da pele esfolada!


sábado, 8 de outubro de 2022

Caminhão da Luxuria

 

Sou um vulcão 

em erupção,

Minha lava 

queima tudo em minha volta,

até essa distância pesada

de concreto

que me separa de você,

Meus mamilos 

são pontas de lança afiadas

perfurando

a venda de teus olhos

que não souberam enxergar meu desejo,

Esfrego minhas coxas inquietas

como duas rodas a toda velocidade

deste caminhão da luxuria

que é meu corpo grande e pesado,

cujo motor em brasa

expele o óleo orgásmico

dos orifícios mais íntimos

como graxa lubrificante,

Vem amor!

Pode embarcar!

As portas sempre estiveram abertas para você!


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Eterno Reflexo do Sol

 

Sento 

em frente a tua lembrança,

como diante de um quadro antigo

e belo!

Belo e saboroso como um dos pecados

mais satisfatórios,

Como a mordida na maçã

e Satã, em forma de serpente, a se insinuar debaixo do tecido,

Me alimento 

de tua jovem imagem

enquanto meus cabelos embranquecem e rareiam,

gritando aos meus ouvidos surdos

a não ser a tua voz ao longe,

que segundos, minutos e diversas horas nos separam

daqueles momentos de felicidade eterna

que era estar ao teu lado nos finais das tardes,

E começava a noitecer

mas que me importava?

O sol continuava ali...Radiante...

E o reflexo fazia com que as estrelas 

brilhassem em meus olhos apaixonados!

Rosa de Devoção

 

Tua voz tem frios braços

que me embalam,

acalmando-me dos tormentos,

dos dias repletos de ignomínia

e almas mesquinhas a penarem cotidianamente,

Tua voz me embala

contando-me histórias do oculto

e do silêncio dos que já se foram,

Descanso em paz, enfim,

nos braços de cada sílaba

de tua tétrica poesia,

Oh noite! Dama da escuridão!

Não te cales

diante de minha afeição,

Derrama tuas palavras

como o vento sussurrante e sombrio

em cima deste peito petrificado

e faz florecer uma rosa de devoção

na lápide fria

que é este aquebrantado coração!

Memórias de Polaroid

 

Será que você ainda guarda aquela velha fotografia? Registro de um momento de loucura e esperança de amor? Primórdios da internet discada. As batidas de meu coração acompanhavam aquela discagem que muitas vezes falhava. Mas minha vontade de te conhecer não falhava nunca. Nos falamos então, por telefone fixo. Você me pediu uma fotografia. De roupa social. Você achava bonito homem de roupa social. Pedi para alguém tirar. Vesti minha melhor roupa e fiz pose de homem sério. A máquina Polaroid cuspiu na hora aquele registro de ansiedade. Mandei a foto pelo correio. Para o endereço de seu trabalho. Era muito cedo para saber onde você morava. E eu, tolo, aceitei. Você me achou bonito. Marcamos de nos encontrar no cinema do shopping. Estreava o primeiro filme dos "X-Men"..Poxa..Tem mais de vinte anos, hein? Esperei... Vendo as pessoas entrando. O filme já ia começar. Me senti tão estranho e excluído como os mutantes do filme. Mas sem nenhum super poder. Te liguei do próprio banco onde você trabalhava num setor interno, de um telefone que me indicaram. Você me disse que não poderia mais me conhecer. Que seu ex voltou para você. Para eu não fazer escândalo e ir embora. Exigi minha fotografia de volta. Você disse que mandaria e estou esperando até hoje... Posso vê-la perdida em meio a mais um monte de homens bonitos de roupa social... Era seu fetiche, não é? Você nunca de fato, pensou em me conhecer pessoalmente... Relembrei de tudo isso ao achar uma foto daquela época. Não estou usando roupa social. Mas... Meu Deus... Como eu era bonito... Aproximo então, esse homem jovem para meus lábios já murchos e cinquentões e beijo a face de dias de sonhos e vitalidade que nunca mais voltarão...