terça-feira, 21 de julho de 2026

Congelante Arrependimento Eterno

 


Desculpe, mas não posso te enganar

Fingir que o céu é todo azul,

que não há em sua face nuvens brancas a flutuar

assim como estrias e cicatrizes no corpo nu


Desculpe, queria muito poder te amar

Contigo fazer a volta perfeita no novelo da vida,

e deixar-me por ela, naturalmente tricotar

tendo um no outro, agasalho quente e sob medida


Ninguém conhece ninguém tão bem

nem sabe de fato, de que material o outro é feito,

e com as possibilidades, nosso desejo de entretém,

apertando um falso cachecol, de encontro ao ansioso peito


Mas nada de irreal

irá sustentar-se ao mais rigoroso inverno,

e o mais simples encontro de corpos, poderá ser fatal

Resultando em congelante arrependimento eterno



André Diaz

terça-feira, 14 de julho de 2026

Coração de Espinhos

 




No sombrio jardim de teu desprezo

tentei acessar como flor teu inacessível coração,

aquele ao qual dediquei descomunal apreço

Regando-o com minhas lágrimas em vão


Nele não pude encontrar abrigo

Ferido, me senti ainda mais sozinho,

Sei que manter-me fiel a este amor, não faz sentido

Perfurado profundamente por este coração de espinhos


Tentei repor no àlcool

todo o sangue e todo fluído que perdi

Mas cada vez sinto-me mais fraco,

Mas morrendo conciente, que chorei, mas muito mais gozei por ti


André Diaz


Foto: Paulo D'Auria



terça-feira, 7 de julho de 2026

Gol de Placa das Ilusões"



O verde maceta e o amarelo vibra

ao meu redor, mas não adianta,

A cor de minh'alma é cinza

e o escapismo futebolístico não me encanta


Não me encanta no sentido de fazer te esquecer

me encanta sim, o espetáculo de cores e corpos,

mas entre estes corpos, não está você

às vezes, penso que só te encontraria entre os mortos


Num desses túmulos baratos

que terminam como dormitórios de mendigos,

e em vez de meus beijos, estaria coberto de ratos

Será enfim, uma carcaça, e não mais o meu abrigo?


O que dói é esta incerteza,

Se você existe mesmo, agora, só nas recordações

que lubrifico com várias latas de cerveja,

Como um gol de placa das ilusões



André Diaz 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Chupado Até o Palito

 

O odor pungente 

de tuas calças e calçados

perdeu-se em meio ao redemoinho

de lembranças embaçadas,

como o vidro da janela

que limpei agora,

mas não há produto de limpeza

para as desilusões,

nem removedor

que apague este teu sorriso debochado,

Não consegui transpor

a guarita de teu coração,

Deixou-me estacado, sem acesso,

acumulando junto com os anos

todo este sujo ressentimento,

E agora, com o trapo esburacado da poesia

tento botar a limpo

este sentimento puro, mas maculado por tua covarde atitude,

de jogar ao chão de meu limpo coração

o papel lambuzado de meu amor, mordido e chupado até o palito


André Diaz