terça-feira, 14 de julho de 2026

Coração de Espinhos

 




No sombrio jardim de teu desprezo

tentei acessar como flor teu inacessível coração,

aquele ao qual dediquei descomunal apreço

Regando-o com minhas lágrimas em vão


Nele não pude encontrar abrigo

Ferido, me senti ainda mais sozinho,

Sei que manter-me fiel a este amor, não faz sentido

Perfurado profundamente por este coração de espinhos


Tentei repor no àlcool

todo o sangue e todo fluído que perdi

Mas cada vez sinto-me mais fraco,

Mas morrendo conciente, que chorei, mas muito mais gozei por ti


André Diaz


Foto: Paulo D'Auria



terça-feira, 7 de julho de 2026

Gol de Placa das Ilusões"



O verde maceta e o amarelo vibra

ao meu redor, mas não adianta,

A cor de minh'alma é cinza

e o escapismo futebolístico não me encanta


Não me encanta no sentido de fazer te esquecer

me encanta sim, o espetáculo de cores e corpos,

mas entre estes corpos, não está você

às vezes, penso que só te encontraria entre os mortos


Num desses túmulos baratos

que terminam como dormitórios de mendigos,

e em vez de meus beijos, estaria coberto de ratos

Será enfim, uma carcaça, e não mais o meu abrigo?


O que dói é esta incerteza,

Se você existe mesmo, agora, só nas recordações

que lubrifico com várias latas de cerveja,

Como um gol de placa das ilusões



André Diaz 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Chupado Até o Palito

 

O odor pungente 

de tuas calças e calçados

perdeu-se em meio ao redemoinho

de lembranças embaçadas,

como o vidro da janela

que limpei agora,

mas não há produto de limpeza

para as desilusões,

nem removedor

que apague este teu sorriso debochado,

Não consegui transpor

a guarita de teu coração,

Deixou-me estacado, sem acesso,

acumulando junto com os anos

todo este sujo ressentimento,

E agora, com o trapo esburacado da poesia

tento botar a limpo

este sentimento puro, mas maculado por tua covarde atitude,

de jogar ao chão de meu limpo coração

o papel lambuzado de meu amor, mordido e chupado até o palito


André Diaz

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Vastidão de Esquecimento

 


Você correu atrás de pertencimento,

como um ser sequioso de água no deserto,

Achando encontrar um oásis

no primeiro sorriso que te deram,

Mas, sempre uma miragem,

Os sorrisos eram sempre de pouco caso,

Quis se brutalizar,

Viu que a delicadeza

não sobreviveria ali,

Tentou se adaptar ao austero ambiente,

Uma flor desidratada

na aridez deste deserto,

tentando se passar por cacto,

Mas, a areia do tempo é impiedosa,

Te enterrará completamente,

Outras flores crescerão

num ciclo de vida e morte implacável,

E seus dramas, agora insuportáveis

não serão nada mais

que um grão,

nessa vastidão de esquecimento



André Diaz


terça-feira, 2 de junho de 2026

Entranhas Confidências

 

Deixa... Deixa eu boiar

O afogamento ainda não é para agora

Bater os braços até cansar

Fugir da tormenta lá fora


Encher os pulmões de úmidas reticências

e ter as "entranhas confidências" arrancadas

Ensopado, mas seco apenas de aparências

Partido em dois, como por um peixe espada


Pensamos muito em um vilão

que neste mar de duvidas, irá nos vitimar

Pensamos que será provavelmente a bocarra do tubarão

mas no fim, é só a pedra da inércia, nos puxando, amarrada em nosso calcanhar



André Diaz

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pequenas e Bestas Alegrias

 Vejo o trem da vida passar

na minha frente, e nada posso fazer,

E este trem não traz alegria, apenas se põe a tentar

ser algo mais que uma paródia, feita para me entreter


Vejo em suas janelas, rostos de vozes cantantes

que tentam, numa era passada, me acolher,

mas tenho consciência de que nada será como antes

e lamentar o tempo perdido, é a única coisa a se fazer


Enfim, percebo que só devo me contentar

com as pequenas e as mais bestas alegrias,

como quando um estranho vem a minha camisa elogiar

e devolvo o elogio, encerrando assim, mais um desesperançoso dia....



André Diaz




domingo, 17 de maio de 2026

Oficina Boca de Porco dos Corações Partidos



Não...Não se engane

Todas as ruas são sem saída,

por mais que o combustível se inflame

Não há destino certo, após se dar a partida


Não...Não há como enxergar

no embaçado espelho retrovisor,

o próximo canalha que irá te fechar

e por ele você irá fundir o seu motor


Arrastando sua judiada carroceria

até a oficina boca de porco dos corações partidos,

Numa via unica, unica via

Perda total dos poetas automotores desiludidos...



André Diaz